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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Life: Um Retrato de James Dean (2015)


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Life: Um Retrato de James Dean é insosso e vazio.
Ficha técnica:
Direção: Anton Corbijn
Roteiro: Luke Davies
Elenco: Robert Pattinson, Dane DeHaan, Ben Kingsley,  Kristian Bruun, Peter Lucas, Lauren Gallagher
Nacionalidade e lançamento: Eua, Reino unido, Canadá, Alemanha, Austrália, 2015 (21 de julho de 2016 no Brasil)
Sinopse: Dennis Stock é um fotografo freelancer que mesmo sem muito prestígio aposta em tirar fotos de um promissor, mas ate então desconhecido, ator: James Dean. Dean vive o lançamento de um longa estrelado por ele enquanto aguarda o convite para o próximo.
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A historia aqui contada, com as devidas licenças poéticas caras às adaptações, ocorreu em meados da década de 1950. James Dean foi um ator que esteve em longas como Vidas Amargas (1955), Juventude Transviada (1955) e várias séries, tudo em um curto espaço de 5 anos – dada a prematura morte. O foco em Life é o olhar que Dennis Stock ( Robert Pattinson), um fotógrafo em ascensão, tem sobre o jovem ator.
Aí reside um dos problemas do longa. O coprotagonismo acaba enfraquecendo ambas as figuras. Não há o aprofundamento necessário nos anseios de cada um, dificultando a empatia com o público. Salvo em um momento de James e o sobrinho no sofá da família, todas as outras vezes que tal laço, entre publico e personagens, é tentado, narrativamente falha.
Mesmo que tudo em volta de ambos não tivesse viço, a relação entre os protagonistas poderia sustentar uma história. Contudo, ela acaba sendo uma das partes menos interessantes aqui. O primeiro encontro deles é fortuito, mas pueril. A marcação de um segundo soa forçada e absurda. A partir daquele instante, com 5 minutos de exibição, Life se rompeu para mim e não mais se recuperou.
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Por falta de fundamentar melhor em tela o que viria a ser o convívio da dupla, todos os momentos posteriores carecem de um estofo. Há uma divertida cena em um bar que fica solta. Uma outra, em um trem, onde James narra o próprio passado de forma emocional, acaba ficando expositiva e desinteressante – para o publico e para Pattinson que ouvia tal relato. E no final, um acontecimento na janela tem zero força dramática. E a ultima cena é piegas e até mal filmada.
Separados, James e Dennis, arranham um algum arco. O fotógrafo tem ex-mulher e um filho que vê pouco. O ator tem que lidar com os poderosos do estúdio, como o senhor Warner. Mas o ritmo do longa não ajuda aqueles pedaços se conectarem e terem o resultado esperado – de dar um background da vida pessoal da figuras que estamos vendo.
Dennis Stoke tem que deixar de lado um final de semana com o filho para trabalhar no Japão. Ok, seria justificável tal atitude dada a manutenção do emprego. No entanto ele larga tudo, filho e Japão, para entrar em uma viagem com Dean – mesmo após uma recusa de financiamento (ora, ele não alegara problemas financeiros? Então como arranja dinheiro e, principalmente, arrisca-se naquela empreitada?).
Esse é só um dos exemplos de como o roteiro desenvolve mal o contexto (que já havia, como falei, problemas desde o início). O ritmo só piora a sensação de “nada”. A história, quando há – se é que há, soa arrastada e truncada. O começo, acelerado demais na apresentação, desemboca em um segundo ato que não sai do lugar, mesmo com os personagens quase sempre em movimento. A resolução é abrupta sem um clímax devido – o corte final poderia ser dado umas 4-5 vezes antes.
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E as atuações…. bem as atuações…. nula de um lado e projeto de caricatura de outro. A cara monotônica de Pattinson torna o personagem ainda mais desinteressante. Dane DeHaan, demasiado intimista, tem uma falta de cadência na fala que irrita. Química é uma palavra inexistente aqui. Não acreditamos na “amizade” (a ponto de eu precisar de aspas para defini-la como tal) e tampouco nas motivações.
Life: Um Retrato de James Dean possui uma boa fotografia transitando em vários tons e cenários. O design de produção nos remete muito bem à época. Os dois elementos são os de mais sucesso – talvez únicos – e passam uma verdade. Todavia, obviamente, não são suficientes para sustentar o equívoco geral em roteiro, direção, montagem e atuações. James Dean um rebelde talentoso e “a cara de um novo movimento”, aqui gerou um filme careta, mal executado e esquecível.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Resenha Crítica | Ninguém Quer a Noite (2015)

Filha de uma alemã com um oficial militar americano, Josephine Diebitsch Peary veio a descobrir a vocação pela exploração de locais inóspitos ao se casar com Robert Edwin Peary aos 25 anos. As contribuições conjuntas em expedições valeram-lhe o título de Dama do Ártico, ainda mais comum com a vinda de Marie, filha que deu à luz no Polo Norte. Trata-se de uma figura real que buscou não viver à sombra de seu marido, recebendo em “Ninguém Quer a Noite” o papel de protagonista.
Ninguém Quer a Noite (Nobody Wants the Night)
Interpretada por Juliette Binoche, Josephine não é compreendida pela cineasta Isabel Coixet e o roteirista Miguel Barros como uma heroína, entretanto. Qualquer tom de aventura que a premissa poderia corresponder é limado para exibir o drama de uma Josephine no ápice da fragilidade, clamando por seu Robert ao ponto em ir a sua procura com toda a instabilidade de uma paisagem marcada pelo branco da nevasca.
Incapaz de traçar o trajeto por si própria, Josephine convence Bram Trevor (Gabriel Byrne) em liderar a viagem com esquimós, estes sempre encarados pelos estrangeiros como meros mapas ambulantes com habilidades para a caça e o transporte de bens. Feroz quando contrariada, Josephine parece distante da realidade que passa a rodeá-la, desejando a todo custo reencontrar o amado como a protagonista de uma fábula, inclusive carregando consigo um guarda-roupa com peças luxuosas.
Se o primeiro ato acompanhamos uma mulher fútil que ignora os riscos que pode pagar para saciar o seu capricho, “Ninguém Quer a Noite”caminha em direção oposta a de “A Rainha do Deserto”, de Werner Herzog, que reduziu a grande Gertrude Bell em uma moça ingênua guiada por lamúrias amorosas ao invés da curiosidade em conhecer a amplitude do mundo. Isso porque a versão ficcional de Josephine passará a ter a presença da esquimó Allaka (Rinko Kikuchi) para colocar em perspectiva o seu vazio emocional.
Essa transição de intenções talvez seja a razão de “Ninguém Quer a Noite” ter sido severamente criticado em sua première no Festival de Berlim. No entanto, é ela a responsável por engrandecê-lo. O romance com molduras épicas e a aventura antropológica dão vez a visão de Isabel Coixet sobre o que é a mulher em seu sentido mais primitivo. Unidas por algo em comum, Josephine e Allaka se transformam com a vinda de um inverno rigoroso, devastando tudo que as protegem até restar os instintos maternais e de sobrevivência. Ao decifrar novamente a natureza de suas personagens com tanta intensidade, Coixet volta a provar o quão especial (e subestimada) é diante de seus colegas contemporâneas.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Review: ‘Race’ Chronicles Jesse Owens’s Rise to Olympic Glory

The ingredients of “Race,” a studiously uplifting biopic of Jesse Owens, the phenomenal star of the 1936 Olympic Games in Berlin, remain as volatile as they were 80 years ago, although nowadays they are camouflaged. This true story of an impoverished black youth from the streets of Depression-era Cleveland who ascends to greatness by shattering track-and-field records and undercutting Adolf Hitler’s racist agenda is a safe, by-the-numbers tribute.
The movie smacks its lips when Hitler abruptly leaves the stadium after Owens (Stephan James, who played the civil rights activist and future Congressman John Lewis in “Selma”) wins one of his medals. Each of his four victories leaves Joseph Goebbels (Barnaby Metschurat), the Nazi minister of culture and propaganda, more grimly crestfallen.
There are many ways to tell Owens’s story, and “Race” (the two meanings of the title fit hand in glove) takes one of the least challenging. By confining its time span to only three years, from 1934 to 1936, the movie — directed by Stephen Hopkins (“The Reaping,” “Lost in Space”) from a screenplay by Joe Shrapnel and Anna Waterhouse — doesn’t look beyond Owens’s rise and moment of glory when he was 22. (He died in 1980.)
 
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Trailer: 'Race'

The film focuses on how African American athlete Jesse Owens destroyed Hitler's myth of Aryan supremacy by winning four gold medals at the 1936 Berlin Olympics.
 By FOCUS FEATURES on Publish DateOctober 18, 2015. Photo by Thibault Grabherr/Focus Features.Watch in Times Video »
If “Race” is a standard inspirational biopic that exalts the legend of an athletic hero, at least it doesn’t soft-pedal the racism that Owens encountered at every turn. Even after becoming world-famous, Owens is treated with contempt by many whites, including those in the athletic and political establishment. President Franklin D. Roosevelt never invited him to the White House.
The epithets and slurs casually hurled by people with hatred in their eyes sting like acid flung in your face. The movie makes sure we know these insults were constant and unending, and it shows their effect on Owens. In a telling moment, he has to be reminded to look people in the eyes during conversation.
Owens, although usually well-behaved, can at times also be defiant, willful and immature, and Mr. James adroitly conveys his hurt and half-buried anger in subversive flashes. No athlete wins a gold medal by accident. And the movie doesn’t conceal Owens’s ferocious competitive drive with a show of false humility. (Mr. James’s portrayal of a nuanced Owens is a far cry from the blank model of perfection embodied by Jamal Wallace, the scholar-athlete played by Rob Brown in the unfortunate 2000 film “Finding Forrester,” an offensive low point in Hollywood’s hypocritical portrayal of race.)
“Race” begins in a miserable slum in Cleveland, where the Owens family moved from Alabama when Jesse was 9, and follows him through high school to Ohio State University. In 1932, his high school girlfriend Ruth Solomon (Shanice Banton) gave birth to a daughter. They married three years later, although his dalliance with another woman as he was becoming famous nearly shattered their relationship.
Once they’ve wed, the movie concentrates on sports and the fierce politics of the Olympics during the time of Hitler’s rise. In the United States, Owens found himself caught in a struggle between Jeremiah Mahoney (William Hurt), president of the Amateur Athletic Union, who urged an American boycott of the ’36 Summer Games, and Avery Brundage (Jeremy Irons), a haughty industrialist who argued for American participation and stated that politics had no place in the Olympics. Brundage, whom the movie portrays as politically savvy but morally obtuse, negotiates the terms of American participation with Goebbels to allow limited participation by Jewish athletes.
Owens, under enormous pressure from both sides, vacillates, but eventually goes to Berlin. Before he makes his decision, there is a particularly sensitive moment when representatives of the N.A.A.C.P. visit and gently plead with him to boycott the Games. It is a wrenching choice because Owens’s very identity is synonymous with athletic excellence.
If “Race” does an efficient job of clarifying the issues, at no point do you feel that this is the whole story in all its complexity. Leni Riefenstahl (Carice van Houten), the free-spirited German filmmaker whose acclaimed two-part 1938 film “Olympia” documents the 1936 Games, flits in and out of the movie, yet the friction between her and the suspicious Goebbels is palpable.
Riefenstahl’s presence points up the visual flat-footedness that is the movie’s biggest flaw. The poetry found in her film is absent in the racing and jumping scenes in “Race,” and the movie’s overall palette is prosaic verging on drab.
What humanizes “Race,” though, is Owens’s relationship with Larry Snyder (Jason Sudeikis), who, denied accreditation as his Olympic coach, was forced to book himself in steerage on the ocean liner carrying the American athletes across the Atlantic. Once Snyder was in Berlin, Owens demanded and secured his participation. The story of Snyder’s own thwarted athletic ambitions gives their bond a special poignancy; in a sense, Snyder is living through Owens, and Mr. Sudeikis’s tough, heartfelt performance conveys the intensity of his personal investment.

In the most sentimental moment, Carl “Luz” Long (David Kross), Owens’s German challenger for the long jump, befriends Owens, gives him crucial advice and expresses his loathing of the Nazi agenda. Although this dramatic moment almost feels too good to be true, it really took place.
“Race” reminds us that long before television elevated black sports heroes into gods, there were athletes like Jesse Owens who paved the way.
“Race” is rated PG-13 (Parents strongly cautioned) for language. Running time: 2 hours 14 minutes.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A Teoria de Tudo (Resenha)

teoria de tudo
Quando eu pedi A Teoria de Tudo para ler, imaginava um outro tipo de leitura. Sabia que era escrito pela (ex) exposa de Stephen Hawking, mas não pensei que seria assim. A narrativa me parece mais um jeito de expor tudo o que ela não falou na época que era casada com o tão renomado.
Stephen Hawking, um jovem promissor que aos 21 anos de idade descobre que tem Esclerose Lateral Amiotrófica, uma doença incurável. E que mesmo assim, não deixa de seguir com seus estudos e vida. Nessa mesma época conhece Jane, uma moça que apesar de tudo, decide ter uma família com o rapaz. E foi isso que ela fez por 20 anos. Aguentou muitas situações complicadas em razão de Stephen e sua família. Mas sempre chega uma hora que todos cansam e ela cansou, recebendo críticas pela separação e gerando rumores relacionadas à “família Hawking”. Em A Teoria de Tudo ela “esclarece” o lado dela dos fatos de todos esses anos com o cientista.
Jane sempre se “sacrificou” por seu esposo que foi ganhando espaço nos holofotes, enquanto ela ficava à sombra dele. Numa narrativa em primeira pessoa, temos fatos extremamente detalhados de sua vida com o físico (tipo muito detalhados mesmo, chega a ser um pouco maçante). Ela tem uma linguagem um pouco formal e se repete muito em certos pontos. Mas o que me irritou mais foi seu ponto de vista pessimista de toda a situação (enquanto escreve o livro). Era como se ela olhasse pra trás e se arrependesse de tudo e percebesse que sua vida foi infeliz e o livro fosse sua “carta de liberdade” pro público. Ela está aproveitando que dessa vez, as pessoas estão a ouvindo, coisa que não acontecia quando era casada. #boring
A forma como divulgaram o livro tanto aqui quanto fora é que esse é um livro sobre o amor perfeito e acho que na verdade, ao ler, você percebe que não, eles não tinham um casamento perfeito. Em muitas situações o próprio Hawking é “estúpido” com a mulher que fez tanto por ele. E ela também não é a super boazinha. Os dois são seres imperfeitos. E ela tentou segurar o casamento o quanto pôde.
Os capítulos são grande pela descrição da narrativa. Achei a leitura densa pela quantidade de detalhes e pelo “peso” dos sentimentos por parte da autora. Essa é uma biografia-desabafo por parte de Jane.
E é isso aí!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Resenha Crítica | Amy (2015)


Amy
Amy, de Asif Kapadia 
Publicada no Brasil pela Editora Globo, a biografia de Amy Winehouse assinada pelo jornalista britânico Chas Newkey-Burden chegou em um momento em que a cantora atravessava um momento conturbado na carreira e na vida privada. Porém, embora a sua pesquisa tenha trazido ao público informações curiosas sobre Amy, havia um excesso de enaltecimento, encarando as transgressões da artista como justificáveis em uma cena musical em que homens as protagonizam sem uma penitência.
Conhecido pela direção do documentário “Senna”, Asif Kapadia faz uma cobertura muito mais interessante e completa sobre a cantora e compositora, quatro anos após a sua morte por intoxicação de álcool. Tece, na realidade, um panorama crítico sobre a fama e o quanto ela atinge negativamente quem não a deseja e o quanto a mídia colabora para aprofundar ainda mais um poço no qual está uma figura pública.
Ao se aproximar dos primeiros anos de Amy, a famosa “levada da breca” dá lugar a uma garota que desde a pré-adolescência apresentava indícios de depressão a partir do divórcio de seus pais. Atingiu a maioridade já chamando a atenção de produtores musicais por sua voz inigualável, preenchendo com energia as próprias composições, que tinham como matéria-prima as frustrações e a paixão por jazz, gênero que apreciava desde pequena ao lado do pai, Mitchell Winehouse, então um taxista e cantor amador.
Tendo “Stronger Than Me” como o seu primeiro single, Amy veio a estourar mesmo em seu segundo álbum, “Back to Black”. Com as divulgações em rádios e programas televisivos, ganhou fãs em todo o mundo e a consagração no meio artístico, recebendo em 2008 cinco prêmios Grammy. Ápice que teve um custo, como a presença 24 horas de paparazzi para registrar a sua intimidade, geralmente ao lado de Blake Fielder-Civil, seu marido na época.
O respeito à memória de Amy Winehouse não está ao negar a sua trajetória errante, documentada em noticiários que exploraram exaustivamente o seu alcoolismo e o vício por drogas pesadas que a levaram a uma transformação física assustadora. Kapadia compreende que ninguém se atira ao abismo a troco de nada e conecta a autodestruição de Amy com as inadequações de um meio com pessoas que deveriam protegê-la ao invés de expô-la.
Não apenas Blake sugou toda a vitalidade de Amy ao inseri-la em um caminho sem volta, mas também o seu pai e agentes, forçando-a a seguir com um cronograma de shows em circunstâncias de maior fragilidade, vindo um histórico de apresentações interrompidas por suas indisposições física e psicológica. Mitchell inclusive autorizou ao Channel 4 as gravações para um projeto televisivo que viria a ser batizado como “My Daughter Amy”, isso em pleno 2010, período em que Amy se isolava para uma nova reabilitação.
Ainda que alguns acontecimentos importantes traziam a esperança de volta por cima, como o dueto com Tony Bennett para “Body & Soul”, o acúmulo de feridas emocionais era insuportável demais para reanimá-la, tornando-a um novo nome para a lista de grandes talentos que partiram aos 27 anos. Kapadia registra a despedida sem a intromissão de escândalos, oferecendo a artista algum conforto após a tormenta. “Amy para sempre”, suspira a eulogia do brasileiro Antonio Pinto.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Resenha Crítica | A Garota Dinamarquesa (2015)

Na Hollywood lamentavelmente careta de hoje em dia, é muito comum um projeto como “A Garota Dinamarquesa” ser uma vítima de uma série de reveses. Há quase dez anos, o projeto estava nas mãos de Nicole Kidman, com interesse em produzir e protagonizar a história sobre a transexual Lili Elbe. No entanto, mais do que as dificuldades em levantar o financiamento, Nicole não conseguiu alguém para viver Gerda Wegener, a companheira de Lili, um papel declinado por atrizes como Charlize Theron, Gwyneth Paltrow e Rachel Weisz.
Agora, “A Garota Dinamarquesa” ganha formas com Tom Hooper no comando, mas com todas as modificações perceptíveis em uma produção que passou por um sem número de mãos. Isso porque essa encenação sobre o pintor Einar Mogens Wegener e a sua decisão em ser a primeira pessoa a se submeter à cirurgia de mudança de sexo se preocupa menos com esse dado e mais na potencialidade romântica que ele gera.
A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)
Com uma fisionomia pouco atrativa e, ao mesmo tempo, singular, Eddie Redmayne tem também uma androgenia que o torna uma escolha perfeito para viver Einar/Lili. E se restava alguma dúvida sobre o seu talento desse vencedor do Oscar “A Teoria de Tudo”, em “A Garota Dinamarquesa” o vemos novamente em um trabalho extremamente meticuloso de composição.
É ainda como Einar que o vemos no primeiro ato, casado com a também pintora Gerda (Alicia Vikander). Enquanto ele é especializado no registro de paisagens, Gerda busca decolar ao fazer retratos. Na inocência de substituição parcial de uma modelo, Einar adota com naturalidade os adereços femininos e, paulatinamente, reconhece o próprio corpo como algo que não corresponde à mulher que descobre habitar o seu ser, a qual batizará como Lili.
Agora notório por suas composições questionáveis de imagem, como o flerte descuidado com o plano holandês e o uso de grande angular com os atores como assunto, Tom Hooper até poderia recorrer a essas escolhas estéticas como uma representação da distorção de seu protagonista. Não é o que acontece, pois o seu preenchimento inadequado de quadro resiste até o final. Notem não apenas os elementos cenográficos que emolduram as imagens, como também os planos e contra planos com personagens totalmente alinhados à esquerda ou direita quando o ponto de contato visual está centralizado.


Por outro lado, é preciso conferir mérito a Hooper pelo despudor em explorar o corpo de Eddie Redmayne, algo tão importante para compreendermos a natureza verdadeira de sua personagem. Até porque “A Garota Dinamarquesa” resulta como uma experiência frustrante justamente por Lucinda Coxon fazer um uso inadequado tanto do romance de David Ebershoff quanto da própria biografia de Einar, infantilizando a complexa situação a um mero jogo de onde está Einar e onde está Lili, como se o primeiro fosse uma entidade que pudesse reaparecer a cada clamor de Gerda.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A Rede Social (The Social Network)

por 

I’m CEO, Bitch!

Toda a história do Facebook propõe uma bela ficção, ainda mais quando contada pelas mãos mais que competentes de David Fincher, aclamado diretor de clássicos modernos como “Clube da Luta” e “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Sendo primeiramente visto como um projeto inusitado, o filme é hipnotizante do começo ao fim, e traça passo a passo a velada guerra daqueles que um dia foram parceiros de negócios, e também amigos.
Mark Zuckerberg, criador do Facebook, mais novo bilionário da história e potencialmente um Bill Gates desta geração, é esmiuçado com um olhar clínico, que por vezes vangloria sua inteligência e sagacidade, assim como expõe todos seus defeitos claramente perceptíveis. Conclusivo e preciso como uma máquina, o jovem prodígio agia como uma, controlando seus sentimentos, seus amigos e trabalhos de forma assustadoramente fria e calculista. Em um mundo que se rendeu a era digital, Zuckerberg era rei e o Facebook seu reinado, um reinado que de tão importante se tornou maior do que ele ou qualquer outro que atravessasse seu caminho.




