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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Deus da Carnificina (Carnage)

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Como disse Sartre "o inferno são os outros". E em "Deus da Carnificina" o polêmico diretor Roman Polanski oferece a oportunidade de apreciarmos uma visão hilária deste inferno, uma tarde qualquer que se transforma na mais profunda, exaustiva e angustiante troca de ofensas entre seres humanos.

Logo nos créditos iniciais vemos um grupo de crianças em uma pequena discussão, quando uma delas acerta o rosto da outra com um pedaço de pau. Diante do acontecido, os pais destes dois garotos decidem resolver as coisas amigavelmente, se encontrando para discutir o assunto, seguindo uma conduta madura e civilizada.

Reproduzindo então uma espécie de versão estilizada de "O Anjo Exterminador" (de Luis Buñuel), a história faz do local de encontro uma prisão da qual ninguém consegue sair. Mas o motivo deste "impedimento", de deixar o ambiente, não é surreal, ele se deve ao acaso: um convite para o café na hora da despedida, o celular que não funciona no elevador, um importante argumento que merece maior atenção antes do adeus. Temos então o palco.


No início, todos adotam sua primeira face, aquela exibida diariamente e que pouco representa quem realmente são. 
Com o passar das horas, e com as ofensas deixando o nível indireto, eles começam a se atacar agressivamente, mas não em duplas fixas, mas sim alternando parcerias. Hora mulheres se revoltam com os homens, então os mesmos se unem e debocham delas, daí ficam todos contra todos. Porém, o clima fica realmente tenso quando os casais começam a expor seus problemas íntimos de forma confessional.


Com um texto imensamente criativo - baseado na peça teatral francesa "Le Dieu du Carnage", de Yasmina Reza (que assina o roteiro em parceria de Polanski) -, temos excelentes personagens, construídos com grande atenção aos detalhes. Os relacionamentos são esmiuçados de maneira auspiciosa, uma análise que explana aspirações artísticas, fobias de seres rastejantes, modelos de conduta, ativismos latentes, hipocrisias, qualidades, defeitos - até mesmo os apelidos afetuosos são jogados na mesa (uma das melhores piadas, aliás).

E fica exclusivamente nas mãos dos quatro atores guiar o filme, que não sai da sala de estar (eles no máximo vão até cozinha ou ao banheiro). Começamos por Jodie Foster, que interpreta Penelope Longstreet, a mártir do grupo. A ideia do encontro foi dela, pois sua crença na pacificação dos homens é forte, contanto que ela seja reconhecida como vítima da situação, fato que não afirma logo de cara. Seu marido Michael é interpretado por John C. Reilly, ótimo ator que encontra o tom exato para este fantoche ambulante, que apesar de suas frustrações escondidas se mostra o mais humilde e honesto de todos.

Christoph Waltz surge excepcional como Alan Cowan, um advogado do diabo (na verdade, da indústria farmacêutica, praticamente um sinônimo) que passa o tempo inteiro interrompendo discussões para falar ao celular. É o mais inteligente, articulado e inescrupuloso dos quatro. E fechando temos a bela e talentosa Kate Winslet com sua Nancy, uma mulher condescendente e inevitavelmente falsa. Apesar de tentar ser racional e parecer bondosa, seu caráter é revelado após alguns goles do mais puro malte. Na verdade, a bebida acaba sendo de fundamental importância para esse festival de inconveniências.


No final, "Deus da Carnificina" apresenta uma sinceridade assustadoramente hilária vinda dos casais, um show de banalidades entre estranhos. Eles perdem as estribeiras, suas veias saltam à testa, mágoas profundas são literalmente regurgitadas, ressentimentos, palavrões, tudo abastecido por um pouco de álcool e muita raiva reprimida.

Vale lembrar que esta mesma peça ganhou uma adaptação brasileira, dirigida por Emílio de Mello, com a participação de Deborah Evelyn, Julia Lemmertz, Orã Figueiredo e Paulo Betti.



Deus da Carnificina/ Carnage: França, Alemanha, Polônia, Espanha/ 2012/ 80 min/ Direção: Roman PolanskiElenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly, 

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