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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Buoyancy (2018)

O início da trama pode criar uma falsa impressão sobre Buoyancy. Quando Chakra (Sarm Heng) abandona a família pouco amorosa e embarca numa jornada em busca de trabalho precário na fronteira com a Tailândia, sabemos que o futuro não parece muito promissor. O embarque num navio pesqueiro, contra a sua vontade, logo introduz o contexto do tráfico de pessoas e o trabalho escravo moderno. Entre patrões perversos e imigrantes sofredores, embarcamos rumo a um conto sombrio visando alertar o espectador sobre situações humanitárias degradantes.

Aos poucos, felizmente, a narrativa adota rumos mais complexos. Primeiro, por personalizar a massa de trabalhadores através de suas reações distintas ao controle dos donos dos barcos. Enquanto alguns planejam a fuga e outros alimentam um rancor crescente, Chakra busca agradar os sequestradores na intenção de receber um tratamento mais brando. Qual seria a melhor resposta a um comportamento tirânico? A resistência, a conformidade ou o exílio? Além disso, o roteiro revela aspectos menos frágeis do que o garoto parecia ter. Confrontado a situações extremas, ele adota atitudes violentas, muito mais incisivas do que a de seus colegas.



Até quando nós, enquanto público, devemos apoiá-lo? Buoyancy guarda certas semelhanças com outro estudo moral, um tanto mais perverso: Dogville, de Lars von Trier, fábula sobre uma mulher boa provocada até o limite de sua aceitação. Dentro da sala de cinema, o público aplaudia a vingança de Grace (Nicole Kidman), comemorava as mortes encomendadas por ela. Nossa adesão ao protagonista justifica o apoio à vingança? Qual seria o limite para a identificação com o espectador? Afinal, é fácil torcer pelo garoto explorado no início, mas quando toma a situação em mãos, nossa condescendência em relação à barbárie passa a ser questionada pela narrativa do diretor Rodd Rathjen.

Enquanto testa os personagens e os espectadores em seus princípios morais, o filme faz o possível para trazer dinamismo a uma história de ritmo linear, alternando dias e noites dentro da embarcação, quando os trabalhadores executam basicamente as mesmas tