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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Os meninos que enganavam os nazistas



ASSUNTO

Relações familiares, sociais, afetivas, discriminação, intolerância, guerra, aprendizagem.


SINOPSE

Durante um período de ocupação nazista na França, os jovens irmãos judeus Maurice (Batyste Fleurial) e Joseph (Dorian Le Clech) embarcam em uma aventura para escapar dos nazistas. Em meio a invasão e a perseguição, eles se monstram espertos, corajosos e inteligentes em sua escapada, tudo com o objetivo de reunir a família mais uma vez.

TRAILER


O OLHAR DA PSICOLOGIA

Numa época na qual os valores se perdem, quando as crianças não são convidadas a enfrentar seus próprios desafios, sendo protegidas em demasia, o filme se torna necessário. Sim, necessário para reflexão de pais educadores e filhos contemporâneos, tão íntimos dos avanços tecnológicos e ao mesmo tempo, tão distantes das necessidades reais. A trama acompanha a saga de dois irmãos diante dos horrores do Holocausto e da segunda Guerra mundial.  Eles pertencem a uma família feliz, unida, amorosa e judia.  Maurice e Joseph descobrem da pior forma possível como a intolerância pode se tornar uma epidemia. Seus colegas de escola, “contaminados” pelo pensamento nazista anti-semita, passam a hostilizá-los da noite para o dia, apenas por ostentarem a identificação judaica. Eles deixam de ser reconhecidos como pessoas, passam a ostentar um rótulo, que os classifica como algo a ser eliminado. Na mesma velocidade da ocupação nazista, a trajetória de vida deles é radicalmente transformada, o mundo exige novas estratégias. A estrutura familiar fica evidenciada na emergência da situação, quando o pai impõe o limite necessário, mesmo que seja preciso separar, agredir, desconstruir ensinamentos, até mesmo sobre a própria identidade. Eles precisam aprender a mentir para sobreviver. Os meninos aprendem com a experiência, sem o suporte físico dos pais, mas apoiados na estrutura fornecida por aquela família amorosa. É um filme lindo, emocionante, delicado. A urgência, de cada dura experiência, prepara-os para o momento seguinte, tornando-os mais fortes. Não é nada fácil, o que fica evidente na fragilidade das crianças, que podem chorar, chamar pela mãe, quase desistir, entretanto, contam com a sorte em momentos de desesperança. A intolerância e violência retratadas na trama são contrastadas com a reação humanitária de Joseph, diante da reação vingativa dos franceses no fim da guerra. Ele mente, ele surpreende, ele aprendeu com a própria dor a não desejar o mesmo para o outro. Ele aprendeu que a diferença não é justificativa para a violência e que todos são iguais, independente da raça, cor ou crença. Ele nos alerta sobre a necessidade de respeitarmos as diferenças, aceitando múltiplas singularidades do ser. As crianças experimentam situações dolorosas, que os ensinam sobre si mesmos, descortinando o próprio potencial.  
Trata-se de um registro histórico, que ultrapassa universo familiar, pois retrata as angústias de diversas famílias em situações semelhantes. O filme se revela atemporal, quando mostra o sofrimento desmedido ocasionado pela propagação de um pensamento equivocado, intolerante, preconceituoso. A diferença era e continua sendo vista como algo a ser combatido, rechaçado, excluído.  A história pouco ensinou aos seres humanos, pois conforme registrado no filme em relação aos judeus, nós continuamos a buscar em qualquer diferença motivos suficientes para propagação da intolerância e discriminação. Os alvos podem ser por diferença de cor, de pensamento, de gênero, de crença, de classe social e até de saúde mental. A mesma diferença que pode ensinar, ampliando nossa visão de mundo, continua a ser discriminada, “rotulada”, hostilizada. Por outro lado, acompanhar o processo de sofrimento e aprendizagem das crianças nos remete aos valores das gerações contemporâneas, que estão perdendo, não só valores, mas também o contato com as próprias sensações e necessidades. Diante de tanta proteção, seja dos familiares ou das facilidades tecnológicas, como elas poderão aprender sobre si mesmas, sobre a própria capacidade de lidar com os desafios da vida? Aliás, quais têm sido os desafios propostos? Como é que a criança poderá aprender a lidar com os obstáculos da vida e descobrir sobre sua capacidade, se os pais continuarem a proteger, favorecer, solucionar? Como aprender que são capazes de se frustrar, de perder, de errar, e, ainda assim, buscar novas conquistas? Quantos hábitos desnecessários estão se transformando em ‘pseudo necessidades’? Como os pais e educadores podem orientar, estimular e até proteger sem  que a criança se torne insegura, dependente, doente? É preciso que a proteção seja  suporte suficiente para que as crianças façam as próprias conquistas, para que descubram seus limites e potencialidades. É preciso que o “ser” seja mais importante do que o ter, e que aprendam que para ter, precisam buscar, os valores estão diretamente ligados ao processo da conquista. Quanto mais fácil for ganhar, menor será seu valor. Não é preciso tantos desafios como os enfrentados pelos protagonistas da trama, mas é necessário que tal extremo nos ensine algo. Precisamos refletir sobre as diferenças, aceitando-as como possibilidades, orientando nossas crianças para o aprendizado e respeito, sem perder de vista o estímulo a sua autonomia e singularidade. 

Atypical



ASSUNTO

Relações familiares, afetivas, terapêutica e social, Autismo, Asperger. 

SINOPSE

Sam ( Keir Gilchrist) é um jovem autista de 18 anos que está em busca de sua própria independência. Nesta jornada, repleta de desafios, mas que rende algumas risadas, ele e sua família aprendem a lidar com  é tão óbvio assim.



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O OLHAR DA PSICOLOGIA

Arypical (atípico) é a nova série da Netflix, que traz algumas singularidades do Espectro Autista para o centro do debate, muito mais para familiarizar o público, do que para rotular diferenças. Sam é atípico, não funciona como a maioria, foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na forma branda, o que antes era diagnosticado como Síndrome de Asperger. Difere do autismo clássico, não só pelos sintomas mais leves, mas principalmente por sua capacidade cognitiva, muitas vezes com a inteligência acima da média.  Sua forma de perceber o mundo é apresentada, favorecendo ao espectador compreender melhor o universo autista. Sim, Sam tem uma família comum, que aos poucos conhecemos em sua rotina imperfeita. Todos os personagens são humanos, repletos de conflitos e imperfeições, o que torna a série crível e simpática. A irmã de Sam é sua parceira, sua protetora e amiga. Ela também é atleta e leva muito a sério seu treino diário. Sam freqüenta a psicoterapia, vai à mesma escola da irmã e trabalha numa loja de eletro-eletrônicos. Seu pai trabalha fora e sua mãe abriu mão da carreira para dar suporte às necessidades do filho.  Somos convidados a conhecer o universo de Sam pela ótica autista, uma forma singular de perceber o mundo. Aos poucos, conhecemos a difícil realidade, não só dos familiares, mas da sociedade em geral, no trato com o TEA. A falta de compreensão ou informação sobre a condição autista e suas particularidades pode dificultar as relações, não só da sociedade com o portador, mas também do autista consigo mesmo e com o mundo. Ele se esforça para ser aceito pela sociedade, apesar de não perceber o entorno da mesma forma. Muitas vezes, o TEA desenvolve crises de depressão ou ansiedade, muito antes de compreender a si mesmo e as diferentes formas de perceber o mundo. O diagnóstico e a informação sobre suas particularidades podem favorecer uma vida mais saudável, integrando sua identidade. A série presta um serviço social ao apresentar sintomas e dificuldades reais vivenciadas por Sam e seus familiares. Quase didática, a série costura as relações afetivas e sociais de forma leve, agradável e até engraçada. A primeira temporada deixa o gosto de “quero mais” no espectador, pois além de promover esclarecimentos sobre o TEA, traz conflitos e conquistas de outros personagens bem reais, humanos e imperfeitos como todos nós. Vale conferir.


