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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Kurîpî: Itsuwari no rinjin, de Kiyoshi Kurosawa

Creepy (2016)

by ALEX GONÇALVES

.:: INDIE 2016 Festival Cinema ::.
Diretor de cinema desde os 20 anos, Kiyoshi Kurosawa tem atravessado uma fase intensa em sua carreira, lidando com projetos um atrás do outro. Recentemente em Toronto para promover “Le secret de la chambre noire” (coprodução entre Bélgica, França e Japão falada em francês), já regressou para a sua terra natal para as filmagens de seu novo longa-metragem a ser lançado no próximo ano.
Se às vezes o resultado soa como algo feito a toque de caixa, como “O Sétimo Código” (presente na edição de 2014 do INDIE Festival), por outro há muito a ser avaliado e discutido, como se vê em “Creepy”. Mesmo envolto no gênero thriller, Kurosawa faz um estudo psicológico curioso a respeito da deformidade familiar em detrimento do que a princípio soa como um mero mistério de assassinato em série.
Takakura (Hidetoshi Nishijima) decidiu abandonar o ofício de detetive após um episódio traumático. Um ano depois, recebe o pedido de seu colega Nogami (Masahiro Higashide) para investigar o desaparecimento há seis anos de uma família, deixando como único membro e testemunha a jovem Saki (Haruna Kawaguchi).
Ao identificar que o caso é mais obscuro que parece, Takakura acaba negligenciando a sua esposa Yasuko (Yûko Takeuchi), com quem acabou de se mudar para um novo bairro. Paralelo ao avanço das investigações, acompanhamos a rotina solitária e banal de Yasuko, que aos poucos se aproxima de Nishino (Teruyuki Kagawa, sensacional), vizinho instável que vive com uma filha adolescente, Mio (Ryoko Fujino), e a sua esposa enferma.,
Creepy
Paulatinamente, Kurosawa descortina as aparências, por vezes sugerindo que Takakura e Yasuko estão lidando com contextos completamente isolados. E o faz com bom domínio de direção, mais preocupado com a tensão provocado a partir das interações de personagens e a exploração dos cômodos de uma propriedade do que o horror passageiro da violência gráfica.
Uma pena que Kurosawa e o seu parceiro de roteiro Chihiro Ikeda não tenham sido mais cuidadosos nos elementos detetivescos da trama inspirada em um romance de Yutaka Maekawa. Trata-se de um aspecto totalmente negligenciado em “Creepy”, comprometendo por vezes a seriedade e a evolução da história toda vez que um erro primário é cometido por alguém envolvido na resolução do crime central. Um deslize que só vem a ser realmente abafado com a intensidade dramática do ato final.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Rester vertical, de Alain Guiraudie

.:: INDIE 2016 Festival Cinema ::.
Na Vertical (Rester vertical)
Há três anos, o diretor francês Alain Guiraudie havia escandalizado o mundo com o lançamento de “Um Estranho no Lago”. Se grande parte da plateia se mostra pudica com conteúdos adultos, imagine as reações quando o erotismo é explícito e praticado unicamente por homens. Nada que tenha espantado aqueles que legitimam o viés artístico de uma obra. Como o Festival de Cannes, que o selecionou como o melhor na mostra Um Certo Olhar.
Já neste ano, Guiraudie regressou a Cannes com a pompa de quem conseguiu inscrever o seu filme no seleto grupo de indicados à Palma de Ouro. Porém, o seu novo “Na Vertical” foi um dos títulos em competição que mais foi recebido com indiferença, impossibilitando-o de assegurar as mesmas credenciais que “Um Estranho no Lago” para assegurar de imediato uma vida fora do circuito de festivais.
O personagem central da história é Léo (Damien Bonnard), um roteirista com dificuldades em concluir o seu próximo projeto. Em viagem pelo sul da França, ele cruza com o que restou de componentes de duas famílias para lá de pitorescas. Primeiro com Yoan (Basile Meilleurat), jovem que Léo julga ter as feições perfeitas para ser um ator e que vive com o seu avô sem papas na língua Marcel (Christian Bouillette). Depois ele esbarra em Marie (India Hair), que cuida de um rebanho de ovelhas com o seu pai Jean-Louis (Raphaël Thiéry).
Tudo provoca estranheza em “Na Vertical”, seja o modo como Léo faz a primeira abordagem nesses estranhos ou mesmo como se dá a dinâmica de cada acontecimento.  Parece haver em jogo muito mais do que uma mera inversão do que compete a cada gênero, a exemplo de Marie negando a maternidade a partir do momento que engravida de Léo ou como é exposta a vulnerabilidade de homens então viris – poucos momentos neste ano são tão desconfortantes quanto uma cena de sexo jogada no meio da metragem. É um filme dificílimo de categorizar e, por isso mesmo, imperdível.