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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Poder do Agora


meditacao-3O texto é desenvolvido com base na afirmação filosófica de que o passado e o futuro não existem.
A clareza como o autor desenvolve o tema permite a reflexão sobre questões que levam o indivíduo a assumir a vida que não é a sua, imaginando retroceder no passado e projetando um futuro inexistente.

Realidade distorcida

As mudanças sugeridas, certamente, influenciarão na percepção de novos valores, responsáveis pela alteração nos relacionamentos e no bem-estar das pessoas.
Este estado de espírito é inibido devido à obscuridade imposta pelo ego.
Quantas vezes já ouvimos das pessoas que nos cercam a citação a respeito do Agora?
São muitas as justificativas para alteração do comportamento a respeito do futuro.
Algumas passaram por situações de risco de vida, outras romperam com relacionamentos duradouros, sobreviveram a crises financeiras ou encontram-se com idades avançadas.
Todas entendem que o Agora é determinante para usufruírem daquilo que construíram no passado.
Vale lembrar, para entendimento da questão, que o passado e o futuro não existem.
O autor chama a atenção para o fato de que a nossa mente psicológica se encarrega de impedir o bem-estar.
Exerce a influência do nosso ego e impede a nossa percepção do Agora.
Em vez do Agora a mente psicológica nos remete ao passado e ao futuro como forma de evitar a percepção do Ser.

Mente psicológica

Para nos precavermos da influência da mente psicológica precisamos observá-la de forma crítica e analítica identificando para onde ela pretende nos levar.
Seria um exercício de distanciamento de algo que nos incomoda.
A destreza dessa percepção permite nos manter no Agora, todas as vezes que a mente psicológica tentar influenciar nas ações baseadas no passado e no futuro, como sempre o faz.
O sucesso está em considerarmos que a mente psicológica não é parte de nós, mas, algo responsável por manter o ego sempre no comando das nossas ações.
O excesso de futuro nos traz como consequências o desconforto, a ansiedade, a tensão, o estresse e a preocupação.
O excesso de passado acarreta o sentimento de culpa, arrependimento, ressentimento, injustiça, tristeza e amargura.
Sendo assim, a convivência com a mente psicológica, atuando nestes dois contextos, impede o bem-estar sentido na convivência com o Agora.
“Por que o Agora é a coisa mais importante que existe? Primeiramente, porque é a única coisa. É tudo o que existe. O eterno presente é o espaço dentro do qual se desenvolve toda a nossa vida, o único fator que permanece constante. A vida é agora. Nunca houve uma época em que a nossa vida não fosse agora, nem haverá. Em segundo lugar, o Agora é o único ponto que pode nos conduzir para além das fronteiras limitadas da mente. É o nosso único ponto de acesso à área atemporal e amorfa do Ser.”
“Nada jamais aconteceu no passado, aconteceu no Agora. Nada jamais irá acontecer no futuro, acontecerá no Agora. O que consideramos como passado é um traço da memória, armazenado na mente, de um Agora anterior. Quando nos lembramos do passado, reativamos um traço da memória e fazemos isso Agora. O futuro é um Agora imaginado, uma projeção da mente. Quando o futuro acontece, acontece como sendo o Agora. Quando pensamos sobre o futuro, fazemos isso no Agora. Obviamente o passado e o futuro não têm realidade própria.”
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“Enquanto o ego dirige a nossa vida, não conseguimos nos sentir à vontade, em paz ou completos, exceto por breves períodos, quando acabamos de ter um desejo satisfeito. O ego precisa de alimento e proteção o tempo todo. Tem necessidade de se identificar com coisas externas, como propriedades, status social, trabalho, educação, aparência física, habilidades especiais, relacionamentos, história pessoal e familiar, ideais políticos e crenças religiosas. Só que nada disso é você.”

O medo

medo-1O autor trata o medo como uma algo fora de um contexto real, até porque ele pode ser resumido a uma projeção mental de algo que não aconteceu e poderá nunca vir a acontecer.
Difere de situações reais nas quais se apresentam dificuldades que requerem atenção específica para gestão.

“A doença psicológica do medo não está presa a qualquer perigo imediato concreto e verdadeiro. Manifesta-se de várias formas, tais como agitação, preocupação, ansiedade, nervosismo, tensão, pavor, fobia, etc. Esse tipo de medo psicológico é sempre de alguma coisa que poderá acontecer, não de alguma coisa que está acontecendo neste momento. Você está aqui e agora, ao passo que a sua mente está no futuro. Essa situação cria um espaço de angústia. E caso estejamos identificados com as nossas mentes e tivermos perdido o contato com o poder e a simplicidade do Agora, essa angústia será a nossa companhia constante. Podemos sempre lidar com uma situação no momento em que ela se apresenta, mas não podemos lidar com algo que é apenas uma projeção mental. Não podemos lidar com o futuro.”

Projeções do futuro

Sobre o tempo psicológico o autor classifica com uma doença mental.
Considera que muitas das projeções feitas a respeito da busca do futuro ideal levam os indivíduos a cometerem atrocidades e manifestações coletivas desastrosas, ao apostarem em um suposto bem maior, no futuro, acreditando que o fim justifica os meios.
“O fim é uma ideia, um ponto na mente projetado no futuro, quando a salvação, sob a forma de felicidade, satisfação, igualdade, libertação, etc., será alcançada. Muitas vezes, os meios para atingir o fim são a escravidão, a tortura e o assassinato de pessoas no presente. 
Por exemplo, estima-se que cerca de 50 milhões de pessoas foram assassinadas para promover a causa do comunismo e levar a um “mundo melhor” na Rússia, na China e em outros países. Esse é um exemplo terrível de como uma crença em um paraíso no futuro cria um inferno no presente.”

Sem padrões

O autor propõe a observância constante da mente psicológica, cujo ego impede o comando da vida, sem padrões e condicionamentos mentais que possam dificultar vivenciar o Agora. Lembra que ao nos aproximarmos da morte renunciamos ao ego e a verdade aparece de forma despojada e leve.

Por que meditar

Para os que ainda não possuem familiaridade com a meditação o autor descreve o processo e sugere a prática durante 10 a 15 minutos. Posso assegurar que a prática libera a mente para as atividades diárias, promove o equilíbrio psicológico e ajuda a manter boas relações interpessoais.
Aventure-se!
Experimente uma, duas, três ou mais vezes até obter, com a prática, facilidade do processo!

Como meditar

meditacao-2“Providencie para que não haja distrações externas, como telefonemas ou pessoas que possam interromper. Sente-se em uma cadeira, mas não encoste. Mantenha a coluna ereta. Isso ajuda a ficar alerta. Você também pode escolher uma posição favorita para meditar.
Certifique-se de que o seu corpo está relaxado. Feche os olhos. Respire profundamente algumas vezes. Sinta a respiração na parte inferior do abdômen. Observe como ele se expande e se contrai levemente, a cada entrada e saída do ar. Depois, tome consciência de todo o campo de energia interior do seu corpo. Não pense a respeito, apenas sinta-o. Ao fazer isso, você retira a consciência do campo da mente. Se ajudar, visualize a “luz” que descrevi anteriormente.
Quando você não encontrar mais obstáculos em sentir o corpo interior como um campo único de energia, descarte, se possível, qualquer imagem visual e se concentre apenas na sensação. Se possível, descarte também qualquer imagem mental que você ainda tenha do corpo físico. O que sobrou é uma abrangente sensação de presença ou “existência” e uma percepção de um corpo interior sem fronteiras. A seguir, concentre sua atenção mais fundo nessa sensação. Forme uma unidade com ela.
Junte-se de tal modo ao campo de energia que você não mais perceba a dualidade entre o observador e o observado, entre você e seu corpo. A separação entre o interior e o exterior também se dissolve nesse momento, e, assim, não existe mais um corpo interior. Ao entrar profundamente no corpo, você transcendeu o corpo.
Permaneça nessa região do puro Ser pelo tempo que você se sentir bem. Depois, retome a consciência do corpo físico, da sua respiração, dos sentidos, e abra os olhos. Observe o que está à sua volta por alguns minutos, em um estado meditativo, isto é, sem dar nome a nada, e continue a sentir o corpo interior enquanto faz isso.”

Eckhart Tolle

eckhart-tolle-1Pseudônimo de Ulrich Leonard Tolle nasceu em Lünen, na Alemanha, em 16 de fevereiro de 1948.
É escritor e conferencista, residente no Canadá.
Depois de se formar pela Universidade de Londres, tornou-se pesquisador e supervisor da Universidade de Cambridge.
Aos 29 anos, depois de vários episódios depressivos, passou por uma profunda transformação espiritual, dissolveu sua antiga identidade e mudou o curso de sua vida de forma radical.
Os anos seguintes foram dedicados ao entendimento, integração e aprofundamento desta transformação, que marcou o início de uma intensa jornada interior.
Escreveu O Poder do Agora (2001), A prática do poder do agora: meditações, exercícios e trechos essenciais (2002), A voz da serenidade (2003), Um novo mundo: despertar para a essência da vida (2007), Guardiões do ser (2009) e O silêncio no mundo: lições do retiro de Findhorn (2011).

Referência bibliográfica

o poder do agoraTolle, Eckhart, 1948-
O poder do agora [recurso eletrônico] / Eckhart Tolle [tradução de Iva Sofia Gonçalves Lima]; Rio de Janeiro: Sextante, 2010.
Recurso digital
Tradução de: The power of now
Formato: ePub
Requisitos do sistema: Multiplataforma
Modo de acesso:
ISBN 978-85-7542-631-9 (livro eletrônico)
1. Vida espiritual. 2. Livros eletrônicos. I. Título.

A Metamorfose

Franz Kafka

franz-kafka-2É considerada uma das obras literárias mais importantes do século vinte.
O autor convida o leitor a acompanhar os sentimentos de Gregor Samsa, caixeiro viajante, surpreendido, ao acordar, com o corpo na forma de um inseto.

Metamofoseado

Gregor Samsa, metamorfoseado em inseto, pensa e sente como humano enquanto a sua família, diante da situação inesperada, demonstra sentimentos de repulsa e desconforto.
O surrealismo escolhido por Kafka para discutir um tema de extrema profundidade alcança objetividade clara e direta no momento que o leitor embarca no conceito filosófico da obra.
O leitor é surpreendido, logo no início do texto, ao ser informado que o protagonista foi transformado em um inseto.
Nada mais surreal para início de uma conversa! A curiosidade impera e ajuda a adentrar no espaço filosófico, sem saber onde se quer chegar.
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“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamofoseado num inseto monstruoso”.

Comportamento familiar

A narrativa chama a atenção para fatos que provocam alterações no comportamento das famílias, a exemplo da convergência do poder, imposição moral, alienação intelectual, ausência de liberdade, sentimento de culpa, dependência financeira, inversão de valores e outros comportamentos relacionados à convivência.
Isolado em seu quarto, excluído pela empresa e ignorado pela família, Gregor Samsa, sentiu, no corpo de um inseto, os reflexos das atitudes humanas e percebeu o incômodo da submissão social.

Surrealismo

O surrealismo foi utilizado para transgredir a sociedade valendo-se da situação extravagante, para valorizar a irracionalidade e a incoerência, com total despreocupação moral, no momento em que o protagonista se exclui da família e decide se apresentar de forma inesperada e rompendo com os valores sociais.
É algo inimaginável à época que o texto foi escrito.

Capitalismo

Além dos conflitos familiares o autor chama a atenção para a imposição do capitalismo quando o protagonista se nega a trabalhar.
O leitor percebe que se o protagonista for rotulado como vilão em vez de vítima perderá a beleza subjetiva da obra. Gregor Samsa, mostra a necessidade de mudança comportamental, na família, cuja sobrevivência dependia financeiramente dele.
Metamorfoseado, Gregor Samsa, liberta-se da pressão político-social e o que parece ser um castigo se transforma em liberdade.
Kafka surpreende e encanta pela complexidade, transforma o cotidiano em um estado surrealista e imprime perplexidade.
A obra apesar de escrita em 1912  mantém-se atualizadíssima.
Recomendadíssima a leitura!

