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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

JOGOS VORAZES – A ESPERANÇA (PARTE 2) – A TRILHA SONORA

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Não é só o filme que termina de forma conservadora. A trilha também é extremamente convencional
Por Lucas Scaliza
Um dos blockbusters mais esperados do ano, a conclusão da saga de Katniss Everdeen em Jogos Vorazes – A Esperança Parte 2 (The Hunger Games: Mockinjay Pt. 2), termina a história da luta dos 13 distritos contra a Capital de Panem de forma bastante previsível e com um bônus: cenas finais que transformam uma história de revolução e rebelião em um conto de amor tradicional e conservador. As questões políticas discutidas nos filmes anteriores, e que eram o grande trunfo da produção, acabam não tendo a mesma profundidade, impacto e espaço de antes. Ainda assim,A Esperança Parte 2 acaba sendo um filme aquém das expectativas, mas é OK para um blockbuster originalmente voltado para o público adolescente e jovem-adulto.
Se a narrativa (e também a atuação de Jennifer Lawrence) não parecem ter o mesmo brilho de antes, o mesmo podemos dizer de sua trilha sonora original. As composições de James Newton Howard são extremamente convencionais. Não são ruins, mas não acrescentam nada ao filme, apenas fazem o básico: colocam som em sequências sofridas, de suspense e de ação.
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Não há muita imaginação no trabalho de Howard. No máximo, ele constrói uma trilha que vai ficando cada vez mais tensa, de acordo com nosso suspense com o que se passa na tela, e quando a música parece que chega a seu ápice e algo vai acontecer a qualquer momento, a música volta a cair e nada acontece na tela. Um misto de frustração e alívio, mas sabendo que é temporário e que algo de fato irá acontecer. Isso ocorre umas três vezes ao longo do filme. Embora seja um recurso bem interessante de manipulação de expectativa, não é novo. Entre tantos filme que já utilizaram esse recurso, lembro-me de O Anticristo, de Lars Von Trier, em que a trilha a todo momento parece conduzir o suspense para algo bombástico, violento ou maligno, mas nunca nada disso acontece, criando uma espécie de “beco sem saída”. Ou pelo não acontece com antecipação da trilha sonora.
Howard também usa o padrão do gênero para criar sua música. Orquestrações, corais e alguns poucos elementos eletrônicos. E dá-lhe violinos lentos e arrastados para criar uma cama sonora e leitosa, notas extremamente graves nos sopros para pontuar uma situação de ameaça ou pesar, e sons mais épicos e trovejantes para as cenas de ação, como “Rebels Attack”, “Sewer Attack” e “Transfer Command”. Contudo, é nas trilhas mais explosivas que Howard se dá melhor, com mais espaço para criar, para mudar os ritmos e propor um chacoalhão no meio de tantas faixas parecidas. Aliás, Howard, também responsável pela trilha original de A Esperança Parte 1, criou alguns temas que são recuperados nesta conclusão, criando uma continuidade que musicalmente soa coerente e muito familiar. Embora seja uma repetição, é um recurso necessário a qualquer série de filmes, afinal a música também é um elemento que une e torna as diferentes partes de uma obra reconhecíveis entre si.
“Go Ahed, Shoot Me” pontua uma das melhores cenas ainda no primeiro ato do filme e é uma das faixas mais tensas para um situação que não envolve combate. E “Your Favorite Color Is Green” traz uma musicalidade mais folk que é um respiro de tanta tensão. “Plutarch’s Letter”, já no finalzinho do filme, quando toda a ação já acabou e só restaram as consequências, é quase um epitáfio em forma de som, uma música que acompanha muito bem o significado do que Plutarch quer dizer a Katniss e o que isso representa para ela, para Panem e, também, para o nosso mundo fora das telas.
Apesar dos pontos altos, Howard segue o roteiro. Seu trabalho não é ruim, mas é convencional demais. Não tem o mesmo peso que Tom Holkenborg deu à trilha de Mad Max: Estrada Da Fúria, dando a ela um protagonismo e uma importância ímpar ao filme. Se não fossem as sinfonias metaleiras, Mad Max não seria uma opera épica e punk do deserto. Também não é uma trilha que consegue ambientar o filme para fora de seu previsível universo, como fazem os sintetizadores de Disasterpeace em A Corrente do Mal, trazendo algo de anos 70 para a atual Detroit. E o padrão sinfônico também não dá margem para uma criação de novos sons, entregando uma nova proposta sonora, como fazem a dupla Atticus Ross e Trent Reznor em Garota Exemplar.
Dessa vez não será lançada uma trilha paralela com músicas de artistas pop e eletrônicos, diferente do que ocorreu com A Esperança Parte 1, que teve até mesmo curadoria da Lorde. Também não há uma canção vocal original acompanhando os créditos de encerramento. A direção musical do filme optou por colocar incluir uma longa faixa unindo três composições, “These Are Worse Games To Play”, “Deep In The Meadow” e “The Hunger Games Suite”. O destaque fica com “Deep In The Meadow”, com vocais sussurrados da protagonista Jennifer Lawrence, substituindo a voz de Sting que figurava na gravação de 2012. A roupagem de canção de ninar também foi convertida em algo mais arrastado e pesaroso, condizente com o clima geral de uma série distópica (ainda que a versão de Sting seja mais original).
Quando assistimos ao filme, notamos a trilha sem espanto, surpresa ou estranhamento algum. Ela segue pontuando o filme normalmente. Se há um ponto alto, a trilha é alta. Se há um ponto de introspecção, ela é introspectiva. Se há uma ameaça nos esgotos, a música faz parecer que haverá um bestante a cada esquina. Nós sentimos a música durante a experiência do filme, mas dificilmente reparamos nela. Quando ouvida sozinha, é mais fácil notar sua riqueza, mas mesmo assim não é exatamente empolgante.
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