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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Resenha do filme Blade Runner 2049

Ano: 2017
Título Original: Blade Runner 2049
Dirigido por: Denis Villeneuve
Avaliação: ★★★★★ (Excelente)
Imagem relacionada

Foram necessárias mais de duas décadas para que Blade Runner, enfim e merecidamente, fosse reconhecido pelo grande público como o clássico e influenciador filme cult que sempre foi. Logo, revisitar uma obra como esta trinta e dois anos depois era um desafio e risco eminente, que o diretor Denis Villeneuve corajosamente assumiu. E, para nossa felicidade, foi mais do que bem-sucedido ao nos trazer Blade Runner 2049.
Bebendo da fórmula que consagrou o longa de 1982, dirigido por Ridley Scott – que está também aqui como produtor executivo, um ponto importantíssimo para a qualidade do novo filme – Blade Runner 2049 apresenta uma profundidade maior sobre as questões existenciais levantadas na obra original e os avanços tecnológicos em uma premissa de futuro semi-apocalíptica, onde a humanidade já é totalmente incapaz de existir somente por meio de seus próprios recursos.
A trama se passa trinta anos após o primeiro filme. Os replicantes passaram a ser perseguidos e indesejados, as indústrias Tyrell chegaram ao fim e o grande blecaute de 2022 acabou com quase tudo em relação aos registros antigos. Após esse período, o visionário e ambicioso Niander Wallace (Jared Leto) prosperou no domínio da tecnologia, erradicando a fome no mundo. Em 2036, Wallace dá início a uma nova era de replicantes, superiores aos antigos Nexus, e totalmente obedientes aos seus criadores.
Em 2049, somos apresentados a K (Ryan Gosling), um replicante que atua como Blade Runner para a Polícia de Los Angeles, caçando replicantes antigos, da era Nexus ou mesmo anterior, que passaram a ser considerados ilegais desde a instauração da nova ordem. Durante uma de suas investigações, o agente descobre algo que pode mudar todo o conhecimento da sociedade a respeito da ideia de perpetuação da raça humana e, consequentemente, dos replicantes quanto à própria natureza de suas existências.
A ideia de futuro apresentada em Blade Runner 2049 é fascinante e soa muito realista em diversos aspectos. Se, em 1982, Blade Runner apresentou algumas ideias que hoje são realidade (ou ao menos em desenvolvimento) para nós em 2017, como a criação de órgãos em laboratório e a incubação de vida em sistemas de reprodução artificiais, 2049 nos faz imaginar que a vida humana poderá ter mesmo, no futuro, total dependência do avanço da bioengenharia para a preservação da espécie e manutenção do planeta, cujos recursos naturais parecem cada vez mais próximos de se extinguirem.
Há, por exemplo, vislumbres de como determinados locais poderão ser completamente varridos por radiação e erosão, além da distinção de cidades próximas que terão condições sociais e climáticas totalmente opostas. Enquanto Los Angeles continua como o principal polo do filme, onde observamos a tecnologia avançada com os carros voadores, as projeções holográficas e a interação de interfaces entre replicantes e inteligências artificiais, a cidade está sempre sob chuva (o que dá aquele ar noir e filosófico do primeiro filme). Vegas, por outro lado, está soterrada sob areia e virou ruínas, enquanto San Diego tornou-se um verdadeiro lixão a céu aberto.
Acima das questões tecnológicas está, mais uma vez, o aspecto filosófico-existencial que faz de Blade Runner algo único, e não poderia ser diferente Blade Runner 2049. O agente K (sob ótima atuação de Gosling) é um personagem que transmite a apatia de uma criatura que, a princípio, programada para que acreditar que serve apenas para obedecer ordens, não transmite emoções plenas e apenas vive sistematicamente. Mas, de acordo com as descobertas que faz, acaba questionando sua origem e motivações, descobrindo que há uma complexidade muito maior quando falamos de dar vida a algo que simula um ser humano. A “humanidade” de K também é expressa, em momentos de incrível beleza no filme, em sua relação com Joi (Ana de Armas), uma inteligência artificial capaz de acompanhá-lo a todo momento, mas que sofre com a incapacidade se materializar e amá-lo fisicamente.
O longa é repleto de diálogos memoráveis, como o monólogo de Wallace sobre o sonho de alcançar o Éden, e pequenos momentos em que apenas a expressão no olhar dos personagens diz mais do que qualquer coisa. Destaque para Luv (Sylvia Hoeks), serva de Wallace que representa características exatamente opostas a K, mas que, assim como o agente, compreende que é mais do que uma simples criação de bioengenharia e tenta, ao seu modo, encontrar o significado de sua vida. Harrison Ford também está de volta ao papel de Rick Deckard e sua aparição é recheada de nostalgia, além de trazer à tona a verdade que faz a união definitiva entre as tramas do primeiro e segundo filme.
É importante ressaltar que a experiência de assistir Blade Runner 2049 só é completa a quem assistiu ao seu antecessor, pois não trata-se apenas de inclusão de referências ou reaparição de personagens, mas de uma expansão de universo, cujas características-base estão enraizadas na primeira produção. Essa experiência também pode ser ampliada em alguns detalhes assistindo aos curtas lançados recentemente, que trazem algumas pílulas dos fatos mencionados no filme (confira-os aqui).
Quem espera apenas por uma obra futurista de ação ou um thriller sci-fi com ares noir pode se frustar ou se surpreender, pois Blade Runner 2049 vai muito, muito além. É um épico da ficção-científica que, ao longo de suas 2h43, nos leva por uma jornada de imersão e questionamento embalados por uma trilha sonora impecável, com um ritmo de condução distribuído perfeitamente entre ação, suspense e drama. Blade Runner 2049 é mais que uma sequência; é a obra definitiva sobre aqueles que “são mais humanos que os humanos” e que, talvez, assim como seu predecessor, só tenha o devido reconhecimento através do tempo.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Resenha Crítica | A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017)