Roteirizado de forma auspiciosa por Aaron Sorkin (Jogos do Poder), a história apresenta fatos contundentes desta disputa judicial acirrada. Hora vemos Zuckerberg encarando Divya Narendra e os gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss, pretensos criadores de uma idéia que poderia ter se transformado no Facebook. Já no outro corner temos Eduardo Saverin, brasileiro tido como co-fundador do site e também único amigo de Zuckerberg na época, que o trairia posteriormente. Alicerçada pelo livro de Ben Mezrich “The Accidental Billionaires: The Founding of Facebook, a Tale of Sex, Money, and Betrayal” (livro que teve Saverin como principal fonte), a história contada parece tirada dos autos do caso, em cenas simplesmente eletrizantes onde o nível intelectual de Zuckerberg se destaca, sendo muitas vezes inteligentemente evasivo e também cruelmente verdadeiro.

Em meio a isso, de forma atemporal, a história se desenrola conforme vai sendo citada neste julgamento de gente grande (grande conta bancaria). Está tudo lá: a chacota com Harvard e sua respeitável rede que foi abaixo depois do compartilhado Facemash, a evolução ensandecida do novo thefacebook, a ira dos traídos, a idolatria por Sean Parker, sujeito que simplesmente ensinou a internet a compartilhar seus downloads através de sua Napster, e claro, o início de tudo, o homérico fora de Zuckerberg, que o deixou bêbado e potencialmente criativo (ou seria vingativo?). Tudo devidamente registrado em seu blog, no qual escrevia simultaneamente enquanto programava tudo e todos ao mesmo tempo.

Com um nível de amadurecimento além das expectativas (já muito boas), a destreza do diretor David Fincher se revela em cada cena. A precisão dos movimentos de sua câmera, o respeito e atenção com que aborda seus personagens e locais - como a apresentação dos títulos iniciais que revela Harvard de forma gradualmente bela-, e com cenas de impacto sem igual- como a disputa de remo que parece ser filmada por um Kubrick moderno. Com montagem simétrica e fotografia excelente (de Jeff Cronenweth que fez “Clube da Luta”), o filme funciona em todas as camadas. Ponto forte fundamental é a trilha sonora de Trent Reznor (da banda Nine Inch Nails) e Atticus Ross. Sendo uma mistura homogênea, ela é clássica e sutil quando aborda cenas de contemplação, e pulsante, eletrônica e orgânica quando quer instigar suas sequências perfeitamente amarradas.
Seguindo a mesma linha de todas suas obras, Fincher consegue tirar tudo de seus atores, neste caso, jovens em ascensão. Jesse Eisenberg já mostrou que gosta de flertar com o humor em filmes como “Zumbilândia” e “Férias Frustradas de Verão” (péssimos nomes, se me permitem comentar), mas foi como Zuckerberg que ele realmente provou ser um ator digno de nota. Não fugindo muito de seu estereotipo, Eisenberg emprega de forma madura e assustadoramente competente o tom robótico de seu personagem, e no mínimo merece respeito por despejar toneladas de frases absurdamente complicadas sem ao menos piscar, proeza que se torna difícil até para os mais experientes rappers da atualidade. Mesmo que aprisionado a esta chatice latente, o ator consegue sutilmente fazer com que as emoções desse Zuckerberg de Fincher sejam exploradas, o tornando humano, e assim demonstrando como somos privilegiados por termos relações mais enfáticas do que o garoto bilionário. Sua camuflada fraqueza faz dele o anti-herói atormentado que ganha o público.

