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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Os Pássaros – 1963 (Resenha)

Alfred Hitchcock ainda colhia os frutos que plantara em sua última obra, Psicose (1960), quando realizou o filme mais enigmático e controverso de sua longa carreira cinematográfica. Os Pássaros, de 1963, permanece até então como um enigma. Amado e cultuado por muitos como uma obra de arte legítima ou como uma expressão do que há mais sutil no gênero terror. Mal compreendido e criticado por outros, que consideram o filme uma anomalia criativa do mestre do suspense, uma trama ridícula numa situação absurda. Apesar das divergências é unânime a opinião de que Os Pássaros é um clássico da cinematografia e um marco dos anos 1960.
Baseado em um conto de Daphne Du Maurier, com roteiro de Evan Hunter, o filme começa em um pet shop de San Francisco, aonde a senhorita Melanie Daniels (Tippi Hendren) vai à procura de um pássaro. Enquanto aguarda um telefonema da atendente é abordada por um homem que supostamente a confunde com a vendedora da loja. O freguês está à procura de um par de periquitos para presentear a sua irmã no aniversário de 11 anos. Melanie finge ser a atendente, mas acaba acarretando uma série de situações embaraçosas por na verdade não entender nada sobre aves.
O sujeito então se despede da senhorita Daniels chamando-a pelo nome. Isso intriga a moça, ainda mais pelo fato de ele afirmar já conhecê-la de um tribunal. O homem vai embora sem se apresentar e Melanie logo trata de investigar a identidade misteriosa do comprador de pássaros anotando a placa do seu carro e descobrindo seu endereço através de contatos na seção de notícias locais que pertence ao seu pai.
Melanie descobre a identidade do estranho. Chama-se Mitch Brenner (Rod Taylor) e é advogado. Na manhã seguinte, ela leva o par de periquitos para o seu endereço, mas é informada pelo vizinho de Mitch que ele viajou para a pequena cidade costeira de Bodega Bay, onde passa seus finais de semana. A Srta. Daniels trata de ir até a cidadezinha levando as aves em uma gaiola.
Ao chegar a Bodega Bay, Melanie se informa com os moradores locais sobre o paradeiro de Mitch e sobre o nome da sua irmãzinha. Vai até a casa da professora Annie Hayworth (Suzanne Pleshette) e descobre que a menina chama-se Cathy. Dirige até a costa e segue de barco à casa dos Brenner, querendo fazer-lhe uma surpresa. Deixa as aves na sala da casa acompanhada de uma carta à Cathy sem que ninguém a veja e volta para a cidade de barco. No entanto, Mitch a vê com um binóculo e dirige rumo ao porto para encontrá-la.
Antes de atracar ao cais, Melanie Daniels é atacada por uma gaivota que fere a sua cabeça. Brenner a socorre e cuida do ferimento em um restaurante do porto enquanto trocam futilidades sobre os motivos da jovem estar em Bodega Bay. No restaurante, coincidentemente a Srta. Daniels conhece a mãe de Mitch, Lidya Brenner (Jessica Tandy) e é convidada pelo advogado para jantar na sua casa. Melanie havia mentido para Brenner que estava hospedada na casa da professora Hayworth e que tinham sido colegas na universidade, então volta a casa dela e aluga um quarto para passar a noite.
Quando Melanie chega à casa dos Brenner conhece sua irmãzinha Cathy (Veronica Cartwright). Antes do jantar, a senhora Lidya está preocupada com as suas galinhas, que não quiseram comer ração e descobre ao ligar para a cidade que outros criadores estão tendo o mesmo problema, inclusive com marcas de ração diferentes. Após o jantar Lidya e Mitch conversam na cozinha sobre o passado da visitante, principalmente sobre uma notícia veiculada em um jornal de San Francisco onde dizia que Melanie já havia nadado nua em um chafariz em Roma, entre outras peripécias da juventude. Melanie e Mitch se desentendem e a Srta. Daniels volta para a casa de Annie. Lá, descobre que a professora e Brenner já haviam sido namorados e que a relação dos dois terminou pela personalidade possessiva da mãe dele, no entanto, Annie ainda gostava de Mitch. Ainda na mesma noite, Melanie é convidada por Mitch para participar da festa de aniversário de Cathy no dia seguinte e aceita o convite.
Até então o filme não parece ser de Hitchcock, a não ser pela sagacidade em abordar aspectos aparentemente simples, mas na verdade complexos da natureza humana. Porém, na festa de aniversário de Cathy algo inesperado acontece. Enquanto os convidados comem e se divertem no quintal, um ataque furioso de gaivotas desaba sobre eles. Durante a noite, na casa dos Brenner, uma nuvem de pardais agressivos e descontrolados cai pela chaminé e provocam uma grande bagunça no interior da residência.
