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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

“Escuridão Total Sem Estrelas”

Edilton Nunes

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Título Original: Full Dark, No Stars
Título Traduzido: Escuridão Total Sem Estrelas
Ano de Publicação: 2010
Ano de Publicação no Brasil: 2015
Personagens Principais: Darcy Anderson, Tessa Jean, Dave Streeter e Wilfred James
Adaptação: —
Disponível no Brasil pelas Editoras: Suma de Letras (2015)
Sinopse/Crítica
Há cinco anos atrás Stephen King lançava a premiada coletânea “Full Dark, No Stars”, agora a Suma de Letras, editora responsável pela publicação do material do autor no Brasil, lançou oficialmente o livro no país com o título “Escuridão Total Sem Estrelas”. Com uma capa simples, mas de apelo visual bastante interessante (além da capa, as bordas das páginas também são completamente pretas), o livro, assim como “As quatro estações”, trata-se de uma copilação de quatro pequenas novelas que focam na temática da vingança. Ainda que o aspecto “sobrenatural” apareça em algumas das histórias (seja de maneira sútil, como em “1922” ou de forma mais explícita como em “Extensão Justa”), o foco principal das histórias é o lado humano, o que nós, como seres racionais, somos capazes de fazer se levados a níveis extremos. Segue abaixo um breve resumo de cada uma das historias, ao lado de suas respectivas críticas.
1922: “1922” é uma história cruel. Essa foi a primeira impressão que tive quando acabei de ler a primeira novela de “Escuridão Total Sem Estrelas” (mal sabia eu que essa sensação me acompanharia pelas outras três que ainda estavam por vir). Na história, Wilfred James vive com seu filho e sua esposa, Arlette James, em uma fazenda em Hemingford Home, Nebrasca. Enquanto Wilfred é o típico fazendeiro esperançoso, que planeja prosperar com suas terras, sua esposa, Arlette, é o tipo de mulher sonhadora que não consegue imaginar seu futuro ao lado das vacas e demais animais da fazenda. Arlette é dona de 100 acres, ao lado dos 80 do marido e ela planeja vender a sua parte para uma companhia que planeja instalar ali uma de suas fábricas de produtos alimentícios. Wilfred se vê acoado pela esposa e acaba arquitetando um plano macabro que envolve mentiras e assassinato. Para isso, porém, ele precisará envenenar a mente de seu filho, de apenas 14 anos, para que possa ajudá-lo a levar a cabo seu plano macabro.
Do ponto de vista criativo, é uma das melhores histórias de King que já li. O conto é uma narrativa em primeira pessoa, numa espécie de “carta de confissão”, onde Wilfred admite sua culpa pelo crime e conta em detalhes a história. O modo como cometeu o assassinato de sua esposa, como escondeu seu corpo, e, entre outras coisas, a maneira como as coisas pareceram “desandar” depois da morte dela. Não entrarei em detalhes para não estragar as surpresas daqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ler, mas o que posso dizer, sem spoilers, é que ao ler esse conto tive a sensação de que os seres humanos muitas vezes conseguem ser mais cruéis do que os monstros que habitam a mente do Sr. King. Enxergar a história por essa perspectiva é um pouco complicado, intimidador e incomodo, porque é sempre difícil admitir que aquele seu vizinho, em um lapso de ira momentânea possa cometer algum ato de atrocidade que você nunca esperava. Wilfred não passava de um fazendeiro pacato, que ao ser defrontado com a possibilidade de perder suas terras para uma esposa gananciosa e igualmente egoísta, excedeu todos os limites aceitáveis para uma pessoa “normal” e não só matou, mas envenenou e destruiu três vidas inteiras (que você terá que ler a história, para saber de quem são rs), incluindo a sua própria. E o que muitos provavelmente considerariam como uma “maldição do fantasma de sua falecida esposa” eu consideraria como “justiça divina” em ação.
A Narração do conto, a confissão em primeira pessoa, colabora para que o leitor se sinta mais próximo do protagonista, e admito que isso também me perturbou um pouco. É como se sentir cúmplice, não só de um assassinato, mas de toda uma sequência de acontecimentos infelizes que, ironicamente, levariam o protagonista “para o fim do poço”, sem poder fazer nada. Creio que é essa sensação de inutilidade por parte do leitor/ouvinte que diferencia a história das outras (igualmente boas) do livro.
