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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

LED ZEPPELIN – PHYSICAL GRAFFITI (1975) FAZ 40 ANOS

Physical Graffiti
A banda voltou a Headley Grange para gravar um álbum que merece ser redescoberto a cada ano
Por Lucas Scaliza

O que é?

Physical Graffiti é o sexto disco de estúdio do Led Zeppelin, lançado em 24 de fevereiro de 1975.

Histórias e curiosidades

Por que o Led Zeppelin é ainda considerada uma das melhores bandas de rock que o mundo já ouviu? Parte da resposta vem do fato de o quarteto não ter se transformado tanto assim com o passar do tempo. Certamente eles amadureceram com o tempo, mas desde o primeiro disco mostraram que a banda era excelente, propondo novos padrões para o rock’n’roll, uma habilidade técnica invejável, uma fluência para agregar estilos em seu rock e um poder de influência absurdo até hoje. E embora se comente muito sobre os quatro primeiros álbuns do grupo, é necessário olhar com mais cuidado para o que veio depois.
Physical Graffiti, por exemplo, pode não ser o trabalho mais repleto de clássicos da banda que continuam na memória da maioria dos roqueiros, mas como álbum é um show. Tem rock de sobra (“Custard Pie”, “The Rover”, “Houses of the Holy”, “Sick Again”), baladas (“Down By The Seaside”, “Tem Years Gone”), aquele rock clássico e divertido (“Boogie With Stu”, “Black Country Girl”), funk rock (“Trampled Under Foot”), sem falar nas épicas “Kashmir” e “In The Light” e na folk “Bron-Yr-Aur”.
led_zeppelin_1975_physicalgraffiti
Embora não seja um disco conceitual, o disco é chamado de “mãe” de todos os discos duplos que vieram em seguida, visto que não era comum lançar um disco de inéditas assim tão longo (e tão caro de se produzir). Mas a banda achou que seria um bom formato quando as oito novas músicas compostas ultrapassavam o tempo médio de um LP. Daí, juntaram as oito inéditas com canções gravadas desde 1970 que acabaram não entrando em seus discos anteriores: uma deLed Zeppelin III (1970), três de Led Zeppelin IV (1971) e mais três de Houses of The Holy (1973).
Robert Plant, Jimmy Page, John Paul Jones e John Bonham voltaram uma casa em Headley Grange, no interior da Inglaterra, para gravar Physical Graffiti. O local escolhido é a mesma casa em que gravaram Led Zeppelin IV. Uma casa grande em que podiam morar por um tempo, tocar tudo o que quisessem, gravar com os equipamentos que já estavam por lá e não pagar por esse serviço em um estúdio. Livres para criar, o quarteto estava fazendo um disco ambicioso. “Estávamos forçando os limites da música e sabíamos disso. E nesse álbum […] a coisa toda está cheia de personalidade, tipos de afirmações sobre música, e alguns são realmente inovadores. Tem coisas que podem ser sensíveis e carinhosas e tem coisas que são pesadas e vão na sua direção”, disse Jimmy Page, que produziu e foi o grande mastermind do disco.
O nome foi dado também pelo guitarrista. Por volta de 1974, o grafite tinha começado a aparecer nos prédios da Inglaterra com citações do poeta e pintor inglês William Blake, de uma forma bem diferente ainda do que viria a ser quando integrado ao hip hop. No estúdio, Page pensou que gravar uma música em fita magnética é como grafitar também. “A música era uma manifestação física” desse processo, uma reação física.
Embora fossem os membros do Black Sabbath que ganharam fama como ocultistas, principalmente por causa da capa, das letras e do trítono de seu primeiro disco Black Sabbath(1970), o verdadeiro ocultista rockstar da época sempre fora Jimmy Page. Como preparação para o lançamento do disco, ele abriu uma livraria esotérica chamada Equinox, em Kensington. O nome é o mesmo da revista fundada pelo famoso ocultista Aleister Crowley em 1905. A loja vendia o tipo de livros que não eram encontrados nas livrarias normais. Em 1974, depois de terminar de gravar e mixar Physical Graffiti, Page mandou cartões de Natal para os amigos com “Cumprimentos Thelêmicos”, o que indicava sua proximidade com a Thelema, a filosofia de Crowley.
O baixista John Paul Jones foi o maior multi-instrumentista do disco, sendo responsável por executar órgãos, pianos, clavinete, mellotron, sintetizador, violão, bandolim e até fazer um arranjo de orquestra. “In The Light”, a faixa mais experimental e uma das melhores do álbum, é resultado do trabalho de Jones com o sintetizador.
Naquela época, o Zeppelin já era uma das maiores bandas do mundo – e o dinheiro trouxe algumas facilidades para o grupo. Para começar, puderam criar o próprio selo de gravação, Swan Song, do qual Physical Graffiti foi o primeiro lançamento, enquanto a distribuição ainda estava com a Atlantic, a gravadora gigante da época. Essa liberdade criativa permitiu que tivessem maior controle sobre o trabalho e facilitou o lançamento de um disco duplo. Quando a turnê pelos EUA começou em janeiro, ainda antes de o disco chegar às prateleiras, o Zeppelin mostrou a maior produção de palco já vista até então, o que incluía luzes laser e projeções do fundo do palco. Por volta da meia-noite do dia 8 de janeiro de 1975, cerca de 2 mil fãs da banda formaram uma fila para ver o novo show do grupo no Boston Gardens, obrigando a organização a começar a vender os ingressos às 2h30 da madrugada ao invés das 6 horas, como planejado.

