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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

The Dressmaker, de Jocelyn Moorhouse

Casada com P. J. Hogan (“O Casamento de Muriel”), a australiana Jocelyn Moorhouse teve de abdicar de sua carreira como cineasta para cumprir em tempo integral o papel de mãe de dois filhos com autismo.  Fez de “Terras Perdidas”, de 1997, a sua última aventura por trás das câmeras. Há 10 anos, ensaiava um retorno com “Eucalyptus”, mas o projeto foi permanentemente engavetado devido às divergências com o astro Russel Crowe, o qual havia revelado em “A Prova”.
Todos esses meandros tornam o retorno de Moorhouse em “A Vingança Está na Moda” ainda mais esperado, especialmente pelo peso de um nome que contribuiu, ainda que de forma discreta, para a propagação da produção australiana para o mundo – bem como Crowe, o esplêndido Hugo Weaving também se beneficiou com o sucesso de “A Prova”. Mas vale um adendo: nem todos devem embarcar na história, que mergulha em tons obscuros sem aviso prévio.
A princípio, o regresso de Myrtle Dunnage (Kate Winslet, ótima, ainda que velha demais para o papel) a uma cidadezinha no meio do nada sugere uma comédia tradicional com uma protagonista provando que deu a volta por cima, agora pretendendo acertar algumas pendências com pessoas responsáveis por transformar o seu passado em um verdadeiro inferno. A questão é que o peso que Myrtle carrega é o de alguém acusado por cometer um assassinato cujos detalhes foram nebulosos demais para processar em sua infância.
Adulta, tenta reparar o relacionamento com a mãe senil (Judy Davis) enquanto impacta a pequena comunidade com as suas habilidades como estilista. Porém, é a receptividade com dois homens que a fará reconstruir a cena do acontecimento que a traumatizou. O primeiro é Farrat (Weaving), sargento que gosta de experimentar roupas e adereços femininos em segredo, e Teddy McSwiney (Liam Hemsworth), rapaz que amolece aos poucos o coração de pedra de Myrtle.
Quando tudo parece caminhar para uma resolução convencional, o texto de Moorhouse e Hogan, com base no romance homônimo de Rosalie Ham, dá novos rumos aos planos de vingança da protagonista. Se antes as suas habilidades em conceber belos figurinos tinha como intenção ocultar a sua motivação em seduzir e desmoralizar todos que a taxaram como uma assassina, os infortúnios do acaso tingem o filme com um humor negro desconcertante. Entre os lançamentos recentes, talvez “A Vingança Está na Moda” seja o que mais se atreveu a sair de uma zona de conforto ao seu final, provocando a reação nada típica de ame-o ou deixe-o.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Resenha Crítica | Cinderela (2015)


Cinderela (Cinderella)
Cinderella, de Kenneth Branagh 
Eu tenho que contar a você um segredo que a ajudará a superar todas as provações que a vida pode oferecer: tenha coragem e seja gentil.
Com os sucessos de “Malévola”, “Frozen: Uma Aventura Congelante” e “Caminhos da Floresta”, a Disney confirma o interesse em revisitar o seu arsenal de contos de fadas para subverter alguns valores mais condizentes com os tempos de hoje. Aguardar pelo príncipe encantado para salvar o dia e assegurar o final feliz não é mais um desejo das garotas, autossuficientes para enfrentar o mal e trocar as alianças sem que esteja motivada somente pelas convenções.
A partir do roteiro de Chris Weitz, Kenneth Branagh faz a sua versão live action de “Cinderela” sem necessariamente reinventar a roda, o que não significa exatamente um retrocesso por ser fiel ao material original. Ao contrário, enfatiza as qualidades que transformaram a personagem em um modelo e o quanto é importante mantê-los em uma realidade tão cínica.
Mais conhecida pelo seriado “Downton Abbey” e provável destaque como Elizabeth Bennet no mashupde adaptação e sátira “Orgulho e Preconceito e Zumbis”, Lily James é uma verdadeira revelação como Cinderela, encarnando a sua versão mais delicada e pura. Ao perder a sua mãe (Hayley Atwell), Cinderela apoia a decisão de seu pai (Ben Chaplin) em se casar novamente. Morto durante uma viagem, Cinderela se vê nas mãos de sua madrasta (Cate Blanchett) e de suas filhas insuportáveis, Drisella (Sophie McShera ) e Anastasia (Holliday Grainger).
Converte-se rapidamente em uma criada, tendo como único consolo os camundongos que lhe fazem companhia no porão em que dorme. Ainda assim, não perde a sua graciosidade, fator que seduz um distinto cavalheiro (Richard Madden) que pretende rever em um baile, sem saber que o próprio é o filho do rei (Derek Jacobi).
Kenneth Branagh revê com muito encanto os rumos já conhecidos dessa fábula, enchendo-a de cores e trazendo Helena Bonham Carter em uma participação maravilhosa como a fada madrinha. No entanto, é em pequenos reparos que consegue legitimar a sua versão de “Cinderela”. Aqui, o príncipe é de fato um jovem singular em sua obstinação em liderar um reino mais justo e a resistência de Cinderela em jamais se corromper pelas injustiças que a cercam é verdadeira o suficiente para transcender as barreiras da ficção e encantar uma nova geração.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Adaptação cinematográfica de clássico da série Vaga-Lume ganha data de estreia!

O gosto pela leitura evidentemente não é inato aos seres humanos. É construído ao longo de nosso desenvolvimento e é, sobretudo, fruto de estímulos, seja de uma herança cultural ou simplesmente de um incentivo externo. Nesse sentido, a série de livros paradidáticos Vaga-Lume, da editora Ática, exerceu e continua exercendo forte influência na vida de nós, hoje leitores, e daquelas crianças que de alguma forma estão criando um gostinho pelas palavras, uma vez que foi idealizada, em meados nos anos 70, excepcionalmente para ser desfrutada em ambiente escolar com o intuito de encorajar os jovens à busca pela leitura. E foi tão bem quista que superou o limite das salas de aula e passou a ser comercializada ao público vasto, ainda que seja categorizada como infanto-juvenil, e hoje dificilmente há alguém que nunca tenha tido ao menos um contato com alguma obra da coleção estampada por aquele simpático vaga-lume de boina e tênis.
Na série, há aqueles escritos únicos. Autores renomados, autores anônimos, familiarizados com a temática e proposta ou não, mas que se permitiram dedicar-se à coleção e escreveram obras exclusivas. Há até obras relançadas, como O Escaravelho do Diabo, clássico com um dos títulos mais conhecidos da série. A obra escrita por Lúcia Machado de Almeida foi originalmente publicada na revista “O Cruzeiro”, mas para ser relançada na série, a fim de ter um alcance do público infanto-juvenil, dispôs-se de uma adaptação em uma abordagem mais singela. E, agora, em 2016, ganhará corpo visual!
O livro – que diz respeito a uma série de assassinatos interseccionados pelo fato de todas as vítimas serem naturalmente ruivas e, antes de serem mortas, receberem uma caixinha com um besouro espetado – instigou a imaginação de várias gerações e será finalmente corporificado em uma adaptação cinematográfica que estreia no dia 14 de janeiro de 2016.
Sob os cuidados de Carlo Milani, diretor estreante do longa, e de toda a equipe de montagem e gravação, como Pedro Vargas na direção de fotografia, Valdir Lopes na direção de arte e Thiago Vilas Boas como assistente de direção, as peculiaridades foram intimamente pensadas para que as memórias de Lúcia Machado de Almeida fossem resgatadas e para que mantivessem os olhares instigantes do público. Para tanto, filmada na cidade quase que cinematográfica de Amparo, interior de São Paulo, a repaginada sofrerá pequenas adaptações necessárias no roteiro, mas também em algumas pontuações da história que, ao meu ver, podem prejudicar o enredo original.
No livro, Alberto, de vinte e poucos anos, estudante de Medicina, se vê na necessidade de descobrir o responsável pela trágica morte de seu irmão Hugo. Com ajuda do Inspetor Pimentel, ele busca o assassino que, aparentemente, é o mesmo pivô de inúmeros casos semelhantes que vem acontecendo na cidadezinha do interior de São Paulo. Todas as vítimas são ruivas naturais e tem suas mortes antecedidas por uma caixinha contendo um besouro fincado, cujo nome científico possui uma mensagem oculta. A paixão de Alberto pela medicina contribui para que estas sejam notadas ao longo da história e desencadeia sua necessidade de aproximar-se do sofrimento humano e, assim, aliviá-lo.
No entanto, na versão cinematográfica, além de a história não se passar nos anos 50 como no livro, o protagonista Alberto é um garoto de 13 anos. Interpretado por Thiago Rosseti, o personagem se constrói ao longo de seu convívio com Pimentel, na pele de Marcos Caruso, ao passo que este, diante de uma perda gradativa da memória, simbolicamente vai cedendo seu espaço ao garoto. O que sugere uma preocupação para com o desenvolver da história, visto a ausência do contato com a Medicina, ou espero que não.
Fora isso o diretor garantiu que o longa, realizado pela Globo Filmes em conjunto com a Dezenove Sons e Imagens, terá fidelidade ao enredo, mesmo que tenha aconselhado àqueles membros do elenco que não tiveram contato com a obra não a lerem antes das gravações. Assim, segundo ele, diante das alterações, seriam evitadas quaisquer interferências.
A adaptação homônima conta, ainda, com as interpretações de Selma Egrei, Jonas Bloch e Lourenço Mutarelli para que, enfim, nossa nostalgia possa ser materializada e a infância resgatada.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Macbeth – Ambição e Guerra

Macbeth 5
Adaptado de modo bastante fiel, Macbeth: Ambição e Guerra tem seus méritos em conseguir transpor em tela uma versão do clássico de William Shakespeare, ainda que seus acertos não ocorram necessariamente graças a direção de Justin Kurzel, que faz um trabalho interessante organizando todos os bons fatores do longa, deixando claro o quão a trama de glória e sangue é importante para o imaginário popular e o quão atual ela pode ser.
Desde o começo da pré-produção, os holofotes estavam sobre a dupla de intérpretes destacando o militar e personagem título executado por Michael Fassbender, enquanto Lady Macbeth é interpretada por Marion Cotillard. Tais personificações beiram a perfeição, fator que rivaliza com a bela direção de arte e fotografia pautada em tons vermelhos como as características positivas do filme. A construção deste tripé – arte, atuações e fotografia – fazem de toda a poesia e lirismo do texto teatral algo belo, visto poucas vezes em adaptações de peças.
A violência gráfica se faz presente, mostrando influencias de Kurzel indo desde a filmografia de Mel Gibson enquanto diretor – principalmente Coração Valente, na estética, e A Paixão de Cristo na emoção – além de fortificar os momentos canônicos do argumento original. O sangue se mistura com a ambição, resultando em uma amálgama que emula o drama até a atualidade, ainda que todos os méritos dessa atemporalidade fujam completamente ao trabalho do realizador, uma vez que Macbeth só foi refilmado graças ao bom texto do dramaturgo.
Macbeth 2
No entanto, a complexidade passa longe dos esforços dos produtores. A fidelidade, que normalmente é um aspecto elogiável neste tipo de fita, soa covarde e conservadora, uma vez que do ponto de vista da história, pouco ou nada se acrescenta. O filme é monotônico, soando repetitivo graças a reverência exagerada da parte do cineasta.
A despeito de suas muitas qualidades positivas, a produção perde atração graças ao ritmo complicado, não tão grave quanto em alguns de seus pares recentes, tanto nos dramas épicos, como em filmes históricos semelhantes na ambientação da Idade Média. A escolha por manter intactos os diálogos é comum a outros tantos filmes shakesperianos, e poucas vezes faz tanto sentido como neste. Mesmo com tanta verve e sentimento, falta um elo sentimental entre o espectador e a obra, mesmo com a bela apresentação de Sean Harris e seu McDuff, o que é uma pena, já que o filme gerava uma expectativa enorme em seu entorno, resultando em uma obra mediana.
Nota:

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

[Crítica] Aliança do Crime

Aliança do Crime 1
Em 1975, o gângster James “Whitey” Bulger controla quase todo o crime organizado no sul de Boston, liderando o chamado Winter Hill Gang. A trama, que adapta o livro de Dick Lehr e Gerard O’Neil, acompanha Bulger ao longo de três décadas, indo de criminoso comum a líder de um dos maiores grupos da máfia de Boston. Em paralelo, vemos sua colaboração com o amigo de infância e agente do FBI John Connoly (Joel Edgerton) e sua transformação em um informante superprotegido.
Existe uma tendência nos filmes de máfia em se transformarem em uma sequência metafísica de dissertações morais construídas em cima dos conflitos ideológicos dos protagonistas em suas ações, mas o diretor Scott Cooper (Coração Louco, Tudo Por Justiça) consegue fugir da habitual relação entre protagonista e audiência, nos apresentando uma personificação do estereótipo cruel e maléfico de mafioso que, surpreendentemente, se apresenta de forma completamente fresca.
Por essa razão, Bulger foge da caricata figura que Johnny Depp construiu para si mesmo com o passar dos anos. Controlado, seguro e maduro, o ator se apresenta de forma nunca antes vista. E é nesse registro que ganha notabilidade, sempre sendo uma ameaça, um psicopata que não se importa com os meios, apenas com os fins.
Aliança do Crime 3
A verídica história de como um gângster qualquer foi “promovido” a rei do crime de Boston pelo FBI é intrigante ao extremo, mas a falta de um melhor posicionamento narrativo é prejudicial. O filme parece, em todo o tempo, se deslumbrar mais com a figura de Bulger do que com as inúmeras críticas e comparações cabíveis dentro da história em relação à eterna política de intervenção dos EUA.
Mesmo com elenco bem afinado – embora mal aproveitado pelo foco no personagem de Bulger -, não fosse Depp mostrando que ainda tem muito a oferecer, Aliança do Crime seria apenas mais um filme genérico sobre a máfia, ignorado pela maior parte do público e rumando para o esquecimento, o que é incabível considerando o peso da história.
–
texto de autoria de Matheus Mota


Leia Mais: http://www.vortexcultural.com.br/cinema/critica-alianca-do-crime/#ixzz3qjLbMIDb

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Histórias Cruzadas (The Help)

por 

Roteirizado e dirigido por Tate Taylor, Histórias Cruzadas adapta o livro A Resposta, de Kathryn Stockett. O foco principal de Stockett foi expor os absurdos aos quais os negros eram submetidos no estado do Mississipi, onde a própria legislação estipulava a segregação racial, com banheiros separados, a não obrigação de se prestar socorro a um negro ferido, e as árduas jornadas de trabalho. Estes eram alguns dos absurdos que moldavam o caráter dos "sábios" homens brancos da década de 60, absurdos que consequentemente eram herdados por suas famílias.

Tendo como personagens principais as empregadas (que na época eram chamadas de help), o filme aborda o elo entre as crianças brancas, praticamente abandonadas por seus pais biológicos, e estas mulheres que, por anos ofereciam carinho e atenção para os pequenos, mas nunca recebiam a devida consideração dos patrões, sofrendo ainda o risco de serem descartadas do dia para noite.

Ao explorar esta hipocrisia velada, percebemos a falta de humanidade da classe média alta da época, sendo que as representantes máximas desse comportamento eram as donas de casa. Alienadas e desocupadas, sua intolerância e ódio racial são apresentados de forma assustadora. É sabido que esta fase American Dream dos anos 60 gerou apenas depressão e tendências suicidas, tudo devido ao eterno jogo de aparência sulista, a fé exacerbada e a política de extrema direita.


É então que surge Skeeter (Emma Stone), uma jovem repórter que busca realizar algo importante em sua vida. Também criada por uma mulher negra, a jovem é livre dos preconceitos que acompanham suas amigas de infância, e percebendo a falta de sentido neste racismo corrosivo, decide escrever um livro que explora a realidade e o cotidiano das empregadas domésticas. Mas para ser publicada ela precisaria de diversos testemunhos, e isso não seria fácil.

Tecnicamente, a direção de Tate Taylor é muito eficiente. Ele passeia pelo humor e drama com naturalidade, e mas importante, consegue tirar de seus atores interpretações fantásticas, tudo isso apoiado por um excelente roteiro, uma produção planejada nos mínimos detalhes e figurinos impecáveis. 


O grande destaque do elenco é Viola Davis com sua Aibllen Clark, personagem que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Seu olhar profundo e cansado exemplifica o sentimento de todas as mães que perderam filhos, esposas que foram violentadas, seres humanos calejados por anos de ignorância e falta de oportunidades. 

Já para a jovem Emma Stone faltou um pouco de maturidade. A naturalidade de Skeeter por vezes soa confortável demais, mediante a seriedade da situação, mas no geral, a atriz colabora com o resultado positivo. A equipe de coadjuvantes conta ainda com Bryce Dallas Howard, Octavia Spencer (que concorreu ao Oscar de melhor atriz coadjuvante), Jessica Chastain e a veterana Sissy Spacek.

No final, é importante percebermos que Histórias Cruzadas explora tanto os problemas dos negros como dos brancos, e que a aproximação de todos é a solução definitiva para dores e tristezas. Não estamos falando de salvadores ou mártires, apenas de união, em que ninguém seja melhor ou menor do que ninguém.Recomendado.




Histórias Cruzadas/ The Help: Estados Unidos, Índia, Emirados Árabes Unidos / 2011/ 98 min/ Direção: Tate Taylor/ Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Bryce Dallas Howard, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Sissy Spacek

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O Homem Duplicado (Enemy)


por 


"O caos é uma ordem por decifrar"

A primeira impressão do surreal O Homem Duplicado (e estou falando daquela impressão que vem imediatamente com os créditos finais, sabe?) é de que o filme, apesar de interessante tecnicamente, falhou em suas intenções. Esta é uma percepção precoce, pois a sobrevida da obra em nosso inconsciente é impressionante, e gera uma satisfatória teorização e discussão dos argumentos apresentados.


A trama, adaptada da obra homônima de José Saramago, gira em torno de Adam e Anthony, homens idênticos, que por "algum motivo" não são simplesmente gêmeos perdidos. Quando os dois se deparam com esta realidade duplicada, um desejo ávido por respostas começa a perturbá-los. Só que neste estranho momento de suas vidas, respostas não se fazem uma opção tão simples.


A luxúria é uma dominante inquietação de ambos. Distorções de identidade criam complexos e lúdicos caminhos, que servem como tentativas de redimir a culpa do desejo que sentem por mulheres proibidas. Eles não parecem satisfeitos com o que têm, e como ouroboros, traçam um movimento cíclico, uma dança de aparências em que não se sabe ao certo onde um termina e o outro começa. E assim outra vez.




O trabalho foi conduzido pelo canadense Denis Villeneuve, profissional de qualidades autorais e técnicas bastante evidentes, tendo em vista seus ótimos filmes Os Suspeitos e Incêndios. Sua linguagem obtém aparência mórbida quando a fotografia amarelada queima com frieza paisagens bucólicas, oriundas de uma Toronto estranhamente perdida em outra dimensão. A atenção de Villeneuve com a transmutação da cidade é de fato um ponto de destaque. Ele consegue fazer do local uma lembrança incômoda, um lugar desumanizado. E a trilha sonora imersiva completa a montagem do cenário.


Mas apesar do andamento ser correto –
 dentro da morosidade contemplativa que oferta –, é possível perceber que durante toda projeção, a audiência não recebe o incentivo narrativo necessário para relevar a estranheza da surrealidade. Fica a impressão de que o filme tenta te enganar, vendendo-se como um suspense comum, mas que na verdade, lentamente, se revela algo subjetivo. Isso gera certo atrito.



No entanto, outro ponto que favorece O Homem Duplicado é a surpreendente interpretação de Jake Gyllenhaal. É fácil esquecer o fato de que o mesmo ator personifica os dois protagonistas – algo similar ao papel de Jeremy Irons emGêmeos - Mórbida Semelhança. Enfim, um trabalho eficiente do intérprete nesta segunda parceria com Villeneuve (ele também participou de Os Suspeitos).


Resumo da obra: O Homem Duplicado oferece extremo afinco técnico/interpretativo. A história encontra, durante determinado período, certa dificuldade de se fundamentar como peça surreal, porém, quase contraditoriamente, a direção focada de Villeneuve valoriza toda a relevância do tema de Saramago, fazendo com que estas ideias e perguntas permaneçam na mente de todos, em constante processo de elucidação. Recomendado. 