A partir do último Manual de Saúde Mental – DSM-5, que é um guia de classificação diagnóstica, o Autismo e todos os distúrbios, incluindo o transtorno autista, transtorno desintegrativo da infância, transtorno generalizado do desenvolvimento não-especificado (PDD-NOS) e Síndrome de Asperger, fundiram-se em um único diagnóstico, O Transtorno do Espectro Autista (TEA). Trata-se de uma condição geral para um grupo de desordens complexas do desenvolvimento do cérebro, antes, durante ou logo após o nascimento. Esses distúrbios se caracterizam pela dificuldade na comunicação social e comportamentos repetitivos. Embora todas as pessoas diferentes. Assim, essas diferenças podem existir desde o nascimento e serem óbvias para todos; ou podem ser mais sutis e tornarem-se mais visíveis ao longo do desenvolvimento

Resenha: Tomboy - A identidade de gênero no Cinema


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ASSUNTO
Relações afetivas, familiares e sociais, identidade de gênero, fenomenologia.
SINOPSE
“Tomboy” é a denominação dada para meninas que gostam de agir como meninos. Laure (Zoé Héran) é uma garota de 10 anos, que vive com os pais e a irmã caçula, Jeanne (Malonn Lévana). A família se mudou há pouco tempo e, com isso, não conhece os vizinhos. Um dia Laure resolve ir na rua e conhece Lisa (Jeanne Disson), que a confunde com um menino. Laure, que usa cabelo curto e gosta de vestir roupas masculinas, aceita a confusão e lhe diz que seu nome é Mickaël. A partir de então ela leva uma vida dupla, já que seus pais não sabem de sua falsa identidade. Não demora até que Lisa caia em amores por “Mikael”, mas as férias estão para acabar e Laure não sabe como fará para manter seu segredo.
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O OLHAR DA PSICOLOGIA

Não são as respostas, mas as perguntas que movem o mundo, diz uma vinheta da TV Futura. Tomboy segue tal premissa, não há julgamento, definição ou qualquer resposta. O filme é provocador, sensível e ao mesmo tempo natural. A pureza das crianças desafiam nossas mais sérias teorias. A construção da identidade de gênero é o foco da trama, entretanto, de que gênero nós falamos? Algumas críticas ousaram explicitar seu tema como homossexualidade, será? Tenho minhas reservas quanto a qualquer definição, isto me soa como interpretar olhares, silêncios, angústias latentes. O que afinal define sexualidade ou identidade de gênero? É preciso esclarecer. Identidade de gênero se refere ao gênero em que a pessoa se identifica, masculino ou feminino. A identidade sexual difere da identidade de gênero no sentido em que a identidade de gênero está mais correlacionada com a maneira de se vestir e de se apresentar na sociedade, enquanto a identidade sexual correlaciona-se mais diretamente com o papel de gênero sexual. Algumas vezes considera-se que um transexual do biotipo masculino, cuja orientação sexual é somente por homens e que se relacione sexualmente apenas no papel feminino, possa ser considerado heterossexual. Nos casos mais comuns, homens e mulheres identificam-se no biotipo sexual natural, sem manifestar desejos pela transgenereidade. Algumas pessoas sentem que sua identidade de gênero não corresponde com seu sexo biológico, sendo identificadas por pessoas transexuais ou pessoas intersexo em algumas situações. Como a sociedade insiste que os indivíduos devem seguir a maneira de expressão social (papel social de gênero) baseada no sexo estas pessoas sofrem uma pressão social adicional. No filme, não existe possibilidade de falarmos em orientação do desejo sexual, pois não há corpos adultos para definir tal orientação.

A trama nos apresenta crianças que estão em processo de construção de suas identidades, nada está definido. Diálogos verbais e não verbais preenchem a película, convidando o expectador a viver a experiência com as crianças. Não creio ser a homossexualidade o tema do filme. Mesmo porque, diversos autores deixam claro que tal definição só pode ser realizada após a adolescência, quando o corpo adquire maturação suficiente para experimentar e decidir, de acordo com a orientação do desejo. Há autores que apontam que qualquer experiência sexual até a adolescência, mesmo que ocorra com o mesmo sexo, não define a homossexualidade. Pode ocorrer apenas como forma ajudar a escolha sexual. Há estudos que comprovam que a transexualidade é sentir-se inadequado ao corpo em que vive. Ainda que o filme possa sugerir tal caminho, prefiro me unir ao comportamento de sua irmã caçula e deixar acontecer. Se este lugar de menino faz Laure feliz, por que não? A mãe não se importa com a forma de dela ser, mas precisa esclarecer seu lugar no mundo, sem fantasias. A mãe não quer dar lição de moral na filha, apenas oferece a oportunidade dela enfrentar o mundo sem fugir da realidade. É visível o desconforto da menina dentro daquele vestido. Diante da impossibilidade de permanecer na mentira, ela deixa de ser Mikael, mas não abandona sua forma de vestir ao se apresentar como Laure. É com seu jeito moleque de ser que encara a realidade, retomando o contato com a menina que tanto a tinha encantado. É um filme delicado e provocante. Mostrando-se natural e sensível, a trama nos convida a participar de cada cena, tornamo-nos parte do fenômeno. Não há como julgar, somos convidados a vivenciar junto aos personagens as suas experiências. O encontro de nosso mundo pessoal com a proposta da trama irá direcionar nossas reflexões. Será mesmo necessário definir, rotular ou nomear algo? Acredito que o segredo do filme é exatamente o contrário, não há definição ou teoria que possa dar conta de tamanha experiência. Se for possível suspender nossos conceitos e concepções de mundo, a trama poderá nos envolver e nós poderemos absorver algo novo ao nosso repertório de vida. Como disse Gonzaguinha “Eu fico com a pureza das respostas das criançasÉ a vida, é bonita e é bonita. Viver e não tenha a vergonha de ser feliz”. Imperdível, recomendo.
Será que nascemos com a definição sexual definida ou escolhemos no decorrer da vida? A jovem cineasta francesa Céline Sciamma, abre essa discussão com o corajoso e delicado filme Tomboy. 
Em tempos em que a homofobia é tema de debates em diversas esferas, o filme Tomboy ganha importância ao mostrar como nascem o preconceito e a intolerância. E o faz sem a necessidade de levantar bandeiras ou aplicar um discurso panfletário.
Na proposta da diretora, Jeanne é o olhar puro e livre de preconceitos das crianças, antes de ser contaminado por quaisquer padrões ou regras de comportamento ditas normais. Para ela, o que importa é a pessoa com quem ela vive e brinca, e não a maneira como esta escolhe viver. 
Adaptar e ser. E o abismo entre os dois verbos. Tomboy em sua superfície pode ser um conto sobre a estranheza de ir contra sua natureza, porém, a diretora Céline Sciamma profetiza os demônios da vida adulta para Laure (a incrível estreante Zoé Héran) presa a inocência da infância e que se opõe a submissão dos padrões. Para ela, a existência está na pele Mikael, um menino que acabara de se mudar e que arrumou novos amigos.
São pequenas tensões, que atravessam toda a narrativa, nos levando a refletir sobre a  complexidade do processo de construção da identidade, que vai muito além da sexualidade e está ancorada na percepção de si mesmo e dos outros, entre outras coisas. Interessante notar que o drama gira em torno das crianças, com os adultos representando papéis quase secundários, ainda que no final sejam eles que engendrem uma “solução” para o problema.

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Tomboy é uma palavra inglesa usada para designar uma menina que tem comportamento masculinizado. E é assim que se apresenta a protagonista do drama com esse título, escrito e dirigido por Céline Sciamma, que discute a construção da identidade a partir dessa troca de papéis.


Tempo de descobertas


A pré-adolescente Laure (Zoé Héran) se muda com sua família para um condomínio na periferia de Paris. Ainda pouco ambientada, a menina precisa fazer novos amigos, e a primeira criança que conhece é Lisa (Jeanne Disson), uma menina de sua idade que lhe pergunta seu nome. Laure responde sem hesitar: Michaël. A surpreendente resposta faz com que a partir desse momento Laure passe a se mostrar e ser vista como menino.

Inicialmente tímida, Laure vai pouco a pouco estabelecendo relações com a meninada da vizinhança. Magra e com cabelos curtos, se insere no grupo de crianças sem despertar suspeitas, até ter seu segredo casualmente descoberto por sua irmã menor Jaqueline (a encantadoraMalonn Lévana), de apenas 5 anos, prenunciando os conflitos que irão acontecer.


Despertar é difícil



roteiro de Sciamma é simples, direto e despretensioso. Não tenta teorizar a respeito da questão e ainda tem a virtude de colocar o espectador sempre numa posição privilegiada; ora fora da trama, como um observador, ora na pele da própria menina, podendo assim descobrir juntamente com ela o que é ser menino. E detalhes como tirar ou não a camisa num jogo de futebol, que os moleques fazem instintivamente, se torna uma coisa complicada para Laure. O que dizer então de tomar banho numa lagoa ou despertar interesse romântico no “sexo oposto”? Como frequentar a escola?

São pequenas tensões, que atravessam toda a narrativa, nos levando a refletir sobre a  complexidade do processo de construção da identidade, que vai muito além da sexualidade e está ancorada na percepção de si mesmo e dos outros, entre outras coisas. Interessante notar que o drama gira em torno das crianças, com os adultos representando papéis quase secundários, ainda que no final sejam eles que engendrem uma “solução” para o problema.

O elenco infantil formado por crianças de cinco a doze, treze anos dá conta do recado de maneira exemplar em sua espontaneidade. E é o “ator” mais jovem de todos, o irmãozinho recém-nascido de Laure, que traz uma pista para se começar a entender o drama, quando sua mãe diz: “Despertar, às vezes, é difícil.”

Por: Gilson Carvalho
Nota: 8

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Ficha técnica

terça-feira, 10 de maio de 2016

O Espírito da Colméia – 1973 (Resenha)

Filme dirigido por Victor EriceO espírito da Colmeia (El Espiritu de la Colmena) se passa em meados da década de 1940 em um povoado no interior da Espanha. Apesar de não ser um filme político de forma explícita, o longa faz referência às condições em que se encontrava a Espanha após a Guerra Civil que ocorreu entre 1936 e 1939, e a consolidação do governo do ditador Francismo Franco, que durou mais de 40 anos.
El espiritu de la colmena
É nesse cenário desolador que vivem as pequenas irmãs Ana (Ana Torrent) e Isabel (Isabel Telleria). Após assistir ao clássico filme Frankestein (1931), de James Whale, a pequena Ana se depara com temas que aguçam sua curiosidade: afinal, o que é real? O que é a morte? O que existe para além do que pode ser visto?
Ana fica curiosa com o fato de Frankenstein ter matado a garotinha do filme e de ter sido morto em seguida, e indaga sua irmã mais velha sobre isso. Isabel diz a Ana que tudo nos filmes são truques, que Frankenstein existe, que se poderia falar com ele, e incentiva Ana a procurá-lo. Ana passa então a acreditar que pode encontrar Frankeinstein em forma de espírito e Isabel vê nisso uma possibilidade de brincar com a inocência da irmã. Na busca pelo monstro, Ana vivencia tudo de forma muito singela e encara cada pequena descoberta como uma grande lição, e é nesta busca pelo pelo personagem do filme de Whale que a trama de O Espírito da Colmeia se desenrola.
A narrativa poética de Victor Erice é transmitida através do olhar melancólico de Ana. É do ponto de vista dessa garotinha na busca por desvendar o desconhecido que a história é construída. Este é um filme onírico, atmosférico, minimalista e alegórico, composto por belas imagens em tom de mel, acerca das formas como observamos e reagimos ao mundo, acerca da infância, da solidão, do medo. A colmeia é a casa de Ana e também toda a Espanha, com sua disciplina e hierarquia, com muito a se enfrentar e a se descobrir.
As meninas vivem com o pai, Fernando (Fernando Fernán Gómez), um apicultor e escritor, e com a mãe, Teresa (Teresa Gimpera), uma mulher que ainda sofre por um amor perdido para a guerra. A casa da família é grande e mal conservada, tudo remete à distância e solidão. A família nunca aparece junta, mesmo nas cenas das refeições em que todos estão à mesa, cada um é focado individualmente, não há planos gerais, tudo para reforçar a distância emocional entre eles.
No filme de Erice tudo é misterioso, já que é filtrado por um olhar infantil. A narrativa possui um tom sobrenatural, e realidade e fantasia se misturam, pois tudo é retratado da forma como Ana percebe as coisas, como na cena em que Ana encontra um soldado escondido na fazenda, um soldado republicano que está fugindo dos franquistas. Ana lhe leva alimento. Mas não sabemos exatamente que tipo de relação se estabelece entre eles.
O Espírito da Colmeia não traz em seu roteiro grandes acontecimentos, o ritmo é lento e não há muitos diálogos. O ponto forte da obra é sua base poética, seu simbolismo, a fotografia primorosa de Luis Cuadrado, e os melancólicos olhos negros de Ana Torrent, que representam maravilhosamente a curiosidade, o medo e a solidão da infância vivida naquele contexto.
As condições de vida no interior da Espanha daquela época é muito bem representada, assim com a vida vazia que os pais de Ana possuem. Há muitas alegorias no filme, como os vidros da janela da casa da família, que são emoldurados como os alvéolos de uma colmeia; e também o boneco Don josé, usado pela professora de Ana para ensinar anatomia para as crianças. Don José é montado órgão por órgão, assim como Frankeistein foi montado “pedaço por pedaço”. E quem termina de montar o boneco lhe colocando os olhos é, claro, Ana.
O Espírito da Colmeia é uma jornada de descobrimento e aceitação do mistério. Ana enfrentou seus medos e descobriu o quão fascinante o mundo pode ser. Ana enfrentou Frankenstein.  A Espanha enfrentava o Franquismo. Ambas saíram receosas, mas cheias de esperança.
8.6MUITO BOM
Belíssimo filme sobre a inocência da infância e descoberta do mundo. Com uma fotografia deslumbrante e críticas sutis ao governo ditatorial que vigorava na Espanha, O Espírito da Colmeia mostra a jornada de uma criança que perdeu o medo de enfrentar seus monstros.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Educação (An Education)

por 


“Educação” nasceu para chamar atenção. Há muito tempo não temos um exemplar tão criativo e revigorante como o filme em questão.  Abordando de forma inteligente os anseios de uma garota dividida entre uma boa faculdade e o amor proibido, o filme mexe com nossas convenções, oferecendo diversos ângulos para uma mesma realidade.

A história começa nos apresentando Jenny, uma bela inglesinha que se dá muito bem na escola, muito bem mesmo. Conduzida pelos seus pais a um comportamento disciplinado e correto, a garota tem como objetivo único ingressar na renomada universidade Oxford. Claramente que algo, ou melhor, alguém, entrará em seu caminho fazendo com que a jovem questione suas escolhas para o futuro. Esse alguém é o sedutor David, homem mais velho, que se mostra um perfeito cavalheiro e que, aparentemente, tem intenções honestas e honradas.

Primeiramente os pais de Jenny se sentem incomodados com este possível envolvimento da filha, mas diante do pretendente os dois se rendem mediante aos argumentos quase sempre irrefutáveis do homem. A relação entre o casal se desenvolve, mas David possui algumas surpresas que podem colocar em cheque esta relação.


Dirigido de forma impecável pela diretora dinamarquesa Lone Scherfig, “Educação” é um grande candidato a clássico instantâneo. Já nos inspirados créditos inicias percebemos que a experiência será proveitosa, tudo isso aliado a uma trilha sonora excelente (nada melhor do que um rock n’roll sessentista, não é?). Muito bem escrito, o texto mexe com temas complicados. Explorando de forma impiedosa todas as falhas dos padrões ingleses de comportamento de outrora, o filme sempre se posiciona em um local a prova de balas, onde o correto e o errado andam de mãos dadas, em uma linha tênue, que pende junto com o pensamento do público. Como um soco no estomago, as reviravoltas conseguem surpreender de forma excepcional, nos colocando por diversas vezes na lona. Nossa torcida por algo que parecia muito provável, se torna banal mediante ao balde de água fria chamado realidade.

Flertando com o conhecido fetichismo por garotas jovens, o filme é de um contra ponto brilhante, pois age como um “Lolita” moderno que ambienta no passado o tema. Enquanto o “Lolita” original (do mestre Kubrick) é marcado pela sensualidade exagerada de uma jovem garota em uma época onde o público tradicionalista ainda dava passos largos, “Educação” faz seu jogo trazendo este tema as avessas, tanto cinematograficamente como culturalmente, pois nos dias de hoje, tais convenções que visam a honra de uma filha já foram esquecidas há tempos e são até incompreensíveis para muitos jovens. O filme trabalha então como um revitalizador dos bons costumes, sejam eles para o bem ou para mal, certos ou errados.


Carey Mulligan, que interpreta Jenny, está excepcional no papel principal. Muito inteligente e antenada no mundo artístico, a personagem se vê fascinada por um homem culto e cativante. Sua rebeldia, por assim dizer, parece totalmente acertada mediante as expressões tristes e vazias, com ares de inveja, das mulheres que a desaprovam. Toda cultura e felicidade que ela tem acesso ao lado de seu prometido se mostra justa. Mulligan, que tem vinte e cinco anos, interpreta a adolescente de forma grandiosa, e assim como a obra está entre os dez indicados para melhor filme, a jovem atriz está entre as cinco escolhidas para concorrer a estatueta de melhor atriz, disputando diretamente com nomes de peso como Meryl Streep e Sandra Bullock. Uma vitória improvável, mas uma indicação merecida.

Como o carismático David temos o excelente Peter Sarsgaard, que tem bons filmes em seu currículo e alguns nem tanto. O ator está excelente como este facetado personagem que a todo momento instiga a desconfiança de quem o vê. Aparentemente um homem bom e articulado, David parece não compreender o tamanho da situação em que está se envolvendo.

Vivendo os amigos boêmios de David estão: Dominic Cooper, como o bon vivant Danny, e Rosamund Pike como a sonsa Helen. Cooper, que fez o musical “Mamma Mia”, perde o tom em alguns momentos, mas não chega a comprometer nenhuma cena. Já a linda atriz Pike se sai muito bem com sua personagem inusitada que é dona de um intelecto duvidoso e parece constantemente anestesiada pela vida fácil e banal que leva.


Alfred Molina entrega uma interpretação incrível do inusitado pai Jack. Típico britânico muquirana, Jack transpira medo. Preso de forma absurda as convenções e padrões rígidos da época, o homem tem um bom coração, mas não sabe lidar direito com as emoções, por isso fala pelos cotovelos como se fosse um maluco. Cara Seymor também alcança a cumplicidade exata para a mãe Marjorie. Mulher de olhar triste, ela vê nas realizações da filha uma vida plausível longe de toda a regularidade britânica de um casamento. Fechando com chave de ouro temos Emma Thompson como diretora da escola de Jenny e Olivia Williams que faz a correta e compreensiva professora Miss Stubbs.

“Educação”  é um filme incrível, que explora os erros e acertos das opções tomados pela jovem Jenny. A obra não escolhe lados e demonstra que, seja como for, os caminhos que tomamos sempre encontrarão dificuldades que pareceram maiores do que nós. O importante é fazer aquilo que é certo no determinado momento, mesmo que no final tudo de errado. É preciso se machucar para conhecer a dor, é um processo natural da vida.



Educação/ An Education: Inglaterra, Estados Unidos/ 2009/ 100 min/ Direção: Lone Scherfig/ Elenco: Carey Mulligan, Olivia Williams, Alfred Molina, Cara Seymour, Peter Sarsgaard, Amanda Fairbank-Hynes, Dominic Cooper, Rosamund Pike

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Resenha Crítica | Labirinto de Mentiras (2014)

Labyrinth of Lies (Im Labyrinth des Schweigens)