Franz Kafka

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O escritor Franz Kafka nasceu no dia 3 de julho de 1883, em Praga e morreu, aos quarenta anos, de insuficiência cardíaca, no dia 3 de junho de 1924 em Klosterneuburg, Áustria.
Filho uma família judaica de classe média, seus pais Hermann Kafka (1852-1931) e Julie Kafka (1856-1934) eram comerciante.
A maior parte da população de Praga à época falava tcheco.
Era visível a divisão entre os que se expressavam em tcheco e alemão.
A língua era usada para fortalecer a identidade nacional.
Franz Kafka se expressava nas duas línguas, escrevia em alemão por considerar a sua língua materna.
Era o mais velho dos seis irmãos.
Georg e Heinrich, morreram antes do escritor completar sete anos e as irmãs Gabriele, Valerie e Ottilie morreram durante o holocausto, na Segunda Guerra Mundial.

Formação acadêmica

Kafka começou a estudar química, mas trocou o curso pelo de direito.
Formado em direito, fez parte, junto com outros escritores da época, da Escola de Praga. Esse movimento era basicamente uma maneira de criação artística alicerçada em uma grande atração pelo realismo, uma inclinação à metafísica, uma síntese entre a racional lucidez e um forte traço irônico.
Este estilo lhe rendeu o termo ‘kafkiano’ como algo complicado, tortuoso e surreal.
franz-kafka-e-ottilieKafka é considerado pelos críticos como um dos escritores mais influentes do século XX.
A maior parte de sua obra, como ‘A Metamorfose’, ‘O Processo’ e ‘O Castelo’, está cheia de temas e exemplos de alienação e brutalidade física e psicológica. A burocracia, as transformações simbólicas e os conflitos familiares são marcantes na obra do escritor.
Kafka preferia comunicar-se por cartas. Além de amigos próximos escrevia para a sua noiva Felice Bauer e sua irmã mais nova, Ottla Kafka.
franz-kafka-primeira-pagina-do-manuscrito-de-kafka-de-carta-ao-paiA mais famosa das cartas escrita pelo escritor foi dirigida ao seu pai, de mais de 100 páginas, nas quais ele reclama de ser profundamente afetado pela autoridade do pais.

Publicações

Apenas algumas das obras de Kafka foram publicadas durante sua vida.
Os trabalhos inacabados de Kafka, como os romances O Processo, O Castelo e O Desaparecido, foram publicados postumamente por Max Brod.
Kafka desejou que os seus manuscritos fossem destruídos após sua morte, contudo o amigo Max decidiu publicá-los.
Incansável leitor, leu Platão, Gustave Flaubert, Fiódor Dostoiévski, Franz Grillparzez e Heinrich von Kleist.

Atividades profissionais

franz-kafka-estatua-de-bronze-de-jaroslav-rona-em-pragaDepois de formado, trabalhou em uma companhia de seguros. Nesta época começou, no tempo livre, a escrever contos.
Com a herança de Hermann Kafka, seu pai, tornou-se sócio de Karl Hermann em uma fábrica de asbesto conhecida como Prager Asbestwerke Hermann & Co.

A Primeira Guerra e a doença

Kafka recebeu sua convocação para o serviço militar na Primeira Guerra Mundial, contudo, por considerarem o seu trabalho na companhia de seguros essencial para o governo, houve adiamento.
Posteriormente foi impedido de servir devido aos problemas de saúde associados à tuberculose, diagnosticada em 1917.
No ano seguinte, 1918, o Instituto de Seguros afastou Kafka devido à sua doença. Naquela época não havia tratamento eficaz obrigando-o a passar boa parte de sua vida em sanatórios.

Vida sexual

Kafka se relacionava com mulheres de forma ativa, contudo, apesar de desejar mulheres e sexo tinha pouca autoestima. Manteve relações íntimas com várias mulheres durante sua vida.
Conheceu Felice Bauer, uma parente do amigo Brod, com a qual se correspondeu durante cinco anos.
Ficou noivo de Julie Wohryzek, mas, apesar de os dois terem alugado um apartamento e marcando uma data para o casamento a cerimônia não chegou a acontecer, possivelmente devido às crenças sionistas de Julie, que defende o direito à autodeterminação do povo judeu. Hermann, pai do escritor rechaçadas a ideia.
Depois de Julie, Kafka se relacionou com a jornalista Milena Jesenská e com a professora Dora Diamant que terminou por influenciar o interesse do escritor pelo Talmude, livro considerado pelos judeus como sagrado.

Comportamento

Apesar de pouco empenho pelo esporte na infância, interessou-se, quando adulto, por jogos e atividades físicas, tornando-se um bom ciclista, nadador e remador.
Temia que as pessoas o achassem repulsivo física e mentalmente, contudo, os mais próximos percebiam um comportamento quieto e agradável, uma inteligência óbvia e senso de humor.
Para Pérez-Álverez, Kafka sofria de transtorno de personalidade esquizoide. Esse transtorno mantinha-o distante, individual e indiferente aos relacionamentos sociais.
Outros sugeriram que ele sofreu de um distúrbio alimentar e de anorexia nervosa que pode ter o levado à depressão.

A obra

Os contos foram primeiro publicados em periódicos literários, na revista bimensal Hyperion.
Escreveu Descrição de uma luta (1904), Preparativos para um casamento no campo (1907), Contemplação (1912), O desaparecido (1912), O foguista (1912), O veredicto (1912), A metamorfose (1912), O processo (1914), Na colônia penal (1914), Carta ao pai (1919), Um médico rural (1919), O castelo (1922), Um artista da fome (1922-24), e A construção (1923).