Músicas e destaques

Trampled Under Foot: assim como “Rock & Roll”, esta música foi criada a partir de um riff, de forma muito espontânea, em 1972. A influência de funk presente na faixa, que tem um dos grooves mais deliciosos do álbum, e também em “Custard Pie” veio das visitas a clubes noturnos americanos que o Zeppelin fez durante a turnê de 1973. Mas apesar dessa influência mais direta, Page diz que funk sempre esteve na dieta da banda, uma prova disso seria “The Lemon Song”, gravada no segundo álbum em 1969. A música é bastante sensual, usando carros como metáforas para o sexo. As teclas que são ouvidas na música, junto com o riff de guitarra, são do clavinete de Jones.
Kashmir: a música mais famosa do álbum e uma das mais icônicas do catálogo dos ingleses. Quando chegaram a Headley Grange para gravar, Page já tinha algumas ideias prontas que queria testar com a banda e a primeira delas era justamente o riff de “Kashmir”. Segundo o guitarrista, desde sempre ele quis que a orquestra dobrasse o riff e já imaginava a parte dos sopros como parte da composição. Ele tocou a música acompanhado primeiramente de John Bonham e repetiam exaustivamente o riff. A letra feita por Robert Plant realmente foi inspirada em uma viagem ao Marrocos, mas a música só ganhou letra após toda a sua estrutura estar pronta. Uma versão demo da música chamava-se “Swan Song” e acredita-se que tenha chegado a 58 minutos de duração. Page nega que seja tanto assim, mas confirma que era longa. E em uma entrevista dada ao escritor William Burroughts, o guitarrista disse que até o lançamento da canção, nenhum membro do Led Zeppelin havia visitado a Caxemira.
In The Light: uma das músicas que servem de porta de entrada para Physical Graffiti e das mais complexas gravadas pela banda e para a época. São tantas camadas e tanta manipulação de som (John Paul Jones operando os sintetizadores) que a faixa nunca foi tocada ao vivo pela banda (embora Page acredite que poderiam tê-la incluído na apresentação de 2008, já que os teclados da época são mais completos). O início da canção, filtrado por efeitos de sintetizador e viajante, não é nada estranho à banda, que sempre foi aberta à utilização de recursos de estúdio para criar faixas criativas (é só lembrar da gravação original de “Whole Lotta Love”). Na nova versão remixada do disco, com as faixas demo gravada pela banda, é possível conferir “Everybody Makes It Through”, uma primeira versão do que seria “In The Light”. Interessante notar a partir do que a banda trabalhava para chegar ao resultado final. Page novamente usou um arco de violino (como em “Dazed and Confused” e “How Many More Times”) no violão para conseguir aquele efeito logo na introdução da canção, que serve de cama para o sintetizador de Jones. Apesar das dificuldades, Page a executou ao vivo durante a turnê conjunta com o The Black Crowes em 1999.
Ten Years Gone: a princípio, seria mais uma faixa instrumental de Page, mas Plant decidiu incluir uma letra sobre uma namorada que teve 10 anos antes e disse que era para o cantor escolher: ou ela ou os fãs dele. Esta é outra música complicada de reproduzir ao vivo, já que existem muitas partes diferentes de guitarra sendo executadas ao mesmo tempo. Há quem diga que Page gravou 14 faixas de violão e guitarra para a harmonia da música. Uma música que reflete o lado mais leve do Zeppelin e o bom gosto de todos eles para interpretar a canção.
Night Flight: a música com vocal mais curta do álbum (com pouco mais de 3 minutos e meio) e uma das mais envolventes. Apesar de fazer épicos, flertar com o experimentalismo, psicodelia e com o folk, compondo canções de até 11 minutos como “In My Time of Dying”, uma música como “Night Flight” mostra que o Zeppelin sabia fazer um ótimo blues rock sem grandes pretensões, sem nenhum solo de Page (algo raro), mas com muita alma. Existem três elementos para prestar atenção e gostar da música: 1º) o vocal de Plant; 2º) a linha de baixo de Jones que encontra espaço pra propor uma abordagem diferente aqui e ali; 3º) o órgão Hammond onipresente, também de Jones, que completa a canção. Preste atenção na mixagem para reparar quando a guitarra está apenas no falante esquerdo e o órgão no falante direito.