Im Labyrinth des Schweigens, de Giulio Ricciarelli
.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.
Devastada após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha ainda era envolta a uma expectativa de reparação pelos danos causados pelo seu líder político. Aos civis alemães desvinculados dos conflitos, restaram as ruínas e a vergonha. No desejo de reconstrução, vem timidamente alguns agentes conscientes do papel social em punir os aliados que promoveram um dos episódios mais brutais da história.
Com um currículo preenchido com dezenas de créditos como ator secundário em produções sem grande expressão, o italiano Giulio Ricciarelli faz o seu debut na direção de longa-metragem em uma produção integralmente alemã que mais parece um documento de correção histórica. O galã Alexander Fehling (que esteve em “Bastardos Inglórios”) surge como Johann Radmann, jovem promotor que usa a sua presunção em favor de uma luta contra todos os nazistas que vivem na surdina após os 15 anos do fim da Segunda Guerra.
A investigação é motivada a partir do ponto em que o jornalista Thomas Gnielka (André Szymanski) desmascara um professor que outrora atuava em um campo de concentração. Claro que é só o início de um processo de revelar lobos em peles de cordeiros e Johann não resistirá somente às pressões de gabinetes cheios de documentos que o auxiliarão na busca de velhos criminosos, como também por um círculo de desafetos que querem enterrar o passado sem que isso interfira em suas ideologias monstruosas.
Ainda que “Labirinto de Mentiras” disponha de um material que pode ser narrado confortavelmente em uma duração de duas horas, o trabalho da montadora Andrea Mertens ganha um realce especial quanto ao ritmo quase frenético que confere no curso do drama. Aproxima-se assim de “O Jogo da Imitação”, no sentido de como processa grandes momentos dramáticos.
Depoimentos de vítimas são intercalados com recortes da busca frenética de Johann pelos respectivos algozes. Há até mesmo algumas soluções que explicitam o lado saudavelmente cafajeste do protagonista, como as primeiras investidas românticas na costureira Marlene (Friederike Becht) ou na abordagem cômica de homens que terão de responder pelos seus atos passados. Um esforço extremamente acadêmico, promovendo por meio da arte o desespero de uma nação em se redimir da mancha que ainda carrega.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Resenha Crítica | Homesick (2015)

Homesick (De nærmeste)

De nærmeste, de Anne Sewitsky
.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.
Tema tabu, o cinema segue tratando o incesto com uma série de reservas, geralmente associando-o em uma resolução que justifica o comportamento desequilibrado de um personagem de má índole. O que mais incomoda, no entanto, é construir relações que buscam atenuar o peso de uma polêmica. O brasileiro “Do Começo ao Fim”, por exemplo, havia construído um relato de amor entre dois irmãos concebidos pela mesma mãe, mas em relação com homens diferentes.
Algo parecido acontece no norueguês “Homesick”, novo longa-metragem de Anne Sewitsky, conhecida no Brasil por “Happy Happy”. Charlotte (Ine Marie Wilmann) é uma professora de balé de 27 anos em um período de estados de espírito destoantes e extremos. No primeiro instante, a flagramos celebrando o casamento da melhor amiga Marte (Silje Storstein). Um pouco adiante, a vemos em conflito com a mãe (Anneke Von Der Lippe) e em contato com o pai, que definha em uma ala hospitalar.
Para tumultuar ainda mais as coisas, Henrik (Simon J. Berger) entra em sua vida, havendo entre eles uma sintonia imediata. A questão é que Henrik, que encontra residência em Oslo, não é somente um marido e um pai, como também o meio-irmão de Charlotte. Se já não bastasse a dificuldade da situação, Charlotte continua em um relacionamento sério com o irmão de Marte, interpretado por Oddgeir Thune.
Autora do roteiro em parceria com Ragnhild Tronvoll, Anne Sewitsky encara Henrik não como alguém com o mesmo sangue que Charlotte e sim como um “estrangeiro”, um sujeito que brota em sua vida sem aviso prévio. É como se “Homesick” desejasse que o incesto fosse encarado não como o tema central, mas como um elemento adicional em seu drama. O fato é que absolutamente nenhum conflito chega a ressoar, a trazer alguma relevância que nos arrebate, restando somente a atriz Ine Marie Wilmann algum crédito pelo esforço em conferir alguma empatia para um filme cercado de desdobramentos e personagens intragáveis.