Referência bibliográfica

a-metamorfose-1Kafka, Franz. 1883-1924
Metamorfose / Franz Kafka; tradução e posfácio Modesto Carone. – São Paulo: Companhia das Letras,1997.
96p.
ISBN 978-85-7164-685-8
1. Ficção alemã I. Carone, Modesto II. Título.
(R)


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Memórias de Minhas Putas Tristes

Gabriel Garcia Márquez

memorias-de-minhas-putas-tristes-2Um homem que nunca fizera sexo sem pagar decide se presentear ao completar noventa anos.
O presente escolhido foi uma noite de amor com uma mulher virgem.
Queria uma mulher que exalasse pureza, diferentemente das muitas promíscuas que passaram por sua vida.
Juntou parte de suas economias acumuladas da aposentadoria e da remuneração como jornalista de um periódico e saiu em busca do seu objetivo.
Com a colaboração da amiga Rosa Cabarcas – proprietária de um prostíbulo – conseguiu contatar uma jovem de quatorze anos. A jovem terminou por desencadear a paixão do idoso a ponto de influenciar os textos de suas crônicas divulgadas no jornal aos domingos.
Apesar de o tema tangenciar a pedofilia, o texto é escrito de forma arguciosa e o leitor, sem perceber, é levado a desviar a atenção para outro ponto: a carência afetiva de um indivíduo de noventa anos.

Preconceito

A história chama a atenção para o amor e admiração entre parceiros, independentemente da idade, e coloca em discussão a possibilidade de pessoas viverem noventa anos sem experimentarem relações desprovidas de preconceitos e barreiras.
O idoso que sempre pagava pela companhia de mulheres, para não se comprometer, terminou experimentando sentimentos próprios de jovens apaixonadas a ponto de transbordá-los nas crônicas semanais no jornal El Diário de La Paz.
O envolvimento amoroso lhe possibilitou deixar de ser um colunista medíocre e tornar-se um escritor da primeira página, tal era a emoção imposta nos textos. Os leitores, por sua vez, aguardavam, com ansiedade, as edições dominicais.
memorias-de-minhas-putas-tristes-3Com a jovem Delgadina, o jornalista não mantinha relações sexuais. Contemplá-la, ao vê-la dormir em um dos quartos do bordel da cafetina Rosa, era o suficiente para mantê-lo vivo.
Após a ocorrência de um assassinato no bordel os amantes foram separados e o desencontro provocou, no idoso, sentimentos doentios de adolescentes.
Durante meses o velho cronista pôde sentir a intensidade da vida e se permitiu aguardar a morte, satisfeito por ter conseguido amar alguém.
A história apresenta um colorido psicológico contrapondo-se a valores morais e lembra a complexidade do que é envelhecer.
Leitura recomendadíssima!

Onde comprar

Memórias de Minhas Putas Tristes  – Lojas Americanas
Memórias de Minhas Putas Tristes – Livraria da Folha

Gabriel José García Márquez

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Gabriel García Márquez nasceu em 6 de março de 1927, na cidade de Aracataca, Colômbia.
Seus pais, Gabriel Eligio García e Luisa Santiaga Márquez, tiveram ao todo onze filhos.
Logo depois que García Márquez nasceu o seu pai se tornou um farmacêutico.
Dois anos após o nascimento do escritor seus pais se mudaram para Barranquilla. García Márquez permaneceu em Aracataca em companhia dos seus avós maternos, Nicolás Ricardo Márquez Mejía e Tranquilina Iguarán.
Aos oito anos, com a morte do avô, o escritor se mudou para Barranquilla (casa dos pais) e iniciou seus estudos no Liceu Nacional de Zipaquirá.
Em Bogotá cursou direito e ciências políticas na universidade nacional da Colômbia, mas abandonou a universidade antes da conclusão do curso.
Casou-se, em Barranquilha no México, com Mercedes Barcha com quem teve dois filhos, Rodrigo e Gonzalo.

Influências na obra do autor

as-mil-e-uma-noites-2Seu avô materno era um veterano da Guerra dos Mil Dias e suas histórias seduziram o neto.
Além dos contos baseados na coleção de histórias ‘As Mil e Uma Noites’ a sua avó Tranquilina, também, influenciou a criatividade do autor.
A adolescência de Gabo, como o autor era conhecido, foi marcada por livros. Um em especial chamou a sua atenção: A Metamorfose, de Franz Kafka.
Gabo se permitiu extrapolar a barreira da forma tradicional de contar histórias depois de ler Kafka.
Ora, se Kafka podia transformar o protagonista Grégor Samsa em um inseto, então, ele, também, poderia usar a ficção como forma impositiva sobre a realidade das suas histórias políticas, sociais e regionais.
Este fato resultou na criação do conhecido ‘Realismo Mágico ou Fantástico’ na literatura latino-americana.
Gabriel Márquez escolheu para sua referência William Faulkner, considerado um dos maiores escritores estadunidenses do século XX.

Trabalhos, obras e prêmios

gabriel-garcia-marquez-5Gabriel García Márquez trabalhou como jornalista em vários periódicos da Colômbia e desempenhou trabalhos, como correspondente internacional na Europa e nos Estados Unidos.
É considerado um dos escritores mais importantes do século XX. Seus livros foram traduzidos em 36 idiomas e vendeu mais de 40 milhões de livros.
Escreveu: O enterro do diabo: A revoada (1955), Maria dos prazeres, Relato de um náufrago (1955), A sesta de terça-feira, Ninguém escreve ao coronel (1961), Os funerais da mamãe grande (1962), Má hora: o veneno da madrugada, Cem anos de solidão (1967), A última viagem do navio fantasma, Entre amigos, A incrível e triste história de Cândida Eréndira e sua avó desalmada, Um senhor muito velho com umas asas enormes, Olhos de cão azul, O outono do Patriarca, Como contar um conto (1947-1972), Crônica de uma morte anunciada (1981), Textos do caribe, Cheiro de goiaba, O verão feliz da senhora Forbes, O Amor nos tempos do cólera (1985), A aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile, O general em seu labirinto, Doze contos peregrinos (1992), Do amor e outros demônios (1994), Notícia de um Sequestro (1996), Memória de minhas putas tristes, dentre outros trabalhos.
Em 2002, após ter sido diagnosticado um câncer linfático, publicou sua autobiografia ‘Viver para contar’.
Recebeu os seguintes prêmios: Prêmio de Novela ESSO por “má hora: o veneno da madrugada” (1961), Doutor Honoris Causa da Universidade de Columbia em Nova Iorque (1971), Prêmio Internacional Neustadt de Literatura em 1972, Medalha da Legião Francesa em Paris (1981), Condecoração Águila Azteca no México (1982), Nobel de Literatura (1982), Prêmio quarenta anos do Círculo de jornalistas de Bogotá (1985), Membro honorário do Instituto Caro y Cuervo em Bogotá (1993), Doutor Honoris Causa da Universidade de Cádiz (1994).

Morte

gabriel-garcia-marquez-6Em 2009 García Márquez declarou que não pretendia escrever mais livros.
A notícia foi confirmada, mais tarde, quando o seu irmão, Jaime Garcia Marquez, anunciou que o escritor foi diagnosticado com uma demência, embora estivesse em bom estado físico, havia perdido a memória.
O autor lutava contra a reincidência de um câncer que atingia seus pulmões, gânglios e fígado. Morreu em 17 de abril de 2014 na Cidade do México, vítima de uma pneumonia, após completar 87 anos.

Referência bibliográfica

memorias-de-minhas-putas-tristes-4García Márquez, Gabriel, 1928 – 2014
Memória de minhas putas tristes / Gabriel García Márquez; tradução Eric Nepomuceno. 8ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2005.
127p.
ISBN 85-01-07265-6
Tradução de: Memoria de mis putas tristes
1. Romance colombiano. I. Nepomuceno, Eric, 1948. II. Título.
(R)


Laranja Mecânica

Anthony Burgess

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O texto, escrito em 1962, conta a história de um adolescente que vive em Londres.
O autor cria uma sociedade futurista na qual a violência, sem causa perceptível, atinge proporções gigantescas e passa a ser retratada na prática de roubos, estupros, espancamentos e assassinatos.

Incapacidade e selvageria

O governo, por incapacidade interpretativa, se aparelha para combatê-la de forma totalitária, estimulando, ainda mais, a selvageria.
Anthony Burgess utiliza uma linguagem curiosa, carregada de gírias nadsat, com palavras rimadas, exigindo do leitor o seu aprendizado e o remete ao centro do contexto para vivenciar a história como observador da gangue comandada pelo idiota Alex, que tem a companhia dos não menos retardados Pete, Georgie e Tosko.

Escolha das vítimas

As vítimas da gangue, na maioria, são pessoas idosas e intelectuais.
laranja-mecanica-1As escolhas das vítimas, com essas características, criam ambiente que buscam consagrar frustrações relacionadas à intelectualidade socialista e a ausência de práticas familiares voltadas para a preparação e bem-estar dos jovens.
A solução encontrada pelo governo para combater as ações de Alex não se apresentou menos hostil.
“O diretor olhou para mim com uma cara muito cansada e disse:- Acho que você não sabe quem era aquele hoje de manhã, sabe 6655321? – E, sem esperar que eu dissesse não, ele disse: – Ninguém menos que o Ministro do Interior, o novo Ministro do Interior que eles chamam de reformador. Bem, essas novas ideias ridículas finalmente chegaram e ordens são ordens, embora cá entre nós eu lhe diga que não aprovo.”

Insatisfação social

O texto se firma atualíssimo, haja vista as demonstrações de insatisfação social dos jovens e adolescentes e a resposta do poder para a solução dos conflitos.
laranja-mecanica-2A diferença entre o texto e a atualidade ocorre na diversidade da escolha das ações para possíveis soluções, contudo, o capitalismo se vale da força para amordaçar o discurso proveniente da segregação social e racial, encobertada e distorcida pela imprensa, em vez da prática democrática saudável e construtiva.
O autor, Anthony Burgess, joga, sem piedade, o leitor para conviver com o abestalhado Alex no intento de fazê-lo entender a deformidade de caráter provocada por mentes vazias e desocupadas, cuja sociedade intelectualizada demonstra incapacidade para definir políticas não excludentes.
O texto, aparentemente descomprometido, traduz uma polêmica social que mesmo os países com economias sólidas e estruturadas não conseguem elaborar e implantar políticas voltadas para a inclusão social.
Alex diz: “- Eu, eu, eu. Eu? Onde é que eu entro nisso tudo? Será que eu sou apenas uma espécie de animal ou cão? – E isso fez com que eles começassem a govoretar (falar) ainda mais alto e lançar slovos (palavras) para mim. Então eu krikei (gritei) mais alto, ainda krikando (gritando): – Será que eu serei apenas uma laranja mecânica?
A leitura é recomendadíssima!

Anthony Burgess

anthony-burgess-1Nasceu em Manchester em 1917, formou-se em Inglês pela Universidade de Manchester, serviu no Exército e, entre 1954 e 1966, trabalhou como professor junto ao Serviço Colonial britânico na Malásia. Foi neste período que começou sua carreira literária.
Ao retornar a Inglaterra, recebeu a notícia de que tinha um tumor no cérebro: os dois médicos lhe deram até um ano de vida.
Mudou-se para a cidade costeira de Hove, no sul da Inglaterra, com a intenção de escrever vários livros para que os direitos autorais pudessem ajudar no sustento de sua esposa após a sua morte. Mas, o diagnóstico estava errado, e Burgess viveu até 76 anos.

Referência bibliográfica

Burgess, Anthony – 1955
Laranja Mecânica / Anthony Burgess; tradução Fábio Fernandes.
-São Paulo: Aleph, 2004.
Título original: A clockwork orange.
199p.
ISBN 978-85-7657-003-5
1. Ficção inglesa – I. Título.
(R)



O Mito de Sísifo

Albert Camus

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Camus utilizou-se de Sísifo, personagem da mitologia grega, para centralizar questionamentos filosóficos na busca da percepção da vida e o determinismo de responsabilidade das ações que possam nortear o caminhar do homem no sentido metafísico e nas relações interpessoais.
 
 

Mitologia grega

Sísifo age de forma talentosa e consegue amenizar a fúria de Zeus, rei dos deuses, quando ordenou Tânatus, deus da morte, a levá-lo ao mundo subterrâneo.
Ele elogia a sua beleza e obtém a concordância de Tânatus para colocar um colar em seu pescoço, com o qual manteve a morte aprisionada.


Hades, que governava o mundo subterrâneo dos mortos, se uniu a Ares, deus das guerras, e fisgou Sísifo, que antes de se afastar da mulher pediu a ela que não o enterrasse após sua morte.
Tão logo se viu no inferno, conseguiu a concordância de Hades para retornar e se vingar da atitude da esposa. Desta forma ele retomou ao corpo e fugiu.
Devido à habilidade de Sísifo, a morte só lhe alcançou na velhice.
Insatisfeitos, os deuses o condenaram, por toda a eternidade, a rolar uma grande pedra de mármore até o cume de uma montanha e sempre que chegava próximo ao topo uma força poderosa a rolava de volta até o ponto de partida.
Assim, segundo a mitologia grega, a humanidade ficou sabendo que não teria a mesma liberdade divina.

Mais perto da morte

Ao se referir ao raciocínio absurdo, Albert Camus, fala da construção da vida sobre o amparo da esperança. Quanto mais se espera o amanhã mais próximo estamos da morte e conclui que o mundo cruel é estranho.
“Mas vejo, em contrapartida, que muitas pessoas morrem porque consideram que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outros que, paradoxalmente, deixam-se matar pelas ideias ou ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se denomina razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer).”
“Matar-se, em certo sentido, é como no melodrama, é confessar. Confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos.”
“Viver sob este céu sufocante nos obriga a sair ou ficar. A questão é saber como se sai, no primeiro caso, e por que ficar, no segundo. Defino assim o problema do suicídio e o interesse que se pode atribuir às conclusões da filosofia existencial.”

O homem absurdo

camus-2“Pensar é reaprender a ver, dirigir a própria consciência, fazer de cada imagem um lugar privilegiado.
“(…) Se eu me convencer que esta vida tem como única face a do absurdo, se eu sentir que todo o seu equilíbrio reside na perpétua oposição entre minha revolta consciente e a obscuridade em que a vida se debate, se eu admitir que minha liberdade só tem sentido em relação ao seu destino limitado, devo então reconhecer que o que importa não é viver melhor, e sim viver mais.”
Albert Camus aborda as questões do homem absurdo (aquele que não se separa do tempo) referindo-se ao amor, o ator e o conquistador.
Em relação ao amor cita o personagem Don Juan lembrando que quanto mais se ama mais se concretiza o absurdo.
A representação teatral oferece ao homem absurdo a possibilidade de ver além de si mesmo, contudo, não o impõe mudança que possa lhe submeter qualquer angústia.
Sobre as conquistas interpreta como uma escolha do homem em prejuízo da contemplação, como algo necessário a mantê-lo atuante, apesar da percepção que um dia terá que cessar.
O autor aborda a arte como alternativa para expressar o mundo inexplicável. Cita Dostoievski, Kafka, Malraux, Balzac e Sade como romancistas capazes de explorar o suicídio filosófico.
Faz analogia ao trabalho repetitivo dos dias atuais à tarefa determinada pelos deuses a Sísifo. Intui que a busca do homem pelo cotidiano o afasta da tomada de consciência da vida, impondo-se à mediocridade mental conformista.

Conclusão

O Mito de Sísifo é um texto questionador, não só pelas características do ensaio literário, mas, também, pela abordagem filosófica que adiciona incômodo reflexivo diante de um cotidiano e valores morais.

Onde comprar

O Mito de Sísifo – Livraria da Folha
O Mito de Sísifo – Travessa

Albert Camus

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Nasceu em 7 de novembro de 1913, uma pequena localidade da Argélia, conhecida durante a ocupação francesa pelo nome de Mondovi. Viveu sob o signo da fome, da guerra e da miséria.
A obra do escritor, ensaísta, romancista, dramaturgo e filósofo terminou sendo orientada pelos citados elementos que ajudaram na formação do pensamento crítico e filosófico.
Morreu em 4 de janeiro de 1960, aos 46 anos, na pequena comuna francesa Villeblevin, região administrativa da Borgonha, vítima de um acidente de trânsito.
O tradutor checo Jan Zabrana sugeriu em seu diário, publicado postumamente, a possibilidade de Dimitri Shepilov, Ministro das Relações Exteriores da URSS, ter encomendado o assassinato de Albert Camus, devido à oposição que ele vinha fazendo ao massacre soviético na repressão à Revolução Húngara de 1956.
Os stalinistas e de simpatizantes dos comunistas começaram a detestar Albert Camus a partir da citação feita, por ele, ao poeta americano Walt Whitman que assegurara “sem liberdade, nada pode existir”.
Camus perdeu o pai, Lucien, em 1914, cuja família era da Alsácia, França, na batalha do Marne, durante Primeira Guerra Mundial, fato que obrigou a mudar-se com a sua mãe, Cathérine Sintès, uma marroquina de origem espanhola, para a casa de sua avó materna, em Argel.
Durante a infância, morando na casa da avó, Camus teve o apoio do professor Louis Germain, que previu para ele um futuro próspero e estimulou à sua mãe a procurar por uma bolsa de estudos no liceu de Argel.
Apesar das dificuldades financeiras, Camus decidiu continuar os estudos na escola secundária, mesmo familiarizado com o trabalho na oficina do seu tio. A continuidade da formação filosófica de Camus deveu-se ao professor Jean Grenier, homenageado, por Camus, que dedicou a ele o livro ‘O Homem Revoltado’.
A monografia de mestrado de Camus versou sobre o neoplatonismo, que relata sobre doutrinas direcionadas para os aspectos espirituais e cosmológicos do pensamento platónico.
Na tese de doutorado, Camus, aborda aspectos relacionados a obra de Santo Agostinho, considerado um dos mais importantes teólogos e filósofos dos primeiros anos do cristianismo.
Após concluir o doutoramento foi acometido por uma intensa crise de tuberculose, que o impediu de lecionar e praticar esportes.
albert-camus-no-brasil-1Ao visitar o Brasil, no período de 5 a 7 de agosto de 1949, proferiu várias palestras e conheceu, em companhia de Oswald de Andrade, a festa em louvor ao Senhor Bom Jesus de Iguape.
A visita ao Brasil lhe rendeu um conto ‘A Pedra que brota’ editado no livro ‘O Exílio e o Reino’.
Em 1938, ajudou a fundar o jornal Alger Républicain e durante a Segunda Guerra Mundial, Camus colaborou com o jornal Paris-Soir.
Pouco antes da invasão alemã, em 1939, mudou-se para a França, devido as discórdias com as autoridades francesas dominantes na Argélia, por não concordar com a discriminação e restrições aos árabes, que não tinham direito a voto, suas crianças eram mal alimentadas e sem acesso ao atendimento médico. Nesta época Camus era membro do Partido Comunista.
Devido a ocupação nazista na França mudou-se de Paris para a região de Vichy, França, e participou do Núcleo de Resistência à Ocupação, tornando-se um dos editores do jornal Combat.
albert-camus-e-sartre-1Camus conheceu Jean-Paul Sartre, em 1942, após elogios recebido de Sartre referente ao livro ‘O Estrangeiro’.
Posteriormente se desentenderam publicamente, em 1952, devido à crítica feita por Sartre a respeito da obra ‘O Homem Revoltado’, na qual Camus critica o regime comunista soviético, do qual Sartre fazia parte.
Camus foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1957 “por sua importante produção literária, que, com seriedade lúcida ilumina os problemas da consciência humana em nossos tempos”.
Ao proferir o discurso agradecendo o prêmio, disse que o artista além de divertir o público deve “comover o maior número possível de homens, oferecendo-lhes uma imagem privilegiada dos sofrimentos e das alegrias comuns”.
Camus afirma que as pessoas procuram incessantemente o sentido da existência numa vida que carece de sentido e na qual só é possível ganhar a liberdade e a felicidade com a rebelião.
Escreveu Revolta nas Astúrias (1936), O Avesso e o Direito (1937), Núpcias (1939), O Mito de Sísifo (1942), O Estrangeiro (1942), A Peste (1947), O Estado de Sítio (1948), Os Justos (1949), O Homem Revoltado (1951), O Verão (1954), A queda (1956), Reflexões sobre a Pena Capital (1957), O Exílio e o Reino (1957), A Morte Feliz (obra póstuma 1971) e quatro peças teatrais O Mal-entendido (1944), Os justos (2008), Calígula) (1941), Estado de Sítio (1948), além de várias crônicas.
Questões observadas nas obras de Dostoiévski e Franz Kafka aproximaram Camus dos dilemas e conflitos filosóficos evidenciados pelos citados autores, identificadas como fenômeno estético filosófico do absurdo.
Albert Camus é considerado um dos escritores mais importantes do século vinte, devido a sua aversão ao totalitarismo presente na sua obra.

Referência bibliográfica

Camus, Albert, 1913-1960
O mito de Sísifo / Albert Camus; tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. – Rio de Janeiro: Record, 2010.
138p.
Tradução de: Le mythe de Sisyphe
ISBN 987-85-7799-269-0
Ensaio francês. I. Roitman, Ari. II. Watch, Paulina. III. Título
(R)

Dom Quixote de La Mancha

– Miguel de Cervantes –

dom-quixote-5Dom Quixote de La Mancha escrito por Miguel de Cervantes é considerada uma obra monumental, não só pela linguística exuberante e desafiadora, mas, também, pelo registro de conceitos e valores de uma época onde havia carência de leis.
Imperavam à época aspectos morais e éticos definidos por uma sociedade monarca e burguesa.
Afinal, estamos falando da Espanha no século XVII.
Cervantes enfrentou muitos desafios dentre os quais um duelo aos 22 anos, a batalha de Lepanto, e um sequestro seguido de prisão em Argel.
Concluiu a primeira parte da obra em 1605 e publicou a segunda parte em 1615, um ano antes da sua morte.
Na segunda parte da obra decide por mata o herói protagonista para evitar a continuidade da história por algum impostor.
À época era comum alguém editar sequências de obras se passando pelo autor original. Fato que aconteceu com dom Quixote de La Mancha. Um ano antes da publicação da segunda parte da história, Alonso Fernández de Avellaneda, publicou uma falsa continuação da primeira parte da obra.

A construção da história

dom-quixoteO autor constrói um herói de cavalaria diferente dos demais heróis representados em romances da época.
Escolhe como protagonista um esquelético e alucinado senhor de idade; um escudeiro com baixa estatura, gordo e esperançoso; uma mulher parruda e analfabeta; um cavalo pangaré que mal conseguia andar e um pequeno burro de carga.
Com esse elenco confuso e despretensioso, contrapondo fenótipos de heróis descritos em romances da época,  constrói um personagem digno, focado em valores éticos e espalhando diálogos socialmente ricos com o seu fiel escudeiro Sancho Pança.
O autor deu a Dom Quixote a tarefa de sonhar e a Sancho Pança a missão de redirecionar o Cavaleiro da Triste Figura quando ele exagerava na insanidade.

Conceito de justiça

dom-quixote-2A obra foi escrita com base em conceito de conceber politicas através de homens justos. Agir corretamente baseado na própria consciência.
Na época, inexistiam leis para que as pessoas agissem de acordo com elas. A consciência definia a ação, diferentemente da sociedade moderna cuja consciência é um assunto de foro íntimo.
Atualmente, as leis norteiam o que é o certo e o que é errado. A justiça deixa de ser algo de foro íntimo, da consciência pessoal, para se colocar em algo coletivo.
Dom Quixote interfere em ações que nem sempre resultam em resultados esperados. Defende viver com base em valores simples. Decide, simplesmente, ser bom!
Algumas das suas atitudes esbarravam em resultados desastrados. Pelo fato de ser bom, às vezes defendia pessoas em situação de vulnerabilidade sem se preocupar a quem estava defendendo e se deparava com situações vexatórias.

Sonho e realidade

Cervantes traça uma linha muito interessante a respeito dos sonhos e da realidade e chama a tenção para a dificuldade de se separar os sonhos da realidade.
Quixote elegeu Dulcineia para sua amada por a ter idealizado perfeita, porém, segundo a narrativa, ela não passa de uma camponesa sem atrativos físicos, culturais ou detentora de bons costumes.
Dulcineia como amada e Sancho como escudeiro jamais se apresentaria nos Livros de Cavalaria escritos à época. Cervantes ao caracterizar o elenco dos personagens faz um contraponto com outros autores. Critica a superficialidade literária que existia à época.
O texto possibilita a percepção de como é possível construir e/ou desmoronar as fantasias e projetos. Os diálogos democráticos entre Sancho e Quixote se tornam um exercício constante e sob várias formas e contextos.
Dom Quixote “cai do cavalo” várias vezes, mas se mantém perseverante diante de qualquer situação. Ensina a perseverar nos sonhos.

Dialogar e aprender a ouvir

dom-quixote-6O livro tem um significado abrangente em relação à prática do diálogo.
Insiste para o exercício da prática do ouvir.
Ressalta a importância das abordagens opinativas mesmo sendo elas advindas de pessoas consideradas como de menor importância.
Dom Quixote aceita a opinião do servo Sancho Pança, mesmo ele não tendo instrução e sendo seu subordinado.
Dom Quixote pede perdão a Sancho por suas doidices e Sancho, por sua vez, se mostra desejoso da continuidade dos conselhos do patrão. Do início ao fim da história os ensinantes se reversam.

Cada macaco no seu galho

Depoimento de Sancho ao deixar de ser governador da ilha…
“Abri alas, meus senhores, e deixai-me voltar a minha antiga liberdade: deixai-me que vá procurar a vida passada, para que me ressuscite desta morte presente. Não nasci para ser governador nem para defender ilhas nem cidades dos inimigos que quiserem tomá-las. Entendo mais de arar e capinar, podar e limpar o mato dos vinhedos que de fazer leis ou defender províncias ou reinos. Bem está são Pedro em Roma: quero dizer, cada macaco no seu galho, cada um no ofício para que nasceu”

A mais cruel das mortes

A tristeza de Quixote pela falta de reconhecimento e sua preocupação com a crueldade da fome…
“Come, amigo Sancho — disse dom Quixote —, mantém a vida, que te importa mais que a mim, e me deixa morrer nas mãos de meus pensamentos e pelas forças de minhas desgraças. Eu nasci para viver morrendo, Sancho, e tu para morrer comendo. Para que vejas que te digo a verdade, considera meu caso: impresso em livros, famoso nas armas, cortês em minhas ações, respeitado por príncipes, cortejado por donzelas; mas, no fim das contas, quando esperava palmas, triunfos e coroas, conquistados e merecidos por minhas intrépidas façanhas, nesta manhã me vi pisoteado, humilhado e moído pelas patas de animais vis e imundos. Essa consideração me embota os dentes, paralisa-me os molares, tolhe-me as mãos e me tira de todo a vontade de comer, de modo que penso me deixar morrer de fome, a mais cruel de todas as mortes.”
Escrever sobre dom Quixote de La Mancha, sem sombra de dúvida, é uma tarefa ingloriosa, como foram as suas batalhas. Cervantes nos oferece uma obra aberta, atual e reflexiva que possibilita o entendimento de como construirmos as nossas fantasias e como desconstruímos nossos sonhos.
A leitura é recomendadíssima!
Quem não tiver condições de ler a obra completa, composta por dois volumes, pode lê-la na forma resumida.
Deixar de ler Cervantes é perder a oportunidade para conhecer um dos textos mais respeitados da literatura mundial.

Miguel de Cervantes

cervantes-2A provável data de nascimento de Cervantes pode ter sido 29 de setembro de 1547 em Alcalá de Henares, na Espanha.
Sua morte foi em 22 de abril de 1616 em Madrid, na Espanha.
Filho de um cirurgião cujo nome era Rodrigo e de Leonor de Cortinas, foi batizado em Castela no dia 9 de outubro de 1547, na paróquia de Santa María la Mayor.
Dom Quixote é um clássico da literatura ocidental e considerada um dos melhores romances já escritos.
Cervantes exerceu muita influência sobre a língua castelhana, por isso se considera “A língua de Cervantes”.
Em 1569 foge para Itália depois de um duelo com Antonio Sigura. Lutou na batalha de Lepanto, contra os turcos, no ano 1571 e foi ferido na mão e no peito.
Em 1575, durante seu regresso de Nápoles a Castela é capturado por corsários de Argel, então parte do Império Otomano. Permanece em Argel até 1580, ano em que é liberado depois de pagar seu resgate.
De volta a Castela se casa com Catalina de Salazar, em 1584, e viveu algum tempo no povoado de La Mancha em Esquivias.
Publica, em 1585, o seu primeiro livro de ficção, A Galatea.
don_quijote_de_la_manchaEm 1605 publica a primeira parte de sua principal obra: O engenhoso fidalgo dom Quixote de La Mancha.
A segunda parte da obra é publicada em 1615: O engenhoso cavaleiro dom Quixote de La Mancha.
Um ano antes da publicação da segunda parte da obra, Alonso Fernández de Avellaneda, publica uma falsa continuação de “O engenhoso fidalgo dom Quixote de La Mancha”, fato que contrariou Cervantes.
Entre as duas partes de Dom Quixote, aparecem as Novelas exemplares (1613), um conjunto de doze narrações breves, bem como Viagem de Parnaso (1614). Em 1615 publica Oito comédias e oito entremezes nunca antes representados. O drama A Numancia e O trato de Argel, ficou inédito até ao final do século XVIII.