O Homem Duplicado/ Enemy: 2013/ Canadá, Espanha/ 90 min/ Direção: Denis Villeneuve/ Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini

domingo, 1 de novembro de 2015

Resenha Crítica | A Floresta que se Move (2015)

.:: 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ::.
A Floresta que se Move
Algumas adaptações de grandes clássicos da literatura e teatro andam provando que o melhor a ser feito é transportar a história e os seus personagens para um contexto contemporâneo do que meramente ambientá-los no período imaginado originalmente. Pegando um comparativo recente, tivemos a deliciosa comédia “Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte” fazendo muita mais justiça à imortalidade da obra de Gustave Flaubert do que a roupagem clássica que a cineasta Sophie Barthes conferiu a sua versão estrelada por Mia Wasikowska.
Temos dezenas de versões cinematográficas de “Macbeth”, com a mais recente estrelada por Michael Fassbender e Marion Cotillard e com previsão de lançamento no Brasil para a véspera de ano novo. Para este momento, é a concepção do cineasta Vinicius Coimbra que revitaliza o texto de William Shakespeare. Por um lado, a fidelização ao material não é ignorada, com consequências e diálogos sendo reproduzidos com familiaridade. No outro, “A Floresta que se Move” obtém sucesso ao não manter uma relação de devoção exclusiva a Shakespeare, trazendo boas surpresas narrativas e visuais.
Gabriel Braga Nunes tem um bom momento como Elias, um homem competente com cargo poderoso em um banco cujo dono é Heitor (papel de Nelson Xavier). Um escândalo de desvio de dinheiro, procedido de um suicídio do veterano que o cometeu, faz Heitor selecionar Elias como o vice-presidente da corporação financeira. É justamente a previsão de sucesso feita por uma bordadeira (Juliana Carneiro da Cunha), que substitui as bruxas que ludibriam Macbeth. No entanto, a sua esposa Clara (Ana Paula Arósio, mantendo a excelência e beleza após um hiato de cinco anos) insiste que Heitor deve ambicionar mais, o que acarreta em um crime que irá ruir todo o império construído por este casal.
Um dos aspectos mais fascinantes desta versão moderna de “Macbeth” é o empenho do desenho de produção assinado por Walter Brunialti. A maior parte da encenação se dá em locações no Uruguai, com a casa de vidro de Elias e Clara e os ambientes profissionais estabelecendo alusões com o reino de Macbeth. A sofisticação é também propagada na direção de fotografia de Alexandre Fructuoso e Pablo Baião, que acinzentam as imagens ao ponto de se equiparar com a rusticidade da tragédia shakespeariana.
Ainda trazendo bons achados visuais, como o banho de sangue e as formigas que invadem a sala de Heitor, “A Floresta que se Move” se beneficia com a escolha de Vinicius Coimbra, em parceria com Manuela Dias no roteiro, de compreender o desejo de poder de Elias e Clara na conquista de um império financeiro e ao perturbá-los com ilusões concebidas pelas naturezas corrompidas que carregam. A seriedade com o texto só é comprometida em alguns pontos, como no uso inadequado de bullet time em um momento crucial e o apático desempenho de Rui Ricardo Diaz como o delegado que tumultuará as metas do protagonista.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Under Milk Wood review: 'a sex-obsessed shambles'

Charlotte Church's singing brightens up this excessively bawdy update of the Dylan Thomas radio play
Could there be a more Welsh phrase in all English literature than “snouting, velvet dingles”? Previous renditions of Under Milk Wood, the 1954 Dylan Thomas radio play made famous in a mellifluous Richard Burton recording, have gone lighter on one element which Kevin Allen’s new film thrusts at us relentlessly. Not dingles. Sex. Heaving, grunting, mucky oodles of it.
The production notes call this screen version of Thomas’s hymn to Wales – the second to be attempted on film, after Burton’s 1972 one with Elizabeth Taylor – “radically surreal and erotic”. It’s certainly gesturing towards both of those things. Whether the eroticism pays off may depend on personal taste – the bedsheet action in this film is so greasy and feral you could practically catch crabs off it.
The surrealism, though, is more of an open-and-shut case: whacking some vaseline on the lens and festooning your sets with the contents of what looks like a Pembrokeshire community theatre’s prop chest does not automatically produce imagery worthy of the word.
Curiously, two films have been made at once here – one in Welsh, enabling the film to be selected as the UK’s official submission for the Best Foreign Film Oscar. Not since Solomon & Gaenor back in 2000 has a Welsh-language film snuck onto the shortlist.
The Welsh Wood screened to local audiences back in December last year, and soon after on television. Any hope of Oscar glory would require it to be a significantly different beast, though; even performed in the English that Thomas wrote, this production, for all its chutzpah, shambles about nigh-on incomprehensibly.
Sporting a straggly white mane and mutton-chop sideburns, Rhys Ifans does double duty as both the Burton-esque narrator and blind Captain Cat, a washed-up mariner whose dreams are plagued by the barnacled corpses of his drowned shipmates.
It’s an immediate problem for the film that Ifans’s voice, though a little more purely Welsh in intonation than Burton’s, is so lacking in comparable musicality: his somnolent baritone doesn’t exactly send the imagination soaring. Nor, heaven help us, do the luridly overlit visuals, save for a few isolated shots – a baby’s dummy spontaneously turning black in river-water, to take one stray instance.