No dia seguinte, após o susto, Lidya vai visitar um amigo, mas o encontra morto dentro de seu quarto, mutilado por bicadas de pássaros e rodeado de aves mortas por toda parte. No meio dessas situações bizarras e assustadoras, Melanie e Brenner se tornam mais próximos e assumem o romance. Apesar das enormes diferenças entre si, a Sra. Brenner e a Srta. Daniels também vão criando laços afetivos.
Quando Melanie vai buscar Cathy na escola protagoniza a cena mais antológica do filme. Enquanto está sentada fumando um cigarro em um banco do pátio, um brinquedo do parquinho começa a ficar enfestado de corvos. Melanie avisa a professora Annie que não deixe as crianças saírem para o recreio. Eles simulam uma emergência de incêndio e se põem a correr, no entanto, o ataque dos corvos é inevitável. Melanie e Cathy se salvam por pouco dentro de um carro. Minutos depois Melanie Daniels vai até o restaurante ligar para Mitch. Lá se envolve em uma discussão sobre o ataque dos pássaros que vai desde a perícia feita por uma velha especialista em aves até as profecias apocalípticas aviárias de um bêbado no bar.
Na rua, as aves voltam a atacar provocando uma explosão no posto de gasolina e uma série de catástrofes e mortes na cidade. Mitch e Melanie conseguem se refugiar novamente no restaurante, mas entre algumas mulheres que estão escondidas lá, uma senhora histérica culpa a Srta. Daniels pelo ataque dos pássaros, que começou assim que ela chegou a Bodega Bay.  Assim que o ataque termina, o casal vai buscar Cathy na residência de Annie e encontram a professora morta na área da casa. O medo e a histeria vão se tornando coletivos. Os Brenner se trancam dentro da casa, mas sofrem outro grande ataque durante a noite com direito a janelas estilhaçadas, portas rachadas e muito sangue. As cenas finais são surpreendentes, aterradoras e de um suspense só mesmo produzido pelo mestre do gênero. Sendo um filme de Hitchcock, não me atrevo a contar o final.
Além da trama, a questão técnica do filme também se tornou clássica. Desde os cenários complementados com pinturas, passando pelos grandes pássaros de borracha presos a barbantes e indo até a sonorização adotada para causar pavor. Na sequência final, Hitchcock não quis introduzir a palavra “Fim” ou “The end”, por considerar que o horror da trama não acabaria ali. O grande enigma do filme é: por que os pássaros atacam?  AS interpretações são várias e essa ambiguidade é que garantiu o sucesso do longa metragem. Além disso, o filme aborda questões muito polissêmicas como o feminismo e a autonomia das mulheres, as relações de ciúmes e o Complexo de Édipo, a relação do homem com a natureza, etc. Indicado ao Oscar 1964 como Melhores Efeitos Especiais, o controverso Os Pássaros é um dos filmes de terror mais cultuados da história.
8.4MUITO BOM
O filme aborda questões muito polissêmicas como o feminismo e a autonomia das mulheres, as relações de ciúmes e o Complexo de Édipo, a relação do homem com a natureza, etc. Indicado ao Oscar 1964 como Melhores Efeitos Especiais, o controverso Os Pássaros é um dos filmes de terror mais cultuados da história.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Intriga Internacional – 1959 (Resenha)

O mestre do suspense sempre teve uma visão muito característica e peculiar sobre a sétima arte. Alfred Hitchcock não estava interessado em retratar a realidade em seus filmes. “O drama é a vida sem as partes chatas”, disse uma vez. Então, para ele, não importava se uma ideia era considerada absurda ou impossível de acontecer na vida real.
O que importava, de fato, era se aquilo poderia ser traduzido em uma imagem bela e poderosa, que trouxesse satisfação e entretenimento para quem estivesse assistindo. Um exemplo disso é a vontade, de longa data, que o diretor tinha de encerrar um de seus filmes com uma cena de perseguição ambientada no Monte Rushmore, famoso monumento estadunidense com os rostos de quatro presidentes históricos do país.
Então, em 1959, apenas um ano depois de realizar o filme que, para muitos, é sua obra-prima, Um Corpo que Cai, ele decidiu realizar seu desejo. Pediu ao roteirista Ernest Lehman (A Noviça Rebelde) que escrevesse uma história que culminasse na cena idealizada.
Nascia ali Intriga Internacional (North By Northwest, 1959), uma das peças mais importantes da filmografia do cineasta inglês. A história gira em torno de Roger Thornhill, um publicitário atraente, bem-sucedido e cosmopolita, interpretado pelo grande Cary Grant, em sua última colaboração com Hitchcock.