Ghost in the Shell, de Rupert Sanders
Em uma contemporaneidade na qual a tecnologia avançou ao ponto de viabilizar a confecção de robôs com capacidade de obedecer a muito mais que uma dúzia de comandos, os laços da realidade com a ficção científica andam se estreitando cada vez mais. Baseado tanto no mangá de 1989 escrita por Masamune Shirow quanto no longa animado de 1995, “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell” trata essencialmente dessa questão, ambientando a sua história em um futuro indeterminado, mas próximo.
Interpretada por Scarlett Johansson, a protagonista Major é a primeira de sua espécie, com uma anatomia robótica denominada como uma “concha” que abriga o “fantasma” de um ser humano. No caso, o cérebro de uma jovem que teria sido uma das vítimas de uma explosão e que agora recebe a sua segunda chance para servir a um propósito maior.
Com a parceria de Batou (Pilou Asbæk) e a supervisão de Aramaki (Takeshi Kitano, que não se presta a falar em inglês), Major lidera uma missão para interromper os crimes cibernéticos de Kuze (Michael Pitt), que estaria se infiltrando como um hacker na consciência de humanos constituídos de ciber-cérebros. Porém, o curso dessa caçada a reconecta com o seu eu anterior, o qual desconhecia por apenas ter fragmentos de memórias.
Mesmo não debutando do modo mais promissor com “Branca de Neve e o Caçador”, o inglês Rupert Sanders prova que é dono de um apuro estético dos mais arrojados, recriando um cenário futurístico à lá “Blade Runner”. Além da imaginação para apontar abismos sociais, dos edifícios periféricos aglutinados à uma metrópole tomada por hologramas gigantes, impressiona a caracterização de personagens, como as gueixas robôs que cometem um ataque terrorista.
Porém, o deslumbre visual, por vezes comprometido por um excesso de profundidade de campo que borra a bela cenografia digital, não reduz o fator humano tão importante em premissas como a de “A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell”. Mesmo polêmica, a escalação de Scarlett Johansson não traz prejuízos para um elenco essencialmente globalizado (com destaque para a francesa Juliette Binoche e a romena Anamaria Marinca em um papel que merecia ser mais amplo), correspondendo dramaticamente ao peso de se viver em um contexto no qual até mesmo a nossa consciência é ofertada e manipulada.
Data:
Filme:
A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell
Avaliação:

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Europa Report - Crítica

por 

Sci-Fi consegue explorar com eficiência o perturbador sentimento de isolamento que se abate sobre uma equipe de astronautas rumo ao desconhecido.

Após estudos apontarem a provável existência de vida em lagos subterrâneos de Europa, uma das luas de Júpiter, uma equipe com os melhores astronautas da Terra é montada e corajosamente enviada para onde nenhum homem jamais foi. Obviamente, muitos problemas surgirão durante esta longa viagem, assim como revelações nunca antes cogitadas.

"Europa Report" é uma ficção cientifica de baixo orçamento que traz como proposta fundamental o conceito de falso documentário. Como alicerce da história temos reportagens de TV sobre o importante acontecimento, com especialistas explicando o motivo da expedição, ou mesmo dando depoimentos emocionados sobre os problemas posteriores. Já dentro da espaçonave, acompanhamos tudo por câmeras espalhadas por todos os lados, que registram a missão.

