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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Resenha Crítica | Amor & Amizade (2016)

Love & Friendship, de Whit Stillman
Love And Friendship
No primeiro ato de “Metropolitan”, Tom, personagem principal vivido por Edward Clements, tem uma discussão literária com Audrey (Carolyn Farina), no qual ele desdenha de “Mansfield Park”, considerando o livro de Jane Austen ridículo dentro de um contexto contemporâneo. Inconformada, Audrey retruca: “Já te ocorreu que o mundo contemporâneo, pela perspectiva de Austen, ficaria ainda pior?”.
Com 26 anos de carreira, Whit Stillman continua fiel a um sentimento de deslocamento vivido por seus personagens nos ambientes em que transitam, como se estivessem despreparados para um novo rito de passagem. É um conflito que aproxima “Metropolitan” ou qualquer um dos seus três filmes seguintes de “Amor & Amizade”, este justamente inspirado em um romance de Jane Austen.
Assumidamente comercial, o título pode fazer os fãs da escritora pensarem que “Amor & Amizade” é uma adaptação homônima do romance escrito em 1970, quando Austen ainda era uma adolescente. No entanto, o roteiro de Stillman tem como base “Lady Susan”, publicado postumamente em 1871.
Kate Beckinsale é quem interpreta Lady Susan Vernon, uma quase quarentona que enviuvou sem uma herança generosa. Exatamente por isso, aproveita a ocasião do retorno de sua filha Frederica (Morfydd Clark) após a expulsão do colégio em que estudava para aproximá-la do afortunado Sir James Martin (o hilário Tom Bennett, mais conhecido por suas participações em seriados britânicos), que vive de cometer gafes durante as tentativas frustradas de conquistá-la.
Sem muito sucesso na tentativa em sofisticar o seu nome por meio de sua própria filha, Lady Susan parece ter outras cartas na manga, como conquistar Reginald DeCourcy (Xavier Samuel), jovem irmão de Catherine DeCourcy (Emma Greenwell), esposa de seu ex-cunhado, Charles Vernon (Justin Edwards). Durante os flertes, surgem os boatos de que Lady Susan também estaria atraída por Lord Manwaring (Lochlann O’Mearáin), este em um casamento aos frangalhos com Lady Lucy (Jenn Murray).
Mais do que respeitar os elementos de uma boa comédia de costumes, Whit Stillman persegue uma aproximação entre os valores antiquados e modernos. Não à toa, ele traz Chloë Sevigny fazendo a melhor amiga americana de Beckinsale: as duas atrizes foram também protagonistas de “Os Últimos Embalos do Disco”, vivendo garotas que parecem as encarnações futuras de Lady Susan e sua confidente Alicia Johnson em plena era da conversão de hippies em yuppies.
O resultado está longe de ser uma adaptação convencional de Austen, especialmente pela ênfase na ardilosidade que move Lady Susan. Os homens até pensam que estão resolvendo os seus assuntos amorosos com uma impunidade que não favorece as mulheres. Mal sabem que as razões contidas no coração de Lady Susan a fazem estar muito avançada no jogo de aparências que articula.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin)

por 

Diferente daquilo que o nome possa induzir, "A Separação", do diretor Asghar Farhadi, fala mais sobre o distanciamento e falta de diálogo de um povo do que o rompimento de duas pessoas em particular. Tendo como pano de fundo o processo conturbado de alienação entre Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moadi), a contundente obra explora os costumes aparentemente absurdos dos iranianos, norteados principalmente pela religião, que se mistura de forma perigosa com as leis do país. 

Dois universos em conflito nos são apresentados: primeiramente conhecemos a família de Nader, de classe alta, ávida por conhecimento, educação e praticante de atitudes igualitárias na questão "homens e mulheres". Seus problemas são simbolicamente representados pela saúde debilitada do pai de Nader, que sofre de Alzheimer, fato que acarreta a separação do casal mediante a decisão de Simin deixar o Irã com a filha Termeh (Sarina Fahardi). Nader escolhe ficar para cuidar do pai.

Já do outro lado temos a empregada Razieh (Sareh Bayat), mulher extremamente temente a deus. Seu marido Hodjat (Shahab Hosseini) segue a mesma linha extremista, exemplificando para o público os efeitos de tal devoção exacerbada, caracterizada por uma violência carregada de ignorância, sentimentos de culpa e eterna posição de vítima das situações. 

Estas duas vertentes de famílias iranianas são expostas de maneira bem definida, sendo que, inicialmente, ambas parecem distintas - com suas qualidades e defeitos bem claros -, mas isso se transforma com o decorrer da trama, que nivela ações cabais quando tudo colide de forma abrupta.


O roteiro de Farhadi fala de ressonâncias, descarrilhamentos, e como eles se movimentam de forma perigosa, afetando na maioria das vezes quem parece estar fora de alcance. A falta de comunicação é a própria lei do Irã, uma mentira velada, incrustada, que ganha força na brutalidade e manipulação, naquele que é vítima máxima perante deus. A mentira para o homem se mostra lei, já diante do senhor, maldição. Não existe mais tolerância entre aqueles que se amavam, apenas um orgulho corrosivo que se agarra em uma honra duvidosa. As ilusões de inocência afetam principalmente as crianças, as verdadeiras vítimas em potencial de toda a encenação dos surreais tribunais, onde "altos e baixos" novamente se tornam iguais, pares, sem separação, mas tão distantes.

No final, "A Separação" usa o fim de um relacionamento, primeiramente para aproximar qualquer etnia até sua trama, e depois, para explorar as dificuldades, qualidades e principalmente defeitos do povo iraniano. De forma sufocante, o diretor visita o momento em que a vida, plena e satisfatória, muda diante dos olhos e nada pode ser feito. O sentimento de impotência e descontrole toma conta dos personagens. Olhando de fora, o público pode até fazer seu veredicto, apontar as inconsistências de um, defender a postura de outro, ou entender o sofrimento, relevar as ofensas. 

Mas não existem culpados ou inocentes nesta separação do povo iraniano. Todos, ironicamente, são vítimas da situação. Farhadi a todo momento mostra que a reconciliação é possível, na verdade é muito próxima, pois ainda existe amor. Mas ele, o amor, encontra suas barreiras no orgulho esmagador de ambas as partes, na desconfiança. É aí, de forma simbólica, diante desta relação disfuncional, que o diretor traça o paralelo com a história de seu próprio país, enfatizando principalmente a angústia e questionamento dos filhos ao redor, os que mais sofrem e a única esperança de um futuro menos caótico para o Irã.

       
Confira o trailer:



A Separação/ Jodaeiye Nader az Simin: Irã/ 2011/ 123 min/ Direção: Asghar Farhadi/ Elenco: Peyman Moadi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Shahab Hosseini, Babak Karimi, Sarina Farhadi 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

