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sábado, 6 de fevereiro de 2016

AVANTASIA – GHOSTLIGHTS (2016)

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O formato não é novo, mas Tobias Sammet ainda faz discos poderosos, divertidos e otimistas
Por Lucas Scaliza
O que era um projeto paralelo e ambicioso para Tobias Sammet tomou uma proporção correspondente com a qualidade do projeto. A banda, ou projeto de metal opera, Avantasia foi bastante inovadora quando foi criada. Era basicamente um dream team do metal melódico europeu fazendo música boa para fãs de metal com tudo o que eles queriam: vocais altos, guitarras ágeis, uma história ou um tema se desenrolando e requerendo a participação de diversos cantores para interpretarem cada personagem. Esses foram os elementos do sucesso dos ótimos The Metal Opera (2001) e The Metal Opera 2 (2002). E então Sammet continuou reproduzindo o formato, de forma que sempre seria possível ouvir cada álbum como um disco único, embora quase todos tenha alguma história ou conceito que se desenvolve em outros discos. O novo Ghostlights, por exemplo, é a segunda parte do conceito apresentado em The Mistery of Time (2013).
No esteio do sucesso do Avantasia, a banda Edguy, que lançou o vocalista e compositor alemão no cenário do heavy metal, também galgou várias posições na preferência do público e dos críticos europeus. Sammet, assim, está sempre com alguma novidade. Trabalhando como louco e cantando muito.
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Ghostlights é melhor que seu antecessor e se mantém no mesmo patamar que The Scarecrow(2008). É sobretudo divertido de ouvir, reparando em como usam bem os vocalistas convidados para tentar dar a cada faixa uma característica única. É bom lembrar que Sammet e sua banda entregam o puro metal melódico com o Avantasia, por isso não foge de nenhum clichê do metal europeu. Está tudo lá, para alívio de quem espera justamente por isso e para horror de quem espera por algum novo. Mas aos pertencentes deste segundo grupo é importante ressaltar que a variedade de formas musicais tornam o trabalho interessante o suficiente para merecer sua audição. Se não agradar no todo, pelo menos algumas partes serão bastante proveitosas.
“Mystery Of a Blood Red Rose” abre o disco com um clima positivo e alegre, muito diferente do que esperaríamos. Já “Let The Storm Descend Upon You”, que vem logo em seguida, tem toda a pompa de música abertura de um disco do Avantasia. Um belo trabalho de teclados, uma ótima seção rítmica em toda a sua introdução que soam grandiosos e bem trabalhados pela banda. Além de Sammet (que canta em todas as faixas, toca baixo e teclado), a música tem a participação do sempre competente Jørn Lande, de Ronnie Atkins (Pretty Maids) e Robert Mason (Warrant). Com 12 minutos de duração, a música deixa o gosto de enrolação. Embora seja uma das melhores do disco, poderia ter uns quatro minutos a menos, já que não tem tantas partes diferentes assim em sua estrutura que justifique todo esse tempo para seu desenvolvimento.
“The Haunting” tem todos os clichês de uma canção que pretende ser assombrada, ainda mais com americano Dee Snider (Twisted Sister) nos vocais, mas não dá para negar que o resultado é bom. A faixa é mixada com diversos efeitos sonoro escondidos entre suas camadas de instrumentação e propõem um desenvolvimento que não é apressado, conservando o passo mais gótico que a canção pede. A poderosa “Seduction of Decay”, com mais de 7 minutos e Geoff Tate (Queensrÿche) como convidado, é outra que ajuda a diversificar a interpretação musical do Avantasia e a qualidade da composição de Tobias Sammet ao trazer o clássico para o metal e o hard rock.
“Ghostlights” é apressada, um power metal feito sob medida para colocar Sammet e o convidadoMichael Kiske (que dispensa qualquer apresentação) cantando notas altas e cada vez mais nas alturas ao chegar no refrão. Apressada é também “Babylon Vampyres”, mas esta vem com todo o jeitão do hard rock oitentista e acaba se tornando uma das faixas mais divertidas do disco.
“Draconian Love”, com participação muito bem escolhida de Herbie Langhans (da banda cristã Seventh Avenue), é outra música gótica, mas com influências da vertente mais melódica do metal industrial alemão. “Master Of The Pendulum” se apresenta bem e evolui para uma das sessões rítmicas mais pesadas do disco para comportar a agressividade de Marco Hietala (baixista e segunda voz do Nightwish). Com a holandesa Sharon den Adel (Within Temptation) trazendo uma voz mais gentil ao disco, “Isle of Evermore” tem elementos eletrônicos que destoam do resto deGhostlights, mas as interpretações de Tobias e Adel, assim como as orquestrações, fazem o trabalho de colocar essa faixa no contexto do álbum. “Lucifer”, com vocais de Lande, é metade balada e metade pauleira, com um solo incrível de Bruce Kulick, guitarrista do Grand Funk Railroad e ex-Kiss.
Cada uma a seu modo, as três últimas músicas do disco – “Unchain The Light”, “A Restless Heart And Obsidian Skies” e “Wake Up To The Moon” – tratam de resgatar o clima divertido e melódico que são a marca do Avantasia. Mesmo que o estilo extremamente harmônico da banda possa cansar em alguns momentos, é difícil passar incólume pela agitação e pelo clima positivo e cheio de luz que evocam.
As participações continuam bem escolhidas, embora nenhum dos cantores/cantoras não façam nada muito diferente do que já nos acostumamos a vê-los fazer com suas bandas. Os solos de guitarra são muito bons, sempre aparecendo nos momentos certos e nunca soando burocráticos. Além do já citado Kulick (que toca em três faixas), Oliver Hartmann (ex-At Vance) toca em outras quatro, deixando o restante para Sascha Paeth. O baixo ficou dividido entre Sammet e Paeth, enquanto as orquestrações e teclados ficaram a cargo de Michael “Miro” Rodenberg (já trabalhou com Angra, Shaaman, Kamelot, Rhapsody of Fire, entre outros). A bateria é de Felix Bohnke, um velho conhecido dos fãs do Avantasia e Edguy.
Ghostlights não é o disco mais original do Avantasia ou do metal europeu, mas cumpre perfeitamente bem seu papel. O formato já não é nada novo ou inovador, mas ele segue se divertindo gravando com os amigos e com os ídolos, o que também diverte o público com a possibilidade de escutar os mais variados duetos dos nomes do heavy metal.
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

ANTHRAX – FOR ALL KINGS (2016)


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Anthrax ressalta seu lado thrash incorporando heavy metal moderno e cheio de melodias em ótimo novo álbum
Por Lucas Scaliza
O veredito sobre For All Kings, o novo disco do Anthrax, pode ser explicado não apenas pela música que ele apresenta, mas também pela conjuntura temporal que se abateu sobre todas as bandas nascidas no underground norte-americano dos anos 80 e que precisaram, em sua maioria, mudar para continuarem existindo. O Anthrax é uma das bandas que fazem parte do Big Four e que ao lado de Metallica, Megadeth e Slayer mostraram ao mundo o que era o thrash metal. Dessas, apenas o Slayer continua comprometido com a raiz do estilo. As outras três passaram pelos anos 90 acrescentando sonoridades mais variadas aos seus discos, o que contribuiu para que aumentassem seus públicos.
Assim, considerando esse fator da passagem do tempo que trouxe novas influências para as bandas de thrash, podemos resumir o veredito dizendo que For All Kings é para o Anthrax o queRepentless (2015) é para o Slayer: um ótimo álbum para a banda, com boas ideias e um atestado de como 30 anos de atividade ainda não exauriram o poder de fogo do grupo, mas não será o melhor trabalho do grupo e nem resgata o passado de álbuns clássicos como Among The Living(1987). Aliás, voltar àquela sonoridade não está nos planos da banda – como já deixava bem claro o antecessor Worship Music (2011) – e este novo trabalho não deve ser julgado sob esta ótica. A “nova” sonoridade do Anthrax veio para ficar e é trabalhando com ela que exercem o thrash metal que marcou o nome do quinteto.
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Mas se você é fã do Anthrax ou de música pesada, já sabe disso e talvez não vá ouvir as 15 faixas da versão deluxe do álbum esperando ingenuamente aquele Anthrax acelerado e cru de 30 anos atrás. O grande barato de ouvir um disco desses – assim como qualquer outro – é reparar em quais novidades eles trazem ao som que já sabemos que são capazes de fazer tão bem. Nesse departamento, não faltam motivos para você ouvir e gostar do trabalho.
“You Gotta Believe” tem introdução climática, é bem pesada (guitarras em staccato e bumbo duplo) e divertidíssima. Cabe até uma excelente parte em que os guitarristas Scott Ian e Jonathan Donais (do Shadows Fall) dividem ótimos solos enquanto o baixo de Frank Bello toma a dianteira da mixagem. Em seguida, o Anthrax mostra sua força de novo: show de bumbos duplos da parte de Charlie Benante, fritação intercalada com bends agressivos de Donais e o ritmo staccato de Ian.
As faixas “For All Kings”, “Suzerain” e “Evil Twin” (esta sobre o massacre na revista francesaCharlie Hebdo cometido pelo Estado Islâmico) farão os antigos fãs suspirarem, já que são dessas composições que a banda ainda faz para dizer que o thrash ainda vive e vai muito bem (mesmo que misturado a outras influências). A força de “All of Them Thieves” também é impressionante, principalmente quando separamos o trabalho de Ian na pesada guitarra base e a bateria de Benante. E para aqueles que tem saudade dos anos 80 há “This Battle Choose Us”, combinando riffs musculosos com ritmo divertido, e a aceleradíssima “Zero Tolerance”. A ao vivo “Fight ‘em Till You Can’t” (do álbum de 2011) é um dos quatro bônus e uma das pauladas mais dignas deAmong The Living que o Anthrax já fez, tal é a intensidade da faixa.
“Monster At The End” é mais heavy metal e tem um refrão bem acessível que permite a Joey Belladonna exercer seu vocal alto e seu estilo Ronnie James Dio de cantar, um estilo que, aliás, vai ser exercitado quase que durante todo o disco. “Breathing Lightning” tem uma introdução bastante bonita, em que o grupo demonstra um poder harmônico muito bom. E a faixa realmente alterna entre a beleza harmônica e os riffs metaleiros mais comuns e divertidos que podemos encontrar. Belladonna realmente está muito confortável trazendo toneladas de melodias para o Anthrax.
O quinteto começou a compor material novo em 2012 e só entrou em estúdio com o produtor Jay Ruston em dezembro de 2014. Como Scott Ian observou, a banda sabia o que tinha que fazer e tinha que saber quando era hora de parar. Todo o tempo gasto juntando as ideias, dando forma às composições, gravando tudo e lidando com mudanças na formação (como a entrada de Donais no lugar de Robb Caggiano) funcionou. For All Kings é diversificado, soa poderoso e bem planejado. Uma mostra muito fortuita disso é a faixa “Blood Eagles Wings”, cuja primeira parte é lenta e arrastada, possui um refrão no estilo Alice In Chains e ainda comporta uma seção mais acelerada com um solo de guitarra tipicamente thrash. Um trabalho de desenvolvimento inspirado para ninguém colocar defeito. O riffs e o baixo de Frank ao longo dos cinco minutos de “Defend Avenge” fazem qualquer fã do Anthrax salivar pelos shows, já que é uma das músicas com maior potencial para bater cabeça.
O grande mérito de For All Kings é conseguir unir o thrash ao heavy metal moderno com grandiosos refrãos e não soar forçado em nenhum deles. A banda já teve diversos vocalistas e se Joey Belladonna não é o seu favorito é bem possível que isso estrague um pouco de sua experiência com o álbum. Se você não tem problemas com o vocalista, então 2016 está começando pesado, denso, divertido e com um ótimo exemplo de metal que vale a pena ser ouvido.
Foto: Ignacio Galvez
Foto: Ignacio Galvez

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

LED ZEPPELIN – PHYSICAL GRAFFITI (1975) FAZ 40 ANOS

Physical Graffiti
A banda voltou a Headley Grange para gravar um álbum que merece ser redescoberto a cada ano
Por Lucas Scaliza

O que é?

Physical Graffiti é o sexto disco de estúdio do Led Zeppelin, lançado em 24 de fevereiro de 1975.

Histórias e curiosidades

Por que o Led Zeppelin é ainda considerada uma das melhores bandas de rock que o mundo já ouviu? Parte da resposta vem do fato de o quarteto não ter se transformado tanto assim com o passar do tempo. Certamente eles amadureceram com o tempo, mas desde o primeiro disco mostraram que a banda era excelente, propondo novos padrões para o rock’n’roll, uma habilidade técnica invejável, uma fluência para agregar estilos em seu rock e um poder de influência absurdo até hoje. E embora se comente muito sobre os quatro primeiros álbuns do grupo, é necessário olhar com mais cuidado para o que veio depois.
Physical Graffiti, por exemplo, pode não ser o trabalho mais repleto de clássicos da banda que continuam na memória da maioria dos roqueiros, mas como álbum é um show. Tem rock de sobra (“Custard Pie”, “The Rover”, “Houses of the Holy”, “Sick Again”), baladas (“Down By The Seaside”, “Tem Years Gone”), aquele rock clássico e divertido (“Boogie With Stu”, “Black Country Girl”), funk rock (“Trampled Under Foot”), sem falar nas épicas “Kashmir” e “In The Light” e na folk “Bron-Yr-Aur”.
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Embora não seja um disco conceitual, o disco é chamado de “mãe” de todos os discos duplos que vieram em seguida, visto que não era comum lançar um disco de inéditas assim tão longo (e tão caro de se produzir). Mas a banda achou que seria um bom formato quando as oito novas músicas compostas ultrapassavam o tempo médio de um LP. Daí, juntaram as oito inéditas com canções gravadas desde 1970 que acabaram não entrando em seus discos anteriores: uma deLed Zeppelin III (1970), três de Led Zeppelin IV (1971) e mais três de Houses of The Holy (1973).
Robert Plant, Jimmy Page, John Paul Jones e John Bonham voltaram uma casa em Headley Grange, no interior da Inglaterra, para gravar Physical Graffiti. O local escolhido é a mesma casa em que gravaram Led Zeppelin IV. Uma casa grande em que podiam morar por um tempo, tocar tudo o que quisessem, gravar com os equipamentos que já estavam por lá e não pagar por esse serviço em um estúdio. Livres para criar, o quarteto estava fazendo um disco ambicioso. “Estávamos forçando os limites da música e sabíamos disso. E nesse álbum […] a coisa toda está cheia de personalidade, tipos de afirmações sobre música, e alguns são realmente inovadores. Tem coisas que podem ser sensíveis e carinhosas e tem coisas que são pesadas e vão na sua direção”, disse Jimmy Page, que produziu e foi o grande mastermind do disco.
O nome foi dado também pelo guitarrista. Por volta de 1974, o grafite tinha começado a aparecer nos prédios da Inglaterra com citações do poeta e pintor inglês William Blake, de uma forma bem diferente ainda do que viria a ser quando integrado ao hip hop. No estúdio, Page pensou que gravar uma música em fita magnética é como grafitar também. “A música era uma manifestação física” desse processo, uma reação física.
Embora fossem os membros do Black Sabbath que ganharam fama como ocultistas, principalmente por causa da capa, das letras e do trítono de seu primeiro disco Black Sabbath(1970), o verdadeiro ocultista rockstar da época sempre fora Jimmy Page. Como preparação para o lançamento do disco, ele abriu uma livraria esotérica chamada Equinox, em Kensington. O nome é o mesmo da revista fundada pelo famoso ocultista Aleister Crowley em 1905. A loja vendia o tipo de livros que não eram encontrados nas livrarias normais. Em 1974, depois de terminar de gravar e mixar Physical Graffiti, Page mandou cartões de Natal para os amigos com “Cumprimentos Thelêmicos”, o que indicava sua proximidade com a Thelema, a filosofia de Crowley.
O baixista John Paul Jones foi o maior multi-instrumentista do disco, sendo responsável por executar órgãos, pianos, clavinete, mellotron, sintetizador, violão, bandolim e até fazer um arranjo de orquestra. “In The Light”, a faixa mais experimental e uma das melhores do álbum, é resultado do trabalho de Jones com o sintetizador.
Naquela época, o Zeppelin já era uma das maiores bandas do mundo – e o dinheiro trouxe algumas facilidades para o grupo. Para começar, puderam criar o próprio selo de gravação, Swan Song, do qual Physical Graffiti foi o primeiro lançamento, enquanto a distribuição ainda estava com a Atlantic, a gravadora gigante da época. Essa liberdade criativa permitiu que tivessem maior controle sobre o trabalho e facilitou o lançamento de um disco duplo. Quando a turnê pelos EUA começou em janeiro, ainda antes de o disco chegar às prateleiras, o Zeppelin mostrou a maior produção de palco já vista até então, o que incluía luzes laser e projeções do fundo do palco. Por volta da meia-noite do dia 8 de janeiro de 1975, cerca de 2 mil fãs da banda formaram uma fila para ver o novo show do grupo no Boston Gardens, obrigando a organização a começar a vender os ingressos às 2h30 da madrugada ao invés das 6 horas, como planejado.

Músicas e destaques

Trampled Under Foot: assim como “Rock & Roll”, esta música foi criada a partir de um riff, de forma muito espontânea, em 1972. A influência de funk presente na faixa, que tem um dos grooves mais deliciosos do álbum, e também em “Custard Pie” veio das visitas a clubes noturnos americanos que o Zeppelin fez durante a turnê de 1973. Mas apesar dessa influência mais direta, Page diz que funk sempre esteve na dieta da banda, uma prova disso seria “The Lemon Song”, gravada no segundo álbum em 1969. A música é bastante sensual, usando carros como metáforas para o sexo. As teclas que são ouvidas na música, junto com o riff de guitarra, são do clavinete de Jones.
Kashmir: a música mais famosa do álbum e uma das mais icônicas do catálogo dos ingleses. Quando chegaram a Headley Grange para gravar, Page já tinha algumas ideias prontas que queria testar com a banda e a primeira delas era justamente o riff de “Kashmir”. Segundo o guitarrista, desde sempre ele quis que a orquestra dobrasse o riff e já imaginava a parte dos sopros como parte da composição. Ele tocou a música acompanhado primeiramente de John Bonham e repetiam exaustivamente o riff. A letra feita por Robert Plant realmente foi inspirada em uma viagem ao Marrocos, mas a música só ganhou letra após toda a sua estrutura estar pronta. Uma versão demo da música chamava-se “Swan Song” e acredita-se que tenha chegado a 58 minutos de duração. Page nega que seja tanto assim, mas confirma que era longa. E em uma entrevista dada ao escritor William Burroughts, o guitarrista disse que até o lançamento da canção, nenhum membro do Led Zeppelin havia visitado a Caxemira.
In The Light: uma das músicas que servem de porta de entrada para Physical Graffiti e das mais complexas gravadas pela banda e para a época. São tantas camadas e tanta manipulação de som (John Paul Jones operando os sintetizadores) que a faixa nunca foi tocada ao vivo pela banda (embora Page acredite que poderiam tê-la incluído na apresentação de 2008, já que os teclados da época são mais completos). O início da canção, filtrado por efeitos de sintetizador e viajante, não é nada estranho à banda, que sempre foi aberta à utilização de recursos de estúdio para criar faixas criativas (é só lembrar da gravação original de “Whole Lotta Love”). Na nova versão remixada do disco, com as faixas demo gravada pela banda, é possível conferir “Everybody Makes It Through”, uma primeira versão do que seria “In The Light”. Interessante notar a partir do que a banda trabalhava para chegar ao resultado final. Page novamente usou um arco de violino (como em “Dazed and Confused” e “How Many More Times”) no violão para conseguir aquele efeito logo na introdução da canção, que serve de cama para o sintetizador de Jones. Apesar das dificuldades, Page a executou ao vivo durante a turnê conjunta com o The Black Crowes em 1999.
Ten Years Gone: a princípio, seria mais uma faixa instrumental de Page, mas Plant decidiu incluir uma letra sobre uma namorada que teve 10 anos antes e disse que era para o cantor escolher: ou ela ou os fãs dele. Esta é outra música complicada de reproduzir ao vivo, já que existem muitas partes diferentes de guitarra sendo executadas ao mesmo tempo. Há quem diga que Page gravou 14 faixas de violão e guitarra para a harmonia da música. Uma música que reflete o lado mais leve do Zeppelin e o bom gosto de todos eles para interpretar a canção.
Night Flight: a música com vocal mais curta do álbum (com pouco mais de 3 minutos e meio) e uma das mais envolventes. Apesar de fazer épicos, flertar com o experimentalismo, psicodelia e com o folk, compondo canções de até 11 minutos como “In My Time of Dying”, uma música como “Night Flight” mostra que o Zeppelin sabia fazer um ótimo blues rock sem grandes pretensões, sem nenhum solo de Page (algo raro), mas com muita alma. Existem três elementos para prestar atenção e gostar da música: 1º) o vocal de Plant; 2º) a linha de baixo de Jones que encontra espaço pra propor uma abordagem diferente aqui e ali; 3º) o órgão Hammond onipresente, também de Jones, que completa a canção. Preste atenção na mixagem para reparar quando a guitarra está apenas no falante esquerdo e o órgão no falante direito.

Passa no teste do tempo?

Tanto qualquer outro álbum do Zeppelin, Physical Graffiti mostra uma banda em forma, criativa e consciente de tudo o que pode fazer em estúdio e fora dele. O próprio Jimmy Page diz que sabia o que a banda e o lugar escolhido para gravar o álbum, Headley Grange, poderia oferecer em termos de som naquele momento.
Kim Thayil, guitarrista do Soundgarden, cresceu ouvindo o álbum e soube definir bem o que havia sido a banda até ali. Para ele, o primeiro disco era mais blues, o segundo mais hard rock, o terceiro mais folk. Mas ele não acha Physical Graffiti diferente do resto da discografia ou do que eles fizeram até ali. De fato, não há uma quebra no estilo da banda. Eles continuam agregando influências e destilando o melhor hard rock e blues rock que podiam conceber ao mesmo tempo em que se abriam para as possibilidades criativas dos sintetizadores e colocavam arranjos orquestrais por cima de riffs monumentais. Aliás, por falar nisso, veja que até hoje é o riff de “Kashmir” e de várias outras músicas da banda ainda soam interessantes e modernos, nem um pouco datados.
Conforme o tempo passa para uma banda, é comum que os fãs e o público em geral se apegue mais aos primeiros anos de produção, uma mistura de saudosismo dos clássicos com um certo preciosismo. No caso do Led Zeppelin não é diferente, mas agora tudo o que eles produziram já assumiu um caráter clássico para o rock e para a música do século 20. Aliás, se vê muito da influência da banda até hoje, seja no Wolfmother, seja nos novatos dos Royal Blood, ou veteranos do rock como o Warren Haynes e o Gov’t Mule, os suecos do Graveyard ou em tantas outras bandas que estão por aí. Physical Graffiti é a obra em que eles resumem toda a carreira e ainda propõem coisas novas até hoje.
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

ROGER WATERS – THE WALL (2015)

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Filme, documentário e show se confundem em obra que é espetáculo sobre a busca por um pai e uma reação contra o terrorismo
Por Lucas Scaliza
Roger Waters, o baixista, cantor e compositor do Pink Floyd, foi quem liderou a banda em 1979 na produção e turnê do álbum The Wall, a ópera rock mais famosa e mais influente de que se tem notícia. Se a banda antes era conhecida por sons psicodélicos, depois por sons viajantes, com este álbum o Pink Floyd se mostrou extremamente bem alinhado com seu tempo, mais uma vez propondo sonoridades diferentes dentre tudo o que já haviam feito e criando um trabalho conceitual em que tudo cabia: capitalismo, comunismo, Guerra Fria, crítica ao sistema educacional, ao casamento, à superproteção materna, ao showbusiness e um retrato de uma condição mental que só se deteriora frente às pressões do mundo.
The Wall, o álbum, nunca deixou de ser atual e de se conectar às novas gerações, mas o que Roger Waters conseguiu fazer ao levar o disco novamente para os palcos do mundo inteiro extrapolou qualquer expectativa. Embora a turnê tenha ocorrido entre 2010 e 2012, só agora temos acesso ao registro prometido pelo músico. O show está disponível em CD e em blu-ray, mas resenharemos a versão audiovisual por conta de suas várias nuances que agregam mais significado ao lançamento.
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É importante dizer que o filme The Wall, escrito e dirigido por Waters e por Sean Evans, é uma mistura de gêneros. É claro que a maior parte de suas 2 horas e 12 minutos são tomadas por um show em que o clássico álbum foi executado na íntegra em um campo de futebol em Paris. As performances são irrepreensíveis. Cada nota de solo de guitarra, cada dueto e cada uma das 29 faixas são tão únicas e emocionais quanto o eram em 1979. Mas o que realmente chama a atenção no filme são as intervenções narrativas que são tanto documentário quanto road movie.
Quem conhece o Floyd e alguns dos temas de The Wall sabe que o pai de Waters lutou na Segunda Guerra Mundial contra os nazistas e foi morto quando Roger ainda era muito pequeno. Assistindo ao filme, sabemos também que o avô de Waters lutou na Primeira Guerra Mundial e também foi morto em combate, quando seu pai tinha apenas dois anos. Pois bem: o filme começa justamente com o músico chegando a um cemitério/memorial para homenagear quem perdeu a vida na truculenta máquina de moer carne da Segunda Guerra. Enquanto ele toca uma música melancólica em seu trompete para as lápides, um avião sobrevoa o local e um corte sensacional nos leva do documentário para a inesquecível introdução do show com “In The Flesh?”.
Entre uma sequência e outra de músicas, o show é interrompido para mostrar a peregrinação de Waters pela Europa continental em busca de seu pai, da memória de seu pai. Ele morreu em combate na cidade de Anzio, na Itália, e é para lá que ele vai, de carro. Ao longo do caminho, encontra várias pessoas diferentes: filhos, netos, amigos, desconhecidos. É tanto um road moviequando um “falso” documentário, que copia algumas ideias de 20,000 Days On Earth (2014), o documentário de Nick Cave. Assim como ocorreu com o músico australiano, Waters também conversa com alguns personagens dentro de um carro em movimento. Em um momento estão lá, no outro não estão mais. E Waters dirige pela França e para dentro da Itália sempre vestido de preto, um luto sem fim, com direito a uma parada em um bar para três doses enquanto desabafa em inglês para um barman que só entende francês. Uma cena tão literária quanto cinematográfica. Todo o arco narrativo que tem a ver com o pai é comovente e ajuda a dar ainda mais gravidade à obra. Além de um espetáculo, conhecemos um pouquinho mais a história pessoal do compositor.
Já o show teve mensagens políticas ácidas e importantes ao longo de toda a sua extensão. Roger Waters atualizou todo o conceito citando as mazelas humanas atuais. Um dos alvos é o terrorismo. O telão circular no centro do palco exibe fotos de pessoas vítimas de atentados terroristas ao longo de algumas músicas. São pessoas de diversas nacionalidades e que foram mortas em diferentes lugares do globo. A clássica “Another Brick In The Wall Part 2” ganha inclusive uma pequena continuação dedicada ao brasileiro Jean Charles de Menezes, morto em 2005 ao ser confundido com um terrorista pela Scotland Yard no metrô de Londres.
Em “Goodbye Blue Sky”, o telão exibe vários aviões que despejam as ideologias sobre o mundo e que acabam se tornando símbolo de sofrimentos, injustiças e sofrimentos. Cruzes cristãs, estrelas judaicas, luas islâmicas, cifrões capitalistas, símbolo do Comunismo e até mesmo os logotipos das empresas Shell e Mercedes. Em “Mother”, um dos versos pergunta: “Mãe, eu deveria confiar no governo?” e uma animação no paredão responde em russo e em inglês “De jeito nenhum”, endereçando uma mensagem diretamente a Vladmir Putin, Barack Obama e David Cameron, atual primeiro ministro inglês.
Agora vamos falar do show. A produção de palco é impecável. Conforme a apresentação avança, uma enorme parede vai sendo construída até cobrir totalmente a banda. Por cima dessa parede é apresentada animações e imagens de encher os olhos que ajudam na narrativa atualizada de The Wall. Esse palco foi projetado pelo mesmo engenheiro que construiu o inovador palco 360º doU2. A música é a força motriz do espetáculo, mas não teria a mesma gravidade se não fossem todas as animações e vídeos projetadas para deslumbrar ainda mais o público. Water e os outros músicos chegam mesmo a ficar pequenos diante de tamanha engenhosidade visual.
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A sequência “Another Brick In The Wall Part 1”, “The Happiest Days of Our Lives” e “Another Brick In The Wall Part 2” constituem um dos momentos mais tensos do show. Water inicia “Mother” tocando violão junto com uma gravação sua ao vivo no Earls Court de 1980. “Hey You” é tão tocando quanto sempre foi e embora seja muito fiel à original, ganhou acréscimos sonoros muito bons com as novas versões de teclados e pedais disponíveis atualmente. A tristíssima “Nobody Home” mostra um muro já completo e quase intransponível, mas Waters a canta a partir de um buraco no muro, como se estivesse sozinho e isolado em uma sala de apartamento.
Diversas músicas têm vocais divididos entre Roger e Robbie Wyckoff, explorando muito bem a original divisão vocal entre Waters e David Gilmour no disco de 1979. Mas Waters encarou sozinho a tarefa de cantar “The Trial”, faixa em que precisa interpretar diversos personagens diferentes (o professor, a mãe, a esposa, etc) já no fim da apresentação. Mas é claro que o ponto alto do filme é “Comfortably Numb”. A banda está toda escondida pela parede. Apenas Waters canta no que sobrou do palco à frente dela. De repente, o topo do muro se ilumina e vemos Wyckoff lá em cima cantando o refrão. Do mesmo modo, na hora do solo, outro ponto no topo do paredão se acende e vemos Dave Kilminster fazer os solos da música empunhando uma Fender Telecaster. É o momento mais emocional do show e que compreensivelmente mais mostra cenas do público. Difícil não se arrepiar com a imagem de Wyckoff e Kilminster no topo da parede.
Lançado na semana passada, The Wall de Roger Waters é um símbolo de seu tempo hoje muito mais do que quando a turnê percorreu o mundo. Embora já existisse conflitos e atentados terroristas por todos os cantos, todas as letras, mensagens políticas e narrativas do filme são sentidas com muito mais força após os atentados de Paris. Seja por seu ativismo, seja pelo espetáculo visual que consegue superar o do U2, este é talvez um filme/documentário/show de música completo. Não apenas resgata um clássico do rock progressivo como também o atualiza. Waters nunca para no tempo.
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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Especial: Arquivos do Rock 'N' Roll # 3

por 


São muitos os bons documentários sobre Rock 'N' Roll, por isso ainda temos dezenas de coisas para falar aqui nos Arquivos do Rock. Confira agora a terceira parte de nossa epopeia da sonzeira, e se faltou algum doc que você curte, não se alarme, ele provavelmente será comentado em breve. Caso tenha perdido a primeira e segunda parte, clique AQUI 1 e AQUI 2
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Sound City (2013)

Para começar esta primeira análise é preciso dizer que, infelizmente, o lendário estúdio Sound City já fechou suas portas. Como um verdadeiro símbolo, ele tombou diante do imediatismo da música atual, que tornou tudo mais fácil, comercial e bem menos interessante. No documentário "Sound City", o músico e (pela primeira vez) diretor Dave Grohl(Nirvana, Foo Fighters), além de prestar uma sincera homenagem, também realiza uma espécie de tributo pessoal ao mítico local de pura criação.

O grande mérito (e maldição) do Sound City foi sua honestidade. A primeira vista o lugar não parecia muito coisa, e sua localização era bem estranha (em Van Nuys, na Califórnia, ao lado de uma fábrica da Budweiser, sendo o cheiro podre do lúpulo um cartão postal das bandas). Ele era sujo e mal organizado, do tipo onde se apagava bitucas no chão e ninguém se importava em derramar uísque. Mas como disse, o estúdio era honesto, e sua maior batalha foi tentar permanecer no ramo da música, mesmo com toda sua autenticidade. Leia a crítica completa do filme AQUI.



Sound City: EUA/ 2013/ 108 min/ Direção: Dave GrohlElenco: Vinny Appice, Joe Barresi, Brian Bell, Frank Black, James Brown, Lindsey Buckingham, Mike Campbell, Tim Commerford, Kevin Cronin, Rivers Cuomo, Warren Demartini, Mike Fleetwood, John Fogerty, Neil Giraldo, Christopher Allen Goss, Taylor Hawkins, Peter Hayes, Joshua Homme, Rami Jaffe, Alain Johannes, Barry Manilow, Paul McCartney, Steve Nicks, Rick Nielsen, Krist Novoselic, Tom Petty, Trent Reznor, Keith Olsen, Paula Salvatore, Ross Robsinson, Shivaun O'Brien, Tom Skeeter, Corey Taylor, Pat Smear, Lars Ulrich, Rick Springfield, Butch Vig, Lee Ving, Brad Wilk, Pat Wilson
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Anvil: The Story of Anvil (2008)

O documentário corajoso do diretor Sacha Gervasi, juntamente com Steve 'Lips' Kudlow (vocal e guitarra Solo) e Robb Reiner (baterista) - membros originais da banda Anvil - é um atestado daquilo que existe de mais real e puro no Rock 'N' Roll.

Em 1984 o grupo estava no auge. Um show no Japão para milhares de pessoas foi um dos pontos máximos da carreira. No mesmo show tocaram Scorpions, Bon Jovi, Whitesnake... conjuntos que superariam o número de um milhão de cópias vendidas nos anos seguintes. Mas o Anvil era de longe a melhor das apresentações. 

O problema foi que com o passar dos anos o quarteto caiu no esquecimento, e essa dura realidade, chamada anonimato, atingiu a cabeça dos caras como uma sentença. Leia a crítica completa do filme AQUI!



Anvil! The Story of Anvil: Canadá / 2008/ 80 min/ Direção: Sacha Gervasi/ Elenco: Tom Araya, Scott Ian, Robb Reinner, Steve 'Lips' Kudlow, Lemmy, Slash, Lars Ulrich, John Zazula
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Raul - O Início, o Fim e o Meio (2012)

Quando Raul Seixas nasceu, em 1945, não existia o Rock 'N' Roll. Muitos talvez nunca pensaram nessa estranha realidade, essa difícil concepção em que... o Rock... simplesmente não existe. Deveria ser algo enlouquecedor. Mas para salvar o baiano havia Luiz Gonzaga.

Muitos outros garotos esperavam naquela época, inconscientemente, um sinal para despertar - como espiões adormecidos que saberiam o exato momento de atacar. Lennon disse certa vez que, após ver um cinema lotado de garotas histéricas gritando para oElvis da tela, decidiu então, naquele exato momento, que seria uma estrela do rock. E o mesmo aconteceu com Raul Seixas.

O som vindo da América foi algo que mudou o garoto para sempre. A voz marcante deLittle Richard, a guitarra desafiadora de Chuck Berry, a atitude e personalidade do Rei... tudo isso moldou a base da carreira de um dos mais influentes músicos desse país, mesmo ele acreditando não ter nada a ver com a linha evolutiva da Música Popular Brasileira... Mas sim, ele teve a ver... pois Raulzito fazia arte, e não apenas Rock 'N' Roll. Ele compunha boleros, forrós, tangos em que dançava com a morte, valsas orquestradas e de letras profusas, que de tão inteligentes, talvez nunca recebam aquele "tal cuspe" merecido. Mais ou menos isso. Neste documentário temos finalmente um retrato consistente de quem foi o maior rockeiro de nosso país. Leia a crítica completa do filme AQUI!



Raul - O Início, o Fim e o Meio: Brasil/ 2012/ 128 min/ Direção: Walter Carvalho, Leonardo Gudel/ Elenco: Paulo Coelho, Luiz Carlos Maciel, Roberto Carlos Menescal, Marcelo Nova, Caetano Veloso, Tom Zé, Pedro Bial, Kika Seixas
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Botinada: A Origem do Punk no Brasil (2006)

Dirigido pelo Gastão Moreira, "Botinada: A Origem do Punk no Brasil" é com certeza um dos melhores documentários nacionais sobre nossa "música popular brasileira". O filme narra a ascensão dopunk rock no país, que alcançou o ápice de sua glória entre os anos de 1976 a 1984. Reunindo então os porta-vozes deste movimento, podemos entender melhor como tudo aconteceu.

Acompanhado de um humor natural (devido a porra louquice de que se trata o tema), a fita é extremamente envolvente, muito bem detalhada e conduzida. Todos os elementos da fase inicial são destrinchados pelos entrevistados: a dificuldade de acesso ao som que vinha das gringas, a reivindicação da origem do movimento (SP x Brasília), os shows de fita, o Construção e o Templo, a galera do Carolina, as primeiras bandas, os primeiros discos, o show para a burguesada do Gallery, O Começo do Fim do Mundo, as tretas violentas entre as gangues "Warriors" de SP e ABC, o preconceito, a calúnia e difamação da mídia, e claro, os punks da época, dos quais já não se fazem mais.

O documentário faz questão de enfatizar a importância das pessoas que lutaram por tudo aquilo, como o Kid Vinil com seu influente programa de rádio na Excelsior em 1978 (entre muitas outras coisas que o cara fez), o empenho do Fabião (vocalista da Olho Seco) para gravar o primeiro álbum independente de punk do país, ou do Redson(vocalista do Cólera, que morreu prematuramente em 2011) para gravar o segundo. Além desses caras temos entrevistas com: Clemente (Inocentes), Ariel (Restos de Nada), João Gordo (Ratos de Porão), Marcelo Nova (Camisa de Vênus), Mau (Garotos Podres), Wander Wildner (Replicantes), Pádua (Passeatas), Frango (Fogo Cruzado), Morto (Psykóze), Mingau (Ratos...), Tikinho (Lixomania), Valson (AI-5), Zorro (M-19), Antonio Bivar (Jornalista), Pierre (Cólera), Miro (Lixomania), Muniz (Fogo Cruzado), Tikão (M-19), entre muitos outros.

"Botinada: A Origem do Punk no Brasil" é um filme de baixo orçamento feito com muita raça e determinação - e nada é mais punk que isso. Um documento importantíssimo (e talvez definitivo) sobre o punk nacional, que deve ser consumido com ódio e satisfação. 

PS: PAU NO CÚ DA GLOBO!



Botinada: A Origem do Punk no Brasil: Brasil/ 2006/ 75 min/ Direção: Gastão Moreira/ Elenco: Fabião, Redson, Kid Vinil, Clemente, Ariel, João Gordo, Marcelo Nova, Mau, Wander Wildner, Pádua, Frango, Morto, Mingau, Tikinho, Valson, Zorro, Antonio Bivar, Pierre, Miro, Muniz, Tikão
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The Doors: When You're Strange (2010)

É realmente triste (e um pouco perturbador) entender como foi a desintegração psicológica e física de Jim Morrison."The Doors: When You're Strange" foi um documentário feito para a famosa série de filmes para TV, "American Masters", e oferece um retrato investigativo da história do quarteto com imagens raras, exclusivas e uma narração generosa do astro de Hollywood Johnny Depp.

No entanto, o que fica do filme é a personalidade distorcida de Morrison. Criado por um pai militar, o cara se rebelou de maneira vertiginosa com sua música, e mesmo não tendo alcançado o sucesso que deveria na época (devido ao seu comportamento errático nos shows), hoje ele é canonizado como um dos maiores ícones do Rock 'N' Roll. Nada mais justo, afinal.

Temos então todos os fatos e lendas em torno dele, como sua perturbada declaração em que diz que gostaria de matar o próprio pai e fazer sexo com a mãe. Foram muitas ofensas, prisões, porres homéricos e agressões ao público. Após um tempo, devido ao excessivo uso de drogas e álcool, ele já não conseguia compor nada, nem mesmo ensaiar. Se tornou um elefante no quarto, inconsciente, que amarrava o sucesso da banda, os arrastando à deriva.

Como disse no início, é algo muito triste de fato, levando em consideração o poder de suas letras e a alta qualidade sonora dos músicos. Mas esse é um dos preços a se pagar por voar alto demais, e Morrison praticamente beijou o sol.