Essa proposta adotada pelo diretor equatoriano Sebastián Cordero não é inovadora, mas a qualidade técnica presente, assim como sua criatividade e atenção ao detalhes, faz da fita algo envolvente. Mesmo com poucos recursos, vemos uma produção esteticamente atraente, de cenografia competente e edição final inventiva. Alguns ângulos e trucagens de câmera podem parecer manjadas para olhares mais clínicos, no entanto, é realmente impressionante analisar o que foi feito com o orçamento de pouco menos de dez milhões de dólares.



O plote central do roteiro, elaborado pelo iniciante Philip Gelatt, também não é inovador, mas podemos dizer que seu texto se mostra seguro e bem estruturado. O roteirista explora o perturbador sentimento de isolamento espacial de maneira sútil e eficiente, sem apelar logo de cara para esteriótipos do gênero - que inevitavelmente aparecem. Apesar de ser principalmente um thriller psicológico, "Europa Report" ousa rondar um universo fantástico, o que torna a experiência mais instigante. O clima de suspense é grande, e a curiosidade da audiência aumenta a cada minuto de projeção.

No elenco temos uma equipe talentosa e de nacionalidades diferentes, começando pela romena Anamaria Marinca ("4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias"), o sueco Michael Nyqvist ("Os Homems que Não Amavam as Mulheres", versão original), a polonesaKarolina Wydra ("Rebobine, Por Favor"), o sul-africano Sharlto Copley ("Distrito 9") e os americanos Embeth Davidtz ("O Homem Bicentenário"), Dan Fogler("Fanboys"), Christian Camargo ("Guerra ao Terror") e Daniel Wu ("O Homem Com Punhos de Ferro"). O time trabalha bem os personagens, sendo Copley o mais desenvolto em cena.

No final, "Europa Report" é uma obra recomendada, principalmente para os amantes do gênero. O roteiro de Gelatt consegue criar a tensão e curiosidade necessária para prender a atenção até o satisfatório desfecho, e o diretor Cordero realiza um ótimo trabalho técnico com muita pouca verba, o que não deixa de ser um mérito admirável.





Viagem à Lua de Júpiter/ Europa Report: 2013/ 90 min/ Direção: Sebastián Cordero/ Elenco: Christian Camargo, Embeth Davidtz, Anamaria Marinca, Michael Nyqvist, Daniel Wu, Karolina Wydra, Sharlto Copley, Dan Fogler, Isiah Whitlock Jr., Neil deGrasse Tyson.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Ex Machina - Crítica

por 


Imagem e Semelhança

Há mais de 60 anos atrás, Asimov profetizou que a criação de uma inteligência artificial, capaz de sentir emoções iguais as nossas, iniciaria um conflito que empurraria a humanidade à beira da extinção. O homem criador seria tecnicamente um novo deus, enquanto a criatura, de raciocínio pulsante e praticamente ilimitado, enfrentaria as eternas maldições de sua existência sem propósito. Algo como Humanidade 2.0.

Está bem claro que o tema IA nunca deixará de ser algo relevante. Na verdade, parece que estamos cada vez mais próximos de desenvolver uma consciência como a que Asimov descreveu em seu Eu, Robô. O filme Ex Machina fala exatamente disso, deste ato de criação já amaldiçoado por clássicos sci-fi, mas principalmente investiga como ambas as partes (humanos e máquinas) reagiriam a esse processo inédito de convivência. 



O roteiro utiliza então, como base fundamental, o teste de Turing, que determina o quão convincente é a interação da máquina com o homem, se ela realmente consegue agir de maneira autêntica diante de seu observador, a ponto de confundi-lo, 
humanisticamente falando. Mas, se a máquina foi feita, digamos, pra amar, fazer sexo, ou simplesmente proteger sua integridade, quais seriam os (novos e necessários) parâmetros do teste?

O diretor e roteirista Alex Garland afirmou que fez Ex Machina com o menor orçamento possível, isso por que ele queria total controle sobre o material. Mas apesar da restritiva independência financeira, a produção elencou atores de qualidade, sendo eles, resumidamente, Oscar Isaac, Domhnall Gleeson e Alicia Vikander.  

A fita oferece também um visual arrasador, de estética belíssima, com efeitos especiais brutalmente realistas, que misturam verdade e ficção de forma perturbadora. A trilha sonora amplifica a sensação claustrofóbica do ambiente, e a iluminação valoriza criativamente os momentos de tranquilidade e tensão, destacando também a fotografia impecável de Rob Hardy.