[Resenha] O Pântano das Borboletas – Federico Axat

Por 

O Pântano das Borboletas - Federico Axat
Segundo romance do argentino Federico AxatO Pântano das Borboletas marca sua estreia no país em edição lançada pela Tordesilhas em 2014. Sucesso em seu país natal e bem recebido pela crítica, o ator é apontado como um misto de Rudyard Kipling e Mark Twain pela boa composição e inventividade narrativa, elogios que intentam demostrar que, mesmo para um romancista de pouca carreira, a prosa é consistente.
O romance se situa na pequena cidade americana de Carnival Falls, acompanhando um trio de amigos no ano de 1985, época em que tinham 12 anos de idade e compartilharam juntos descobertas e um deslumbramento ainda inocente pelo mundo. A narrativa evoca a memória comum a todos que passaram por esta fase, em uma vertente nostálgica transformadora deste tempo de aprendizado.
A história se desenvolve tanto nesta fase como dá um salto temporal de 20 anos, momento em que o público percebe que o livro é uma narrativa de memórias de um personagem-autor que retorna a sua infância para narrá-la em um romance. Estes dois espaços temporais se alternam com poucas conexões entre si e elevando o suspense. Axatar domina com perfeição o ritmo narrativo, sabe expor com precisão os acontecimentos, bem como encerrá-los ou desenvolver lacunas necessárias para o desenvolvimento da história. E assim leva o público a muitos acontecimentos que parecem definitivos para desmistificá-los em seguida.
Como parte da trama se desenvolve na pré-adolescência, a obra flerta com o fantástico e mantém a dúvida se tais acontecimentos, que seriam de difícil aceitação no mundo real, são parte da criatividade da infância ou uma maneira pela qual os jovens retiveram na memória momentos traumáticos, afinal, o tempo transforma a fluidez da memória. As personagens não são poupadas da violência do mundo e de mudanças internas e físicas em si, descobrindo sentimentos universais.
A sensibilidade é conduzida no interior da história, nos acontecimentos que entrelaçam a amizade e que dão sustentação à amizade do trio, em parte porque o apelo é universal e depende do leitor para a projeção de sua própria infância diante das aventuras das personagens. O autor equilibra pontualmente o lado dramático, conduzindo a história pouco a pouco a cada capítulo, enquanto narra os conflitos dos amigos tanto nesta fase pré-adolescente quanto na adulta, mantendo uma continuidade das histórias pessoais.
Representante da nova safra de escritores latino-americanos, a estreia de Axat em terras brasileiras é significativa e sua obra merece ser continuada no país. De acordo com o site de seu editor na Argentina, os direitos do novo romance do escritor já possuem editora brasileira.


terça-feira, 27 de outubro de 2015

Belle Époque de Elizabeth Ross

Elizabeth Ross 
ISBN: 9788576863076
Tradutor: Jorge Ritter
Ano: 2014
Páginas: 294
Editora: Verus
Pontuação: ♥ ♥ ♥   
() Favoritado!
Na Paris da Belle Époque, tudo está à venda — inclusive a beleza. Quando Maude Pichon foge de casa, na provinciana Bretanha, e vai para Paris, seus sonhos românticos evaporam tão rápido quanto suas economias. Desesperada para arrumar um emprego, ela responde a um estranho anúncio de jornal — a Agência Durandeau está em busca de jovens pouco atraentes a fim de fornecer a suas clientes um serviço singular: uma moça sem graça contratada para acompanhar as damas da sociedade e fazê-las parecer mais belas. A condessa Dubern precisa de uma acompanhante para Isabelle, sua voluntariosa filha, e Maude é considerada o adorno perfeito para tornar a moça mais bonita. Isabelle nem desconfia de que sua nova “amiga” foi contratada pela mãe, e a mera presença de Maude entre a aristocracia depende de que consiga guardar esse segredo. No entanto, quanto mais ela conhece e se afeiçoa a Isabelle — uma jovem determinada a desafiar as expectativas da sociedade e a estudar ciências na universidade —, mais sua lealdade é posta à prova. E, enquanto a farsa persistir, Maude terá muito a perder. Belle Époque se passa no auge da boemia parisiense, quando a cidade efervescia, homens e mulheres estavam no ápice da elegância e a moral estava em franca decadência. Esta é uma história de coragem, paixão e desafio que se desenrola sobre o pano de fundo de um dos períodos mais importantes da história da Europa.

Sempre é um desafio começar uma resenha de um livro que mexeu comigo de uma maneira especial. É difícil achar as palavras certas para expressar o quanto gostei da leitura. E Belle Époque é um livro que me fez pensar muito em como iria começar a escrever esta resenha, e conseguir mostrar porque ele foi especial para mim. Não cheguei a uma conclusão, mas mesmo assim vou tentar fazê-los entender porque favoritei o livro e porque gostei tanto da leitura.

Primeiramente, eu adoro livros de época. Quando um livro têm em sua trama aprofundamento histórico eu simplesmente fico totalmente envolvida e imersa na leitura. Acho fantástico ser transportada não apenas para a história do livro, mas também para outra época, e conhecer mais detalhes sobre acontecimentos históricos. Belle Époque tem como pano de fundo, em paralelo com a trama central, a construção de uma das maiores construções do mundo e um dos monumentos mais amados e vistos também: a Torre Eiffel.

Durante o desenvolvimento da trama, Elizabeth Ross nos presentou com comparações sutis usando este monumento para mostrar como a beleza é relativa. A Torre Eiffel não era bem vista, não era querida e era considerada uma monstruosidade que manchava a boa aparência de Paris. Nem dá para acreditar que desprezavam algo que ficou eternizado como o cartão postal da cidade luz. Pois é aí que percebemos que algo que foi considerado feio e ridículo se tornou símbolo de beleza ímpar. Sim, meus caros, a beleza é muito relativa, e é um mero entendimento de quem a vê.

Maude Pichon é uma jovem de 16 anos que foge da Bretanha, atrás de seus mais inocentes sonhos, rumo à Paris. Mas a vida na bela cidade não é tão romântica e bela quanto ela esperava. Lutando para sobreviver e conseguir o mínimo para garantir sua subsistência, ela acaba arrumando um trabalho degradante e desgastante, mas nada que se compare à Agência Durandeau. Lá ela é contratada para ser uma repoussoir, que em uma tradução básica seria:repulsiva. Todas as moças que trabalham lá são contratadas por serem sem graça e até mesmo feias. Assim, sendo contratadas por pessoas da alta sociedade, andam ao lado de mulheres para realçar a beleza delas. Como uma folheta de metal é colocada por baixo de uma joia para realçar seu brilho.

Sendo contratada para um desses serviços, Maude nem imagina que seus sonhos irão alçar voo; que a filha de sua cliente, Isabelle Dubern e as meninas que trabalham junto com ela na agência irão mudar sua vida e o modo como a enxerga. O modo até mesmo como se enxerga.

Cada personagem têm sua personalidade, seus defeitos e qualidades expostos de forma que transcendem a aparência. Eles ficam nus diante de nossos olhos, expostos. Maude, sendo tão jovem e tendo tantos sonhos, acaba se deixando levar e comete alguns erros, mas no fim nos mostra que a força da verdadeira beleza pode superar tudo. Eu também gostei da amizade que se construiu entre ela e Isabelle. Gostei principalmente de Isabelle, que diferente de uma jovem frívola da época, tem sonhos e é ávida por ciência. Além de Marie- Josée que é uma personagem tão meiga e fofa, que supera sua "feiura" com tão bom humor, uma alma tão boa e gentil, que me comoveu em muitos momentos.

Elizabeth Ross teve a ideia de escrever seu livro a partir de um conto, o Les Repoussoirs, de Émilie Zola, onde há um empresário chamado Durandeau que abre uma agência ficcional de moças consideradas feias para poder chamar a atenção para a beleza de suas clientes. Elizabeth resolveu escrever sua história em um importante momento histórico da França. Não só isso, ela nos apresenta uma parte cultural muito importante para o desenvolvimento do livro.

Eu gostei tanto do livro, que tinha a impressão de estar lendo um conto de fadas. O desenvolvimento dos personagens e da história foi magnífico, além da narrativa de Elizabeth Ross que me encantou de várias formas. Acho que a forma como ela escreve foi o que me ganhou definitivamente, pois ela soube como contar uma história cheia de significados, sentimentos e nuances tão belas que você tem que olhar para cada pequeno detalhe e os apreciar, e depois juntá-los e ver que o conjunto formou algo muito especial.

Ao término de Belle Époque havia tantos sentimentos bons dentro de mim que senti como se houvesse feito uma grande amiga, e apreciado uma bela história, que aqueceu meu coração. O final é surpreendente e me agradou muito. Elizabeth nos presenteia com um livro que nos mostra como a beleza vive não pela aparência física ou nos ditames de regras e moda, mas sim em nossos corações. Ótima leitura, uma história tocante e inesquecível.