Gigante do Volante: No segundo conto da coletânea, Tessa Jean é uma escritora de suspense, além de oradora em alguns eventos. Ela é “convidada” por uma bibliotecária para fazer parte de um evento na cidade de Chicopee, Massachusetts. Ao voltar, seguindo uma rota alternativa ensinada pela bibliotecária, ela tem os pneus do carro furados por pregos grudados a pedaços velhos de madeira. Ela acaba conseguindo a ajuda de um estranho, um “gigante” que se prontifica a trocar o pneu do seu carro. A partir dai a história de vida da pobre Tess muda radicalmente.
É dificil falar sobre as historias dessa coletânea sem soltar um ou outro spoiler desavisado, mas “Gigante do Volante”, assim como boa parte (senão todos) dos contos dessa coletânea , é uma historia sobre vingança, e sobre a força que esse sentimento negativo consegue exercer sobre nós. Seres humanos aparentemente “normais”, quando confrontados com situações desafiadoras rompem suas limitações morais e acabam mostrando uma face que eles mesmos, provavelmente, não desconfiavam que tinham. Um lado negro que, por mais que tentemos ocultar, está lá, só esperando o momento certo para aparecer.
Apesar de, na minha opinião, ser um conto bastante interessante, dois pontos deixaram bem a desejar: Um deles é o final. Todo fã que se preze, sabe que o senhor King nunca foi muito bom com finais e o desse, apesar de provavelmente satisfazer aqueles com o desejo por justiça afiado, não me agradou. Mas isso é questão de gosto. Outra coisa que não gostei foi a maneira sobre como o tema principal (que não abordarei claramente aqui, para evitar spoilers, mas que pode ser percebido até mesmo numa rápida folheada no conto) foi abordado. Apesar de perceber claramente que o Sr. King tentou se desvencilhar dos estereótipos, creio que o tema foi apresentado de forma bastante simplista e superficial. Apesar dos pesares, foi, na minha opinião, o segundo melhor conto, ficando atrás apenas de “1922”.
Extensão Justa: Em “Extensão Justa” Dave Streeter é um homem que sofre de Câncer, e que em meio a um passeio matinal conhece um vendedor misterioso, que ao invés de vender casas, utensílios eletrodomésticos ou ingressos para ver o jogo de futebol do seu time preferido, comercializa o que ele gosta de chamar de “extensões”. Para os que precisam de dinheiro, ele vende prolongamentos de crédito, para os que tem pênis pequeno, ele vende um prolongamento físico, para os que tem pouco tempo de vida, como Streeter, ele vende um prolongamento especial de vida, que ele promete durar pelo menos 15 anos (talvez 20 ou 25, nas palavras do próprio homem misterioso). Porém, como na vida, esses prolongamentos também tem um preço, que Streeter irá pagar sem pestanejar.
A ideia principal de Extensão Justa é muitíssimo interessante. O modo como King conduz a narração também, intercalando momentos de vida do protagonista, com a história das demais personagens, que possuem suas relativas parcelas de importância no decorrer da narrativa. A leitura é leve e descompromissada, como em “1922”, porém, mais uma vez o que prejudica a historia é o seu final. A historia termina de uma hora para a outra, sem mais nem menos. Diferente das demais historias, tive a impressão de que Extensão Justa foi terminada muito “às pressas” e inserida na coletânea como um “tapa buracos” para aumentar a quantidade de páginas. Um conto que, se fosse um pouco mais elaborado, com certeza poderia ser melhor.
Um bom casamento: Darcy Anderson é uma dona de casa dedicada, com um casamento de sucesso que sustenta a longos 27 anos. Durante uma pequena excursão ao “santuário particular” do marido (a garagem de sua casa), ela acaba descobrindo algo perturbador, o conteúdo de uma caixa misteriosa que vai mudar a sua vida para sempre. Porém, isso é só o inicio de uma historia bem mais macabra e assustadora.
“Um bom casamento” é uma das historias que mais me fascinaram em “Escuridão Total…”. Resumindo em miúdos, King tenta mostrar nessa história (assim como em grande parte das outras três que compõem esse volume), que por mais que pensamos que conhecemos nossos entes queridos, a verdade é que ninguém é capaz de conhecer alguém por completo. No fundo todos guardamos pequenos segredos que se revelados talvez pusessem em cheque não só a nossa moral, mas o modo como a própria sociedade talvez lidasse com isso. Até que ponto a vingança reflete a justiça que a sociedade gostaria que acontecesse naturalmente? Pode o ser humano se vingar de uma injustiça se igualando àquele que a cometeu? “Escuridão Total…” não promete, nem sequer chega perto de responder tal questionamento, mas para os leitores mais atentos pode significar a ponta de um iceberg em um imenso oceano de probabilidades imaginativas.

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