We take a turn around Thomas’s fictional Llareggub – “Bugger-all” backwards – and meet its assortment of oddball locals, such as the wildly effusive organist Organ Morgan (Aneurin Hughes) and twice-widowed guesthouse landlady Mrs Ogmore-Pritchard (Buddug Verona James).
Charlotte Church sings enjoyably and injects a modicum of marquee charisma as good-time girl Polly Garter. And as the henpecked Mr Pugh, “alone in the hissing laboratory of his wishes” to poison his ghastly wife, Boyd Clack gives a really good performance, twitching and bristling over his soup while trying to project outward calm.
Alas, though, too many of the film’s bawdy inventions and gamey imaginings do little to enhance the spell Thomas cast with words. Far more often, they simply break it.

FILME: Os 33

Por 

Os 33 1
Aposta do estúdio Fox para uma história emocionante, Os 33, filme da mexicana Patricia Riggen, adapta a história verídica dos aterrados chilenos, com um elenco estrelado (em ordem de menção na película) por Antonio Banderas, Rodrigo Santoro e Juliette Binoche. O que se nota é uma essencial falta de cuidado ao escolher atores não chilenos para realizar um drama recente e muito ligado a identidade conhecida do país.
A história começa  em uma interação festiva, acompanhando a rotina de Mario Sepúlveda (Banderas) e sua bela família, que comemoram jogando futebol e confraternizando o aniversário de 45 anos de trabalho de um dos mineradores. Aos poucos, os personagens são apresentados, com Maria Segovia (Binoche) vendendo lanches para providenciar sustento para si e para seus parentes, seguida por um montante de personagens que não têm sequer uma fala, além das comemorações que ocorrem. O apelo a dramas comuns acaba se tornando o ponto de partida do filme, gratuito desde o primeiro momento.
A trama segue pautada na cafonice, usando uma moralidade baixa para dar liga à tentativa de resgate dos mineradores sobreviventes. Além de fazer uso de atores estrangeiros para fazer os papéis importantes dentro do filme, ainda se cai no terrível erro de somente dar uma faceta talentosa para um dos trinta e três mineiros. À exceção de outras celebridades, desde Santoro, que vive Laurence Golborne, até Gabriel Byrne, que faz Andre Sougarret, não há qualquer outro ator que consiga dialogar com Banderas no lugar soterrado.
Os 33 3
Mesmo com os artistas renomados, há uma terrível personificação, primeiro por este drama não significar absolutamente nada para eles – mesmo com toda a comoção mundial e empatia das nações estrangeiras – além de seguir-se uma direção desimportante, que mais aparenta ter a abordagem de um telefilme do que um produto cinematográfico blockbuster.
Nenhuma das intenções em relação à importância tanto com os soterrados quanto com os que visam libertá-los é bem construída. A proeza que foi a resistência dos chilenos é apresentada sob uma estética pueril e descaracterizada, como a visão de alguém de fora sobre uma situação bastante local, livre de qualquer emoção que poderia fazer do longa algo tocante, o que é uma lástima, considerando o potencial dramatúrgico do drama real dos sobreviventes.
Nota:


Leia Mais: http://www.vortexcultural.com.br/cinema/critica-os-33/#ixzz3pyIpWZtp

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Filme : Macbeth (2015) : Macbeth review: 'Fassbender was born for this'