Passa no teste do tempo?

Tanto qualquer outro álbum do Zeppelin, Physical Graffiti mostra uma banda em forma, criativa e consciente de tudo o que pode fazer em estúdio e fora dele. O próprio Jimmy Page diz que sabia o que a banda e o lugar escolhido para gravar o álbum, Headley Grange, poderia oferecer em termos de som naquele momento.
Kim Thayil, guitarrista do Soundgarden, cresceu ouvindo o álbum e soube definir bem o que havia sido a banda até ali. Para ele, o primeiro disco era mais blues, o segundo mais hard rock, o terceiro mais folk. Mas ele não acha Physical Graffiti diferente do resto da discografia ou do que eles fizeram até ali. De fato, não há uma quebra no estilo da banda. Eles continuam agregando influências e destilando o melhor hard rock e blues rock que podiam conceber ao mesmo tempo em que se abriam para as possibilidades criativas dos sintetizadores e colocavam arranjos orquestrais por cima de riffs monumentais. Aliás, por falar nisso, veja que até hoje é o riff de “Kashmir” e de várias outras músicas da banda ainda soam interessantes e modernos, nem um pouco datados.
Conforme o tempo passa para uma banda, é comum que os fãs e o público em geral se apegue mais aos primeiros anos de produção, uma mistura de saudosismo dos clássicos com um certo preciosismo. No caso do Led Zeppelin não é diferente, mas agora tudo o que eles produziram já assumiu um caráter clássico para o rock e para a música do século 20. Aliás, se vê muito da influência da banda até hoje, seja no Wolfmother, seja nos novatos dos Royal Blood, ou veteranos do rock como o Warren Haynes e o Gov’t Mule, os suecos do Graveyard ou em tantas outras bandas que estão por aí. Physical Graffiti é a obra em que eles resumem toda a carreira e ainda propõem coisas novas até hoje.
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