Ainda no mesmo nível, Andrew Garfield apresenta muita naturalidade em cena como o brasileiro Eduardo Saverin. Muito mais passional, seu personagem é o coração mais humano entre todos, fazendo de seu carisma a vergonha da traição de Zuckerberg. Justin Timberlake também chama a atenção com seu Sean Parker, nerd figurão que traz um histórico de polêmicas para a fundação do Facebook. Seu raciocínio acelerado e simpatia vão de encontro com sua falsidade congênita. Temos ainda Armie Hammer ao dobro como os honrados cavalheiros de Harvard, os irmãos Winklevoss, Rooney Mara como o amor perdido Erica Albright e Rashida Jones como a advogada assistente Marylin Delpy, que mostra para Zuckerberg que nem tudo está perdido para ele no assunto “relacionamentos”.
Como disse no início, querendo ou não, tudo é ficção. Talvez a invenção do Facebook não tenha sido esse drama todo, mas inegavelmente o filme de David Fincher, através de um simbolismo ampliado e utilizando de códigos variados, consegue alcançar um resultado que pode ser considerado algo bem próximo da realidade. Com um roteiro dinâmico e perfeitamente talhado, com diálogos inteligentes, por vezes psicologicamente arrasadores, a obra se torna mais uma pérola na coleção do diretor. Filme para se ver várias vezes.

A Rede Social/ The Social Network: Estados Unidos/ 2010/ 120 min/ Direção: David Fincher/ Elenco: Jesse Eisenberg, Rooney Mara, Andrew Garfield,  Rashida Jones, Justin Timberlake, Armie Hammer

sábado, 7 de novembro de 2015

A Condenação (Conviction)

por 

Longas que abordam histórias verdadeiras são os mais importantes. Mesmo que o texto floreie um romance, exagere um sentimento, ou se foque apenas no que acha mais atrativo... mesmo com essas esporádicas variações problemáticas, os dramas inspirados na vida real são extremamente relevantes, pois celebram o espírito de algo que se destaca em nossa realidade, algo maior, melhor e que merece ser propagado.

Esse é o caso de "A Condenação", produção independente de 2010 lançada pela Fox Searchlight e dirigida por Tody Goldwyn (aquele almofadinha de "Ghost", que morre e é levado pelos espíritos do mal direto pro inferno, lembra?).

Veja bem, este filme não se destaca por suas qualidades técnicas. A direção é correta, mas convencional. Não vemos nela nada que ouse sair do lugar comum em termos de criatividade cinematográfica. No entanto, o que chama atenção mesmo é a incrível história real que serve de base para o roteiro de Pamela Gray.

É mais ou menos o seguinte: Betty Anne Waters sempre foi muito apegada ao irmão Kenny. Oriundos de um lar disfuncional, os dois encontravam em sua parceria infantil a coragem necessária para enfrentar a vida. Depois de anos conturbados, cheios de afastamentos e problemas de todos os tipo, eles estavam próximos novamente. Isso até Kenny ser preso por um assassinato que não cometeu, sendo condenado a prisão perpétua. Betty, que era uma garçonete e mãe de dois filhos, simplesmente não conseguiu ficar de mãos atadas. Diante de um julgamento parcial, provas inconclusivas e totalmente refutáveis, a mulher colocou sua vida de lado e entrou em uma faculdade de direito, para assim conseguir provar a inocência do irmão.

Ela perdeu tudo durante este processo. Seu marido lhe abandonou, e os filhos preferiram morar com o pai. As derrotas e injustiças para se chegar ao resultado final (que levou mais de 10 anos) foram praticamente insuportáveis - mediante a futilidade dos interesses por trás da condenação. Mas ela resistiu, e a recompensa veio através das novas técnicas investigativas criadas na época: o exame de DNA - outro elemento interessante explorado pela obra, que demonstra o quão falha era a justiça antes deste artifício e como diversos inocentes perderam anos atrás das grades, mesmo com a falta de evidências cabíveis.   

Temos então uma forte história que, de forma inteligente, não apela para o melodrama barato. Os atores envolvidos são competentes, sendo a protagonista Betty interpretada por Hilary Swank, e o irmão preso Kenny, pelo sempre contraventor Sam Rockwell. Como a vilã do caso, surge a excelente Melissa Leo com sua Nancy Taylor (mesmo que esta antagonista seja real, não vem ao caso revelar os motivos).

No final, "A Condenação" é um filme honesto, que não tenta deslumbrar o espectador ou algo assim. A fita se propõe a contar uma história real digna de nota, que exalta o amor e confiança que uma família deve ter (mesmo ela sendo formada por dois irmãos). Se apoiando sabiamente nas interpretações do elenco, Goldwyn oferece algo relevante... e se por um lado a fita é desprovida de requintes ou enfeites, por outro é carregada de sentimento. 

Nada mais que a verdade. 



