Blockbuster battle scenes, spine-tingling staging, utterly believable performances: is this as good as Shakespeare on film gets?
What’s left to be done with a play once Orson Welles, Akira Kurosawa and Roman Polanski have finished with it? In the case of Macbeth, the answer is plenty, providing you’re prepared to dig – and this new adaptation of Shakespeare’s Scottish tragedy from the Australian filmmaker Justin Kurzel tunnels deep. 
From out of almost nowhere – Kurzel’s only previous feature, Snowtown, was an almost unbearably tough true-life serial killer drama set in his native Australia – the director has conjured one of the great Shakespearean movies: it’s fit to stand alongside the Welles, Kurosawa and Polanski Macbeths, and is as unmistakably of its time as those three are of theirs.
Both the setting and language are un-updated: the action unfolds in Middle-Ages Scotland, and what words there are, are Shakespeare’s. But the play itself has been stripped down to its carcass. Iconic moments like the “double, double” incantations and the porter scene have been cut, along with the character of Donalbain, while previously familiar passages have been re-interpreted in unexpected, ingenious ways: if you thought the only way Birnam Wood could come to Dunsinane was via a squadron of soldiers with branches poking out of their helmets, then think again. Kurzel and his trio of screenwriters, Jacob Koskoff, Michael Leslie and Todd Louiso, have done, repeatedly and courageously – and as a result, this endlessly studied 400-year-old piece of drama regains its power to mesmerise and shock.
None of this would have counted for much without the right cast. Kurzel’s Macbeth, though, has been blessed with just about the rightest cast imaginable. It is built around a pair of cosmically powerful performances from Michael Fassbender and Marion Cotillard: using the word "definitive" in relation to Shakespeare is pointless, so let’s just say you wouldn’t want to follow them.

Michael_Fassbender_MacBeth
Credit: Studio Canal/GenEditorial72
It’s hard to shake the sense that Fassbender was born for this. When his Macbeth confesses to his wife, after the murder of King Duncan sees him elevated to the throne of Scotland, that his mind is “full of scorpions”, the actor’s agonised delivery, pleading eyes and hungry grin makes you feel the creatures’ thorny legs pattering up his brain stem.
Cotillard’s rendition of Lady Macbeth’s famous sleepwalking scene, meanwhile, is perhaps the single finest piece of self-contained acting I’ve seen so far in the cinema this year. Earlier in the film, she has the cold, ivory composure of a Lewis chess piece, aided by Jacqueline Durran’s extraordinary costumes and her supremely eerie, almost Black Swan-like make-up. But this is the point at which she cracks.
Performed in a state of full wakefulness in a wooden chapel, uninterrupted by courtiers, the scene becomes a spare and jagged soliloquy, which Cotillard wields like a shard of broken glass to be dragged across her wrists. If a persistent problem in adapting Shakespeare for the cinema is working out exactly whom the soliloquies should be directed at, the solution Kurzel alights on here – revealed in silence at its end – packs a steam-hammer emotional blow.
Back in 1971, Polanski’s great innovation in making his Macbeth was to drag every scrap of cruelty and brutality centre-stage. It was the first film the director made after his wife and unborn child were slaughtered by the Manson Family, and the sourness of the end of the Free Love era hangs over every scene like the smell of burnt flesh. Kurzel’s film takes a different tack – though the film’s opening sequence, in which Macbeth’s army defeats the traitorous Thane of Cawdor in battle, is as gut-churning as anything in the Polanski, with limbs severed and throats slit in transfixing slow motion, while the score by Jed Kurzel (the director’s brother) throbs and drones with stormy foreboding.
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One of the film’s most inspired touches is to paint Macbeth as a battle-weary general whose fits and hallucinations are brought on by post-traumatic stress disorder. This gives a new context to some of the play’s spectral elements without defanging them – the “Is this a dagger which I see before me?” scene is a particularly smart example – although the witches themselves remain a wholly supernatural and brilliantly unsettling presence, whose appearances are heralded by a quiet, hollow knocking noise that had me twisting in my seat.
The Macbeths’ conspicuous childlessness is teased out into another major theme. The film doesn’t open on the expected three witches, but the blue-white body of a boy, laid to rest on a carpet of heather and moss, with stones placed delicately on his eyes. This missing son and heir haunts the entire film, adding a bitter pathos to the Macbeths’ determination to wipe out not just their rivals but their entire bloodlines.

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Credit: Studio Canal/GenEditorial72
Everything here is so perfectly in tune with itself – the bruised and smouldering landscapes, the uniformly outstanding supporting cast, which includes Paddy Considine as a stolid, wary Banquo and Sean Harris as a wraithlike Macduff – that you might expect the film to feel a little too neatly self-contained and vacuum-packed, like Game of Thrones with an arts degree. In fact it’s the opposite: raw, visceral and contagious. Its poetry gets in your bloodstream.I
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