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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Sim, Lolita é um livro sobre abuso.


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Trigger Warning: Este artigo fala sobre abuso sexual e psicológico.
Li Lolita aos 15 anos e não me recordo se cheguei ou não a terminar a leitura. Foi um livro que comprei numa banca de jornal porque sabia ser um clássico da literatura. Naquela época eu não fazia ideia que o que diziam ser uma das maiores histórias de amor do século era, na verdade, uma história sobre abuso infantil. Aos 27 anos decidi reler Lolita e meu choque foi tão grande que não pude deixar de dissecar essa história tão bem escrita e tão mal interpretada.
Lolita é narrado por um pedófilo assumido. 
A narrativa do livro mostra a genialidade de Nabokov ao nos tornar cúmplices de um pedófilo e assassino, enquanto o mesmo apresenta sua defesa ao júri. O desprezo que sentimos pelo protagonista é tão grande e o livro tão bem escrito, que nos sentimos impelidos a continuar a leitura para saber qual será o fim desta pessoa que está nos revelando seus atos mais repugnantes.
Humbert Humbert começa justificando seu desejo por crianças com a morte de seu primeiro amor: Anabela, de 12 anos.
“[…] Aquela rapariguinha de membros tisnados pela praia e língua ardente nunca mais deixou de me perseguir- até que, vinte e quatro anos depois, quebrei o seu encanto ao encarná-la em outra”.
Além de pedófilo, Humbert também é patologicamente narcisista e misógino; Sua atração está limitada a meninas de 9 a 14 anos, pois como o mesmo diz, após os 15 já são consideradas jovens e não mais crianças e quando adultas são “vacas gordas”. As ninfetas que Humbert descreve (estas meninas de 9 a 14 anos) são apenas crianças que aos olhos do protagonista possuem dentro de si um demônio. Novamente Humbert quer deixar claro ao júri que a culpa por seu desejo não é dele e sim das ninfetas – suas vítimas. É preciso compreender que Lolita não foi sua primeira, apenas a última.
“Desejo, agora, apresentar a seguinte ideia. Entre um limite de idade que vai dos nove aos catorze anos, existem raparigas que, diante de certos viajantes enfeitiçados, revelam sua verdadeira natureza, que não é humana, mas “nínfica” (isto é, demoníaca), e a essas dadas criaturas proponho designar como nymphets. […] Somos cavalheiros infelizes, suaves, de olhar humilde, suficientemente integrados na sociedade para que controlemos nossos impulsos em presença de adultos, mas dispostos a dar anos e anos de vida em troca da oportunidade de acariciar uma nymphet.”
Vamos falar de Lolita. Dolores Haze tinha 12 anos quando conheceu Humbert Humbert. Ele era um inquilino na sua casa. Para uma menina de 12 anos apaixonada por revistas sobre estrelas de cinema, é normal que ela veja Humbert como uma figura atraente, um homem que se assemelha a um ator. Isso faz parte de sua ingenuidade infantil. Contudo, Lolita não faz ideia que todas as suas atitudes de criança são má interpretadas por Humbert – que acredita piamente que Lolita está tentando o seduzir.
No decorrer do livro, Humbert cria mil planos para ter um momento a sós com Lolita, apenas para que ele possa acariciar seu corpo. Seu plano vai além, quando o mesmo compra soníferos que testa constantemente na mãe de Lolita para ver se são fortes o suficiente para adormecer tanto a Sra Haze, quanto a filha. Ele devaneia constantemente sobre ter Lolita adormecida para que possa abusar dela.
Humbert chega a colocar o plano em prática, o que ele não esperava é que Lolita já não era mais virgem, pois tinha perdido a virgindade com um adolescente. Isso faz a culpa de Humbert diminuir e justifica seu abuso. Tudo era culpa de Lolita.
Ao saber da morte de sua mãe, Lolita percebe enfim ser vítima do abuso de Humbert, que constantemente tenta comprar Lolita com revistas, doces e o que mais fosse de seu agrado apenas para que eles pudessem manter relações. Neste momento, Humbert ouve Lolita chorar todas as noites antes de dormir. Ela é órfã e não tem mais ninguém a quem possa recorrer.
Humbert é tão desprezível que mesmo com Lolita doente, se preocupa mais em saciar suas vontades, ignorando a febre da menina. Com o passar do tempo, os dois criam uma relação que se assemelha à prostituição. Lolita precisa se vender para poder ter o que quer no decorrer da história e descobre o poder que tem sobre Humbert. Mesmo assim, Lolita tem medo de fugir porque seu padrasto diz que se ela fugir ela não vai ter mais todas aquelas roupas, revistas e guloseimas. H.H. fica cada vez mais preocupado com o que irá acontecer quando Lolita se tornar uma jovem e deixar de ser ninfeta. Ele chega até a cogitar engravida-la para que o bebê seja, em suas palavras, a Lolita número 2.
Quando Lolita consegue fugir, Humbert não está preocupado com ela e sim com o “monstro” que tirou Lolita dele. Isso não é amor. Entendam que Humbert nunca amou Lolita; Lolita era para ele uma posse. Uma ninfeta-brinquedo que ele podia usar sempre que quisesse. Lolita é a heroína da história por conseguir sair das garras de seu padrasto e construir uma vida para si. Uma vida que ela escolheu após anos de abuso sexual e psicológico.
Ao ler Lolita, preste atenção. Não está nas entrelinhas, está explícito. Romantizar Lolita é silenciar todas as crianças que estão sendo abusadas por padrastos, irmãos, primos e até pelos próprios pais.
fonte:
http://literatortura.com/2016/02/sim-lolita-e-um-livro-sobre-abuso/

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