A Condenação/ Conviction: EUA/ 2010/ 107 min/ Direção: Tony Goldwyn/ Elenco: Hilary Swank, Sam Rockwell, Thomas S. Mahard, Owen Campbell, MInni Driver, Melissa Leo, Juliette Lewis, Clea DuVall, Karen Young

A Caverna dos Sonhos Perdidos (Cave of Fortgotten Dreams)

por 

Em 1994, quando os espeleólogos (especialistas em cavernas) Jean-Marie Chouvet, Cristian Hillaire e Elliete Brunel procuravam por correntes de ar vindas de frestas (sinais de uma possível caverna) em Vallon-Pont-d’Arc, na França, algo extraordinário aconteceu: eles se depararam com um dos locais mais importantes do mundo. A Caverna de Chauvet (batizada com o nome de seu descobridor), além de possuir incomuns 400 metros de extensão, é o provável berço da criatividade humana, exteriorizada em forma de arte.

Em meio a fósseis de diversos animais, foram descobertos inúmeros painéis com pinturas rupestres feitas por homens a mais de 30.000 anos. Elas são duas vezes mais antigas do que qualquer outra evidência encontrada até hoje. Só que o mais surpreendente é o estado de conservação das obras: praticamente intactas, como se houvessem sido pintadas um dia antes, com pedaços de tochas e rochas, a dedo ou com as palmas das mãos. Devido a um desmoronamento que selou completamente a entrada, o ambiente dentro da caverna se tornou inalterável por milênios. Uma verdadeira cápsula do tempo, intocada.

Diante da importância desta descoberta, o governo francês logo se empenhou em restringir o acesso ao local de forma rígida – tendo em vista o surgimento de mofo nas paredes da também importante Caverna de Lascaux, que acabou sofrendo com a respiração de seus muitos turistas. Vedada com uma porta maciça, como de um caixa forte, poucos são autorizados a entrar em Chauvet, sendo o icônico diretor alemão, Werner Herzorg, um dos poucos privilegiados. Ele registrou lá sua "Caverna dos Sonhos Perdidos", sem fins comerciais, visando principalmente propagar informações sobre este importante patrimônio natural.

Herzorg acompanhou uma expedição cientifica constituída de especialistas de vários campos, incluindo estudiosos da arte. Com uma equipe enxuta, utilizando câmeras digitais não profissionais, tendo disponível um tempo curto de trabalho e respeitando os criteriosos procedimentos dentro da caverna, o diretor acabou driblando as adversidades de maneira sem precedentes, e o resultado não poderia ser mais elucidativo e belo.

Fugindo completamente do estereotipado conceito de documentário científico, o cineasta opta então por uma linguagem reflexiva. A trilha de Ernest Reijseger, que é composta por violoncelos em sua totalidade e carregadas de um sentimento levemente mórbido, exemplifica bem o espírito de nossa pequenez diante da empreitada rumo à compreensão humana. A narração, realizada pelo próprio Herzorg, oferece um texto extremamente poético, que esmiúça de forma cognitiva a importância e beleza do lugar. E fortalecendo ainda mais a experiência, a excepcional fotografia alcançada na escuridão da "Caverna dos Sonhos Perdidos" foi exibida nos cinemas em 3D. Deslumbre visual e técnico afinal. 

Entre as pinturas encontradas na Caverna de Chauvet estão principalmente imagens de animais: muitos cavalos, rinocerontes, touros, leões e ursos. A técnica desses artistas primitivos (obviamente foram mais de um nestes 30.000 anos) é surpreendente. Em certos momentos ela proporciona movimento aos animais, compõe cenas, utiliza as oscilações das paredes a seu favor. Podemos dizer que a importância dessas obras só é tão grande quanto o vale exterior à caverna, sendo que os habitantes que viveram naquele local, marcado por um grande arco natural e quase mítico, precisavam expor sua beleza de alguma forma, se tornando assim uma extensão do olhar da natureza: pureza, perfeição e espontaneidade, valores distantes de nossa massificada cultura atual. 

Não perca a oportunidade de refletir com a "Caverna dos Sonhos Perdidos", a experiência é definitivamente enriquecedora.































A Caverna dos Sonhos Perdidos/ Cave of Fortgotten Dreams: Canadá, EUA, França, Alemanha, Inglaterra/ 2010/ 90 min/ Direção: Werner Herzorg/ Elenco: Wener Herzorg, Jean Clottes, Julien Monney, Jean-Michel Geneste