Thornhill leva uma vida confortável, fútil e vazia, maquiada por termos caros e drinques elegantes. Um dia, durante uma reunião de negócios em um restaurante, ele é confundido com um homem chamado George Kaplan, e é sequestrado por dois misteriosos agentes armados. O protagonista faz diversas perguntas, mas não consegue nenhuma resposta. Chegando ao seu destino, conhece Phillip Vandamm (James Mason), o homem responsável por sua captura. Por mais que Roger tente dizer que não é o tal Kaplan, os homens não dão ouvidos a ele.
Durante a noite, os capangas o embebedam e o fazem dirigir por uma estrada sinuosa e movimentada, esperando que ele dirigisse penhasco abaixo. Thornhill consegue viver, mas é preso por dirigir embriagado. As cenas em que Grant interpreta o personagem bêbado, tentando se explicar aos policiais e até fazendo uma ligação para sua mãe são um show à parte. Após fazer pequenas investigações por conta própria, o publicitário acaba por se envolver em um assassinato em pleno prédio da ONU, e de ser acusado como o assassino por todos os jornais dos EUA.
Portanto, de uma hora para outra, o homem que levava uma vida calma e sem muitas preocupações perde tudo, sendo perseguido tanto pela polícia quanto por homens dos quais ele não sabe nada. Usando seu charme e inteligência, Thornhill consegue sucessivamente escapar de seus perseguidores, e acaba por entrar clandestinamente em um trem para Chicago. Lá, conhece uma misteriosa e linda mulher, cujo nome é Eve Kendall (Eva Marie Saint, de Sindicato dos Ladrões).
A cena em que os dois conversam no restaurante do trem beira a perfeição. Os diálogos inteligentes e sofisticados são realçados pelas brilhantes interpretações dos atores, em um jogo de olhares, sugestões e gestos que Hitchcock costura de tal maneira que parece estar-se assistindo a um tango de palavras, sexy e provocante.
Eve se propõe a ajudar o homem, mas suas intenções não são tão boas, e Roger, por causa dela, acaba parando em uma estrada deserta, completamente sozinho. Durante seis minutos, não há uma frase dita em cena. Mas Hitchcock domina o filme com tanta força que faz desses minutos os mais tensos e dramáticos de Intriga Internacional, culminando na icônica cena da perseguição de um avião ao personagem em um milharal. Difícil de acreditar que isso poderia acontecer de verdade? Mais uma vez, o diretor não liga. O que importa é a imagem e o sentimento que ela transmite ao espectador.
A partir desse momento, o roteiro contém diversas reviravoltas, e verdades são descobertas sobre vários personagens, inclusive Eve. O ponto culminante, enfim, é a perseguição no Monte Rushmore, marcada pela emocionante trilha sonora de Bernard Herrmann, longo colaborador de Hitchcock. O governo dos EUA não autorizou a gravação das cenas no local, então a equipe do filme teve de realizar uma pequena réplica em estúdio do monumento, em um trabalho de direção de arte impecável. O corte final do filme mostra, mais uma vez, o poder de síntese e a habilidade com a qual o diretor transmite seus significados em imagens, mostrando a grande transformação sofrida pelo protagonista durante a história.
Intriga Internacional não é apenas o conjunto de uma grande atuação, direção e roteiro. É uma obra-prima que resume todo o poder do cinema, e entrega tudo o que um filme pode ter: ação, humor, suspense, romance, belas imagens, música inesquecível e um personagem pelo qual se possa torcer e com quem possamos nos identificar. Distingue-se da maioria dos filmes de Hitchcock pela combinação exemplar de drama e comédia, algo que se deve muito a Cary Grant, que tem uma presença tão poderosa em cena, e vive o personagem de forma tão natural que impossibilita o espectador de tirar os olhos dele.
O roteiro de Lehman, carregado de uma história tão intrincada e rica em personagens, é o pano de fundo perfeito para o “Senhor H” desfilar toda sua genialidade e conhecimento. Famoso por ser obcecado pelos aspectos técnicos de seus filmes, Hitchcock, com a ajuda de sua equipe, atingiu um nível de qualidade assustador neste filme, em que se destacam as cenas do avião, do jantar no trem e a cena final, do Monte Rushmore.
Após entregar mais esta maravilha da arte e do entretenimento, o cineasta viria a realizar mais um filme imortal, Psicose, um ano depois, marcando a melhor fase de sua carreira. Aos amantes do cinema, só resta agradecer e aproveitar os filmes deste grande artista, senhor absoluto de seu meio de expressão, e principalmente, de seu gênero favorito.
8.6MUITO BOM
Em um de seus filmes mais famosos, o diretor Alfred Hitchcock produziu uma experiência inesquecível para qualquer amante do cinema, repleta de ação, humor, suspense e romance, junto com algumas das cenas mais lembradas da história.