The Doors: When You're Strange: EUA/ 2010/ 86 min/ Direção: Tom DiCillo/ Elenco: Johnny Depp, John Dnsmore, Robby Krieger, Ray Manzarek, Jim Morrison, Jim Ladd, Adolf Hitler, Janis Joplin, John F. Kennedy, Martin Luther King, Richard Nixon, Elvis Presley, Ed Sullivan, Andy Warhol
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Imagine: John Lennon (1988)

Os Beatles foram, inegavelmente, uma força que influenciou não só a musica mundial, como também seu comportamento em geral. Mesmo com diversos documentários sobre o Fab-Four a disposição, o mais interessante de "Imagine" é que ouvimos as versões dos fatos diretamente da boca de John Lennon (por meio de infindáveis entrevistas), além de outras pessoas importantes, como seus filhos Julian LennonSean Lennon, da ex-esposa Cynthia Powell, também Yoko Ono Lennon, e por aí vai.

O filme alicerça de maneira elaborada todo a trajetória que fez do cantor um ícone do rock, com suas qualidades e perturbações. Podemos entender melhor a complicada relação dele com a mãe, os shows e bebedeiras em Hamburgo, o sucesso assustador quando jovem, as declarações polêmicas, as crucificações, o fim do sonho, osBed-Ins, os vícios, enfim, o filme demonstra através dos erros e acertos de Lennon que o mesmo era um ser humano comum, dono de uma naturalidade que já não existe mais no universo do showbiz. Acima de tudo, o cara não tinha medo de errar, ou pelo menos tinha muito menos medo do que a maioria de nós.

Como pano de fundo podemos ver também a produção do álbum "Imagine", um dos mais emblemáticos de sua carreira. Vê-lo cantarolar a canção que dá nome ao disco para seus amigos pela primeira vez é algo de valor inestimável. Em certo momento da fita, John recebe em sua casa um sujeito visivelmente perturbado, que rondava a enorme mansão que lhe servia de estúdio na ocasião, querendo conversar com ídolo para confirmar "que tudo se encaixava". O ex-Beatle se comovia com essas atitudes, se sentia responsável por estas pessoas. No final, este foi apenas um indício de quão assustadora poderia se tornar a idolatria em torno de sua pessoa.



Imagine: John Lennon: EUA/ 1988/ 100 min/ Direção: Andrew Solt/ Elenco: John Lennon, Yoko Ono, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr, david Bowie, Phil Spector, Cynthia Lennon, Julian Lennon, Sean Lennon, Dick Cavett, Salvador Dalí, Brian Epstein, Mal Evans, Elton John, George Martin, Klaus Voormann, Andy Warhol
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A Todo Volume (2008)

A principal motivação que levou o diretor Davis Guggenheim a realizar o documentário "A Todo Volume" foi prestar uma homenagem ao mais simbólico instrumento do Rock 'N' Roll: a guitarra. E para compreender melhor este objeto mágico, ele convidou três guitarristas extremamente distintos para contarem e discutirem suas histórias, influências, crenças e filosofias.

Os caras escolhidos foram Jack White - conhecido principalmente pelo seu trabalho no The White Stripes, este é praticamente um artista conceitual do rock, que sente um prazer incomensurável em se manter natural, enraizado nas origens do blues, tirando som até mesmo de um pedaço de pau com uma corda amarrada nele -, The Edge - o espirito criativo do U2, um arquiteto sonoro fundamentalmente adepto de novas tecnologias, como pedaleiras, sintetizadores e tudo que possa acrescentar algo diferente ao seu estilo e sonoridade -, e o lendário Jimmy Page - conhecido por seu papel de protagonista no Led Zeppelin, o cara se encaixa entre o rústico e o novo, um compositor experiente, mestre em seu ofício e dono de riffs fodásticos.

O filme traça então, de maneira instigante, todo o background dos guitarristas: o passado conturbado da Dublin em guerra de The Edge, a prolífera carreira como músico de estúdio de Page - que não supria suas necessidades por Rock 'N' Roll -, e a personalidade diferenciada de Jack White, um cara jovem que merecia ter nascido nos anos 30.

Com uma direção atenciosa, e oferecendo uma bela fotografia, o diretor Guggnheim produz um eficiente documento que edifica o poder da guitarra. A edição sagaz mistura algumas sequências lúdicas (quase todas de Jack White), e utiliza animações inteligentes para exemplificar situações, o que torna tudo ainda mais cool. É maneiro demais ver os caras conversando e tocando juntos.



A Todo Volume/ It Might Get Loud: EUA/ 2008/ 98 min/ Direção: Davis Guggenheim/ Elenco: Jimmy Page, The Edge, Jack White, Link Wray, Bono, Michael McKean, Robert Plant, Meg White
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Foo Fighters: Back and Forth (2011)

É muito interessante entender melhor como foi o fim do Nirvana para Dave Grohl. Talvez este seja o mais importante elemento de "Foo Fighters: Back and Forth", pois o músico detalha minuciosamente todos os seus passos após os suicídio de Kurt Cobain. Grohl teve que se reinventar, e certo dia gravou uma fita cassete na garagem de sua casa, e estas músicas foram basicamente o primeiro álbum do Foo Fighters. Ele recusou se estabelecer como baterista do lendário Tom Petty, para assim iniciar sua banda do nada, tocando em espeluncas, por muito pouca grana e pouco reconhecimento.

Mas o batera que se tornou vocalista se saiu bem, e o Foo Fighters se tornou um grande sucesso. Os caras fizeram turnês colossais, mas um problema sempre os acompanhou: o entra e sai de integrantes. Primeiro foi o batera original que saiu, e Taylor Hawkins o substituiu. Depois vieram uns quatro guitarristas, que, ou eram dispensados por não se entrosarem, ou abandonavam o barco sem motivo aparente - Pat Smear, ex-The Germs, decidiu sair fora no auge do sucesso, por exemplo.

Bem, resumindo, eu não sou tão fã assim de Foo Fighters, mas respeito o seu trabalho e reconheço o enorme valor de Dave Grohl para a história da música. O documentário é muito bem produzido e se torna relevante até para quem não conhece muito a banda.



Foo Fighters: Back and Forth: EUA/ 2011/ 150 min/ Direção: James Moll/ Elenco: Shawn Cloninger, William Goldsmith, DavidGrohl, Taylor Hawkins, Rami Jaffee, Krist Novoselic, Pat Smear, Butch Vig