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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Cold Fish (冷たい熱帯魚)

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Uma coisa a se temer é a ira de um homem gentil. Em seu filme "Cold Fish", o diretor Sion Sono tenta exemplificar de maneira brutal todo o sentido por trás deste sábio pensamento, criticando, mas, acima de tudo, alertando a pacata e reprimida sociedade japonesa de como uma vida de ilusão pode se transformar em um inferno real. 

A trama de "Cold Fish" é vagamente inspirada na história dos seriais killers Gen Sekine e Hiroko Kazama, marido e mulher que eram donos de um pet shop. Juntos, eles assassinaram no mínimo quatro pessoas, as envenenando e desmembrando (ambos foram sentenciados a morte). Investigando profundamente o lado sexual e perverso do ser humano, a obra passeia pelos limites da mente, nos levando da extrema submissão ao ápice da psicopatia, traduzida em assassinatos com requintes de crueldade.

O roteiro de Sono, em parceria de Yoshiki Takahashi, é doentio, digamos assim. Trata sexo, morte e honra de forma irônica, grotesca, abusa do humor negro e desrespeita a "boa moral", e faz isso como se realmente não se importasse com nenhum desses elementos, deturpando tudo ao máximo. Mas na verdade a ideia de Sono, ao revelar esta inversão de valores, é claramente fazer um alerta de como os costumes japoneses, castradores e alienantes, podem tornar a sociedade passível a atos súbitos de loucura. 

Na história, somos apresentados a Nobuyuki (Mitsuru Fukikoshi), o pacífico dono de uma pequena loja de peixes ornamentais. Irritantemente calado e inerte, ele passa por problemas familiares com a jovem filha Mitsuko (Hikari Kajiwara), que repudia a madrasta Taeko (Megumi Kagurazaka). Sem conseguir manter a estabilidade de sua família disfuncional, o homem se arrasta por entre essas mulheres, que já não o respeitam mais. Para ele, tudo o que resta é olhar para as estrelas e sonhar com dias melhores. 


Por acaso, ou nem tanto assim, os três são surpreendidos em um dia de chuva pelo senhor Murata (Denden), indivíduo pedante que se torna o melhor amigo da família em questão de minutos, isso após o mesmo interceder a favor de Mitsuko, que foi flagrada em um pequeno roubo. É criada então uma inconveniente dívida moral. Possuindo também uma loja de peixes, Murata é tudo o que Nobuyuki não é: confiante, piadista e muito bem-sucedido (ele dirige uma Ferrari). Mas secretamente possui outras habilidades obscuras, que sintetizam seu lado manipulador e selvagem. 

Praticamente aliciando a família do pequeno comerciante, Murata inicia um vertiginoso jogo de aprendizado, usando a progênie de Nobuyuiki como garantia de que não terá problemas com qualquer tipo de traição. Ele faz com que o franzino homem se torne seu pupilo, lhe ensinando - sempre auxiliado por sua perturbadora mulher Aiko (Asuka Kurosawa) - suas técnicas poucos convencionais de como fazer um ser humano desaparecer da face da terra, de preferência, investidores ludibriados.


Explorando então o desejo de uma vida melhor do cidadão comum japonês, e a impossibilidade do mesmo diante de uma forte rejeição psicológica, Sono faz com que o comportamento servil e parasítico de Nobuyuiki sirva para irritar o público, que a todo o momento espera por uma explosão de ódio sangrenta e completamente justificável. Já o vilão ganha ares de super-homem, devido a sua inteligência e habilidade para lidar com situações extremas.

O grande destaque entre os atores é Denden, que faz um excepcional trabalho como Murata. Inconveniente, sem graça, insano e assustador, o intérprete incorpora o mais real sentimento que um psicopata poderia oferecer. Sua perturbadora relação sexual com a esposa exemplifica toda a loucura de que o casal é capaz. Só que, apesar de corajoso, destemido e articulado, Murata é simplesmente um monstro, e não há nada de admirável nisso.

Já Mitsuru Fukikoshi entrega um eficiente Nobuyuiki, transformando o personagem na vítima das vítimas, sendo ele mesmo seu principal algoz. Pode parecer que o desfecho seja óbvio, mas, contrariando as expectativas, Sono revela algo aterrador e surpreendente, e a interpretação de Fukikoshi é fundamental para que isso funcione.

No final, "Cold Fish" se mostra um trabalho pesado. Filmado visando realismo, com um estilo levemente documental (resultado das câmeras digitais utilizadas) a obra japonesa é digna de nota. Apesar de perder um pouco de ritmo no segundo ato, fato que pode ser ligado a sua longa duração, a conclusão dilacerante faz com que tudo se torne inesquecível. Ótimas atuações, roteiro poderoso e direção visceral. Vale a pena se incomodar um pouco com ele. 

Confira o trailer:



Cold Fish/ 冷たい熱帯魚: Japão/ 2010/ 144 min/ Direção: Shion Sono/ Elenco: Makoto Ashikawa, Denden, Mitsuru Fukikoshi, Megumi Kagurazaka

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