Ex Machina é um filme hipnotizante. Seu andamento é lento, mas em nenhum momento sentimos a sensação de descompasso, pois toda cena é composta por um texto minuciosamente arquitetado, e as interpretações valorizam ainda mais estes argumentos. 


Durante sete dias de testes, vemos a personalidade de todos os envolvidos alcançado estranhos níveis de consciência. Em um ambiente desses, parece normal que os humanos percam sua humanidade. É tudo incrivelmente surreal e desconfortante, principalmente pela crueldade implícita, que se disfarça de evolução, mas que no final é apenas loucura.


Este é um clássico sci-fi que oferece uma das mais impactantes discussões sobre a criação de uma inteligência artificial auto-suficiente. Como o próprio nome do filme sugere, a robô protagonista, Ava, é literalmente uma Deus Ex Machina, que veio para alterar o destino dos homens definitivamente. Recomendado.




Ex Machina: Reino Unido/ 2015 / 108 min/ Direção: Alex Garland/ Elenco: Alicia Vikander, Domhnall Gleeson, Corey Johnson, Oscar Isaac, Sonoya Mizuno

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens)

por 



Acredite no hype. Acredite no despertar da força.

Devo dizer primeiramente que O Despertar da Força é um grande filme, que ultrapassa barreiras de franquias e marcas. É realmente impressionante ver como o diretor J.J. Abrams conseguiu acertar em todas as suas escolhas com a maior moral do mundo.

Juntamente com o roteirista Lawrence Kasdan, ele construiu uma história clássica, que sem vergonha nenhuma de parecer repetitiva, se apropria com dignidade de praticamente tudo aquilo que fez de Star Wars um sucesso eterno: a irmandade dos personagens, com suas deixas famosas e temperamentos teimosos, as conveniências intergaláticas e, principalmente, aquela honestidade autoral que por vezes parece perdida nos dias de hoje. Não vou discorrer sobre a trama, mas tenha certeza que ela lhe parecerá algo extremamente familiar. E isso é bom, é muito bom.




Neste sétimo episódio da franquia, o senso de continuidade é perfeito. Visualmente tudo está incrível. Todo o conceito temático, apesar de expandido, se manteve totalmente fiel. Mesmo contendo efeitos especiais deslumbrantes, é possível perceber a atenção da produção (e necessidade) de se fazer da obra algo concreto, registrado em locações reais, com cenários enormes, construídos e detalhados milimetricamente, povoados por bonecos e animatronics complexos que são usados apenas por alguns segundos, e por aí vai. Aquela tecnologia avançada e ao mesmo tempo antiga da trilogia original, continua a mesma, melhorada na verdade, mas sem perder sua essência em momento algum.

Enquanto isso, John Willians se desdobra sobre seus temas clássicos, criando assim diferentes, mas ainda sim interligadas, linhas para os novos personagens. Melodias prontas para te acertar em cheio. O elenco, com um brilho especial nos olhos, entrega tudo que tem de melhor. Novos e clássicos, os personagens se encontram como iguais dentro do universo criado por George Lucas. Entre os novos queridinhos temos como destaques a jovem Rey (Daisy Ridley), o stormtrooper Finn (John Boyega), o piloto da Resistência Poe Dameron (Oscar Isaac), e o sombrio Kylo Ren (Adam Driver).







Enfim, Star Wars: O Despertar da Força funciona do início ao fim. Seus grandes trunfos são sua abertura e desfecho, ambos fortíssimos e muito bem amarrados. No segundo ato o ritmo desacelera um pouco, enquanto as novas linhas narrativas são apresentadas. Isso não chega a ser um problema. mas é algo perceptível. No entanto, como falei, o começo é sensacional e o final é melhor ainda. Esta pode parecer uma análise rasa, mas sem entregar nada da trama, é a melhor e mais honesta que eu posso dar. Posso dizer também que as escolhas deste Star Wars fizeram dele um trabalho importante, pontual, que quebra certos paradigmas, que vergonhosamente ainda existem.

Depois de assistir, depois de baixada a adrenalina inicial, percebi que, conforme o tempo passa, melhor o filme fica na minha memória. No momento em que você assiste, rola um turbilhão de emoções e a gente sai meio que anestesiado. Mas a história e seus acontecimentos continuam ali, fervilhando na cabeça, e você não vê a hora de poder assistir aquilo de novo. Se este será considerado um dos melhores filmes de toda a franquia, talvez o melhor até agora, somente o tempo dirá, mas levantar o questionamento não é algo tão absurdo. Obrigatório.


PS: Que a força esteja com vocês!






















Star Wars: O Despertar da Força/ Star Wars: The Force Awakens: EUA/ 2015/ 135 min/ Direção: J.J. Abrams/ Elenco: Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Lupita Nyong'o, Andy Serkis, Domhnall Glesson, Anthony Daniels, Max von Sydow, Peter Mayhew, Gwendoline Christie

sábado, 12 de dezembro de 2015

Distrito 9 (District 9)

por 

Quando anunciaram que a franquia "Halo" seria adaptada para os cinemas, gamers de todo o mundo ficaram extasiados, ainda mais com o nome Peter Jackson na produção. Quem iria dirigir o filme seria o novato Neill Blomkamp, um entusiasta de efeitos especiais que havia mostrado qualidades inegáveis com seu curta  "Alive in Joburg". 

"Halo" não vingou, mas dessa decepção nasceu "Distrito 9". Peter Jackson, percebendo o talento de Blomkamp, deu carta branca para o mesmo escolher um tema e realizar seu primeiro filme - de baixo orçamento obviamente. O diretor optou então por voltar ao interessante tema de "Alive in Joburg", aproveitando elementos cenográficos que seriam utilizados no finado "Halo".

"Distrito 9" é uma ficção científica que definitivamente surpreende pela criatividade. Nascido na África do Sul, Blomkamp utiliza o país como centro de um contato mais que imediato com alienígenas, deixando os EUA - que sempre aparece como o centro das atenções em invasões deste tipo - de fora da jogada dessa vez. 

Seguindo uma linha inicialmente documental, vemos a problemática situação burocrática que a capital Joanesburgo enfrenta quando uma espaçonave repleta de extraterrestres operários ancora no céu. Aparentemente sem um líder, estes "prawns" (apelido nada carinhoso que significa pequeno crustáceo, menor que um camarão) se encontram desnorteados, sem saber ao certo como proceder. Surge então o Distrito 9, uma área onde os visitantes podem residir e assim coexistir "pacificamente" com a raça humana.

Mas depois de décadas, o local (que virou uma favela criminosa) acaba se tornando um incômodo para a população. Visando a melhoria de vida dos habitantes ao redor, é autorizado uma espécie de novo apartheid, em que todos os aliens seriam reposicionados no Distrito 10, extremamente afastado da civilização. E à frente dessa desocupação está Wikus Van de Merwe (Sharlto Copley, que atuou também em "Alive in Joburg"), um funcionário da megacorporação MNU - instituição que, além de possuir esse lado "social", também domina o mercado armamentista. A principal motivação da MNU é usurpar inteligência alienígena, descobrindo, por exemplo, como utilizar suas armas biologicamente desenvolvidas. 

Apesar destes "prawns" de aparência insectóide serem em totalidade ignorantes, e estarem perdidos sem o comando de uma rainha mãe, existe entre eles uma equipe que tenta a todo custo religar a nave (colmeia) e voltar para casa. Quando Wikus encontra com estes "sujeitos" em particular, sua vida muda drasticamente. Ele acaba infectado por uma substância que o faz se transmutar em um dos alienígenas, fato que o torna a cobaia perfeita para a MNU, que não possui um pingo de compaixão diante de sua delicada situação.

Além deste excepcional roteiro, que faz paralelos claros com a segregação racial que o país (e o mundo) enfrentou tempos atrás, a obra também chama atenção por sua profusão técnica. Os efeitos especiais beiram a perfeição, é tudo muito orgânico. A câmera tremida e a integração perfeita da CG com o ambiente faz das cenas uma realidade palpável. Já o humor do excelente ator Sharlto Cooper oferece um ar diferenciado para o tema: auspiciosamente espontâneo, ele improvisou todos os seus diálogos. Digno de nota.

No final, "Distrito 9" pode tranquilamente ser cotado como um dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos. A direção atenciosa e inventiva de Blomkamp se une perfeitamente a um roteiro de qualidades únicas. Todos os elementos transpiram criatividade: o vício e tráfico de comida de gato, a magia negra visando poderes de outro mundo, a influência da mídia e corporações malignas, os relatos da população e comentários de especialista no tema, o amor entre o protagonista e sua esposa, tudo resulta em uma história memorável. Nada mal para um novato com o apertado orçamento de 30 milhões de dólares.

























Distrito 9/ District 9: EUA, Nova Zelândia, Canadá, África do Sul/ 2009/ 112 min/ Direção: Neill Blomkamp/ Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, John Sumner, William Allen Young, Nick Blake