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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Julieta, de Pedro Almodóvar

Pedro Almodóvar parecia em apuros com o público e a crítica nos últimos anos. Se “Abraços Partidos” e “A Pele que Habito” não foram recebidos por uma unanimidade outrora habituais em sua obra, a reputação obtida por “Os Amantes Passageiros” foi ainda pior, fazendo com que todos encarassem um projeto assumidamente descompromissado como o limite criativo de um artista.
Julieta
Por tudo isso, a expectativa por trás de “Julieta” era imensa. Afinal, estamos de volta aquele Almodóvar de sensibilidade feminina que o mundo aprendeu a apreciar desde “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, onde as complexidades do gênero geralmente norteiam a sua narrativa. É exatamente o que se sucede a partir da personagem-título de seu novo filme.
Julieta Arcos (Emma Suárez, em interpretação estupenda)  é uma mulher de meia-idade com uma vida confortável em um aconchegante apartamento em Madri, dividido com o namorado Lorenzo (Darío Grandinetti). Os planos de mudança permanente para Portugal são frustrados pela própria Julieta, que desfaz o relacionamento sem prestar qualquer justificativa.
A motivação parece partir de um breve reencontro com Beatriz (Michelle Jenner), ex-melhor amiga de sua filha, Antia. Sem antecipar as razões para o abalo emocional advindo da breve interação, Julieta passa a rememorar o seu próprio passado em diários, fazendo a trama retroceder em um episódio de sua juventude marcado tanto por uma tragédia quanto pelo primeiro contato com Xoan Feijóo (Daniel Grao), que viria a se tornar o seu marido. Também excelente, Adriana Ugarte interpreta Julia em sua juventude.
“Julieta” é inspirado em três contos da autoria da canadense Alice Munro, com ênfase em “Silêncio”, como o filme foi batizado anteriormente até apresentar atritos com a nova realização de Martin Scorsese, “Silence”. Citar a fonte de origem é indispensável, pois é nela que está a razão de Pedro Almodóvar nos decepcionar tanto mais uma vez.
Quem viu “Longe Dela” e “Amores Inversos”, denotou um tom de crônica característico da obra literária de Munro, no qual os eventos dramáticos de um cotidiano não são submetidos a qualquer artificialismo para serem dignos da observação e, consequentemente, da reflexão. Nas mãos de Almodóvar, o que era para ser um registro sereno sobre uma personagem ressentida se transforma em matéria-prima para um suspense maternal equivocado.
Quanto maior o acorde do compositor Alberto Iglesias, menor é a paciência para aguardar que todas as peças se encaixem, com Almodóvar recorrendo a subterfúgios pouco sofisticados (as confissões para justificar os flashbacks, certo misticismo para nublar o curso da trama) até deixar clara a história que realmente está contando. Não era preciso e o gosto amargo deixado pela conclusão é uma evidência dessas escolhas mal traçadas.

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