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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Resenha Crítica | Saint Amour: Na Rota do Vinho (2016)

Saint Amour, de Benoît Delépine e Gustave Kervern
A dupla de realizadores Benoît Delépine e Gustave Kervern é conhecida no circuito alternativo do país por “Mamute” e “A Grande Noite”, longas que evidenciam o seu espírito um tanto iconoclasta. No primeiro, há um Gérard Depardieu colocando o pé na estrada e dando fim a uma existência careta na busca por uma papelada para obter a aposentadoria. No outro, há o vendedor certinho feito por Albert Dupontel que ao pouco se deixa contaminar pelo seu irmão punk vivido por Benoît Poelvoorde.
Na comparação, o novo “Saint Amour: Na Rota do Vinho” é menos radical em sua forma e narrativa, mas Delépine e Kervern não estão necessariamente convencionais. Na premissa, Jean (Gérard Depardieu) está acompanhado pelo filho quarentão Bruno (Benoît Poelvoorde) para traçarem a rota do vinho na França. Com eles, acaba se enturmando Mike (Vincent Lacoste, de “Hipócrates”), um taxista.
Muito mais do que o velho relacionamento pai e filho sendo desnudado dentro da moldura de um road movie, “Saint Amour: Na Rota do Vinho” dá o protagonismo a Bruno justamente por apresentar um (des)controle emocional por vezes juvenil, consequência de seus insucessos no amor.
Entre noites mal dormidas e o encontro com outros personagens pitorescos, os realizadores e também roteiristas surpreendem no encontro de alguma sensibilidade em homens brutos, culminando em um clímax de relações sexuais explícitas na exibição das fragilidades desses três homens. Algo pouco recorrente em registros masculinos mais preparados para expôr a virilidade dos homens do que o extremo oposto.
Data:
Filme:
Saint Amour: Na Rota do Vinho
Avaliação:
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Resenha Crítica | Meu Rei (2015)

Mon roi, de Maïwenn
Muitos cineastas costumam partir do princípio de que os seus filmes realmente começam a existir quando estão na ilha de edição, dando forma a um sem número de horas gravadas e por vezes sequer contando com um roteiro como bússola. Com uma carreira mais expressiva como intérprete do que como diretora, Maïwenn provavelmente partiu desse fundamento ao se imaginar concebendo “Meu Rei”.
Caso tivesse decidido com o montador Simon Jacquet conferir uma estrutura linear a “Meu Rei”, é certo que Maïwenn teria em mãos algo com a sua força amortecida, ainda que o texto que assina com Etienne Comar seja naturalmente impactante em sua observação crível sobre as crises matrimonias de casais maduros e modernos – a francesa teria se inspirado em seu relacionamento com Jean-Yves Le Fur.  Mas do jeito que se apresenta, “Meu Rei” é ainda mais incisivo em seu olhar, com uma escolha autodestrutiva do presente ganhando maior ressonância por depender dos fragmentos do passado para se justificar.
Vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes em 2015, Emmanuelle Bercot está mesmo arrebatadora como Marie-Antoinette, que passa a ficar em um centro de reabilitação para se recuperar de um joelho fraturado enquanto esquiava. Existe a possibilidade de ela mesma ter provocado o acidente e a constatação surge com flashbacks que desenharão o seu convívio de altos e baixos com Georgio (Vincent Cassel).
Entregues a uma paixão avassaladora, Marie-Antoinette e Georgio sustentam uma atração quase juvenil, com muita intensidade e sem considerar a princípio tudo o que os diferenciam. Quem sofre essa consequência é Marie, especialmente quando um amor mal resolvido do passado presente de Georgio, a instável Agnès (Chrystèle Saint Louis Augustin), surge para prestar contas. Um clima tempestuoso se impõe sobre o casal, carregando todos os reveses da realidade adulta inclusive quando Marie engravida.
Sem artificialismos e amparado principalmente pelo empenho do excelente elenco, que inclusive trás um surpreendente e nada afetado Louis Garrel como o irmão de Marie, Maïwenn capta o romance dos protagonistas com toda aquela descrição de quem observa com muita perícia o que às vezes soaria como banal. Daí ser definidora a escolha por uma estrutura fragmentada, preenchendo os espaços apenas com as “memórias” daquilo que dignificam a construção e ruína de um casamento.

domingo, 27 de março de 2016

Tone-deaf Marguerite hits all the right notes - review

A spectacularly untalented socialite becomes an opera star in Xavier Giannoli's elegant, pathos-laden period comedy
Marguerite Dumont (Catherine Frot) is a grande dame of the 1920s Paris arts scene, the patron of a prestigious recital society, and a coloratura soprano of some note. There’s only one problem: that note could probably shatter double glazing. To say Marguerite can’t sing would be selling her short. Her vocal cords produce the kind of tones that would more often be heard from an orthopaedic bone drill. 
But like the blushing subjects of Hans Christian Anderson’s naked emperor, no-one can quite bring themselves to point it out. Her support of the arts is too generous, the concerts raise money for war orphans – and besides, why spoil the fun.
At the start of Xavier Giannoli’s elegant comic drama, crowds are gathering at her country mansion for a private concert. The loudly miaowing peacocks wandering the grounds are an omen. A talented chamber orchestra and a promising young soprano from the city called Hazel (Christa Théret) are the warm-ups. But Marguerite’s oblivious massacring of the Flower Duet from Lakmé is the main event.
“Did she always sing like that?” asks Lucien (Sylvain Dieuaide), a young journalist who’s sneaked inside to see if the rumours are true. “No,” grumbles a regular. “She’s come a long way."
Giannoli’s film has been spun out of the true story of Florence Foster Jenkins, an independently wealthy socialite whose performances in New York clubs and salons of the 1930s and 1940s were celebrated for their almost total lack of musical merit. This May, Meryl Streep is playing Jenkins in a more straightly autobiographical version of the story directed by Stephen Frears, but Giannoli’s version counts as more than a warm-up.
Last month, Frot won a César award (the French equivalent of a Bafta) for her beautifully calibrated performance, which skates addictively between loopiness and pathos. Early in the film, Lucien and his friend, an artist-provocateur (Aubert Fenoy), who run an ambiguously worded review of Marguerite’s recent recital in a Paris newspaper - and they in turn introduce her to Atos Pezzini (Michel Fau), a scandal-smudged opera divo who wincingly agrees to coach her for a public concert.
Play!02:03
Giannoli has a ball with Marguerite’s lack of talent. There’s a glorious sustained shot of Pezzini’s face as he hears her sing for the first time, and silently goes through the entire Kübler-Ross model of grief: denial, anger, bargaining, depression and, finally, acceptance. But he also takes it deeply seriously: early 20th century Paris was, after all, the time of Dadaism and the classical avant-garde, and music no longer had to sound melodious to make its mark.
In a subtle parallel narrative, we watch Hazel’s own singing career burgeon slowly but surely, as she performs the kind of vocal lines that caused riots at Stravinsky premieres to an initially small but always growing crowd. Even Marguerite’s hobby of collecting opera props has a surreal edge: in the middle of her lawn, for example, lies an enormous, staring, papier-mâché eyeball.
She’s supported faithfully in all this by her butler Madelbos (Denis Mpunga, superb), a keen photographer whose own artistic fame and legacy - deadpan portraits of his mistress, dressed in a range of theatrical costumes - depends heavily on Marguerite’s own.
Madelbos’s complex motives are delicately withheld until the film’s arresting epilogue, although it’s immediately clear that he disapproves of Marguerite’s husband Georges (André Marcon), whose romantic neglect of his wife (he is of course having an affair) is the film’s blunt rationalisation for her all-consuming need to perform.
For me, this felt psychologically reductive, as if the film was trying to explain away Marguerite’s ambitions like a plot hole. As Frot plays her, Marguerite is beyond all rational explanation. That’s what makes her so much fun.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Uma Nova Amiga

Mais um acerto de Ozon, Une Nouvelle Amie é todo preciso – mas exatamente por isso ofusca a interpretação também precisa de Romain Duris

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Desde os tempos de escola, Laura e Claire são amigas inseparáveis. Tão inseparáveis que parecem viver num ciclo: quando a primeira conhece um rapaz por quem se apaixona, minutos depois a segunda também encontra seu príncipe encantado. Quando Laura se casa com seu noivo, não demora muito para Claire também subir ao altar. E quando Laura dá luz a sua primeira filha… Claire ajuda a amiga doente já em estado crítico durante a cerimônia de batizado.
Laura não resiste. Claire promete ajudar David (Romain Duris), agora viúvo e com uma filha recém-nascida para criar. David, por sua vez, precisa de outra ajuda: aceitar Virginia, a nova persona adotada por ele depois de perder a esposa. Depois de uma primeira má impressão, Claire entende a satisfação de David ao vestir-se como uma mulher, além de enxergar nela uma nova e cativante amiga.
Também o espectador sucumbe ao fascínio: Une Nouvelle Amie(França, 2014) traz François Ozon em forma semelhante àquela mostrada no excepcional Dentro da Casa, drama sobre um contador nato de histórias. Aqui, a trama é bem amarrada, os diálogos são condensados e espertos, e o suspense é mantido até quando não há tensão em cena. Só falta mesmo vulnerabilidade.
Dono de uma carreira de tantos acertos (Swimming PoolO Refúgio,Amor em 5 Tempos, além de outros vários títulos que caberiam muito bem na lista), o réalisateur parisiense é tão perfeccionista quanto metódico. Em qualquer obra sua, não existe quase espaço para falhas. Aí está seu maior triunfo – e a maior frustração de seu elenco.
Assim como em todos os longas do diretor, tudo é tão perfeito emUne Nouvelle Amie que seu próprio protagonista perde grandeza. Sempre ótimo – agora excelente –, Romain Duris entrega uma interpretação tão precisa quanto todo o filme de Ozon. Difícil, porém, é enxergar tamanho ator dentro de um panorama tão inebriante.
Angelo Capontes Jr.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

FILME : Ferrugem e Osso (De rouille et d'os)

por 



Em Ferrugem e Osso, o diretor francês Jacques Audiard faz do improvável sua ferramenta de construção

É interessante perceber que dois sucessos recentes do cinema francês, a comédia dramática Intocáveis, e o romance dramático Ferrugem e Osso, trazem como conceitos de suas histórias dois personagens extremamente parecidos: o ignorante desprovido que é sábio a sua maneira, e o cidadão bem sucedido de classe alta que é infeliz e debilitado.

É certo dizer que este é um tema de apelo fortíssimo, que gera uma reflexão positiva sobre nossa condição humana e a forma egoísta com que avaliamos nossos problemas a todo o momento.

Dirigido e roteirizado por Jacques Audiard (que tem no currículo os excelentes O Profeta e De Tanto Bater Meu Coração Parou), Ferrugem e Osso conta a história de Stéphanie (Marion Cotillard) e Alain (Matthias Schoenaerts). Ela é uma domadora de baleias Orca (creio que este seja um dos raros filmes que trazem uma protagonista com esta profissão) e ele é um zé ninguém, que faz dos punhos e da força bruta seu ganha pão. O sujeito tem um filho, com o qual passa maus bocados antes de ir morar com a irmã.

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Após um acidente no parque aquático em que trabalhava, Stéphanie perde suas duas pernas. Arrasada pelo acontecido, ela busca consolo numa improvável amizade com Alain. Em meio ao sexo casual e mudanças completas de paradigmas, surge um forte sentimento que mistura amor e proteção mútua.
O grande mérito de Ferrugem e Osso é o choque de realidades. Stéphanie, antes de ter sua vida virada do avesso, parecia fútil e infeliz nos relacionamentos que mantinha. No entanto, devido a sua classe social, tudo acabava disfarçado por uma imagem exterior de superioridade pré-fabricada. Ele por sua vez é um homem sem formação, educação ou compreensão de como se relacionar de maneira funcional com pessoas próximas, sendo Stéphanie a única que consegue criar um diferenciado laço com ele.
O roteiro é corajoso e inventivo. A improbabilidade de situações são atenuadas eficientemente pela direção de Audiard. O francês não se prende a estilos na hora de capturar suas cenas, e se reinventa a cada momento, por meio de uma ótima edição, montagem, o uso da steadycam, belíssimos closes, e a utilização coerente do slow motion, em particular nas sequências de lutas, evidenciando detalhes e tornando tudo muito mais atrativo.
Por diversos momentos, influenciado pela debilidade física de sua personagem principal, o diretor emoldura, em tórridas cenas de sexo, uma beleza disforme e memorável (lembrando que os efeitos especiais que removem a perna de Cotilard são surpreendentes).
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Outro quesito da produção que merece aplausos é a opção honesta de não enfeitar a aparência da realidade, oferecendo personagens críveis em todos os sentidos, tanto em estado mental como físico. Marion Cotilard, que é dona de uma beleza incomparável, exemplifica bem esta escolha quando surge, durante quase todo o filme, com vestimentas mal-ajambradas, cabelos desgrenhados e provavelmente imundos. O ator Matthias Schoenaerts também passa longe do rótulo de galã quando exibe seu porte bombado, meio barrigudo... ou seja, algo normal, realista.
Apoiados por estes fatores, os atores oferecem pura espontaneidade para seus papéis. Cotilard é destaque absoluto ao explorar com honestidade as diferentes camadas de sua Stéphanie.
Em resumo, Ferrugem e Osso é um filme incrível. Nada pode preparar a audiência para os acontecimentos da trama, que são de fato surpreendentes. O longa aproxima de maneira única o bizarro do natural, misturando universos distintos, os testando com realidades improváveis. Recomendado.
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Ferrugem e Osso, De rouille et d'os, Rust and Bone: França, Bélgica/ 2012/ 120 min/ Direção: Jacques Audiard/ Elenco: Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts, Armand Verdure,Céline Sallete, Corinne Masiero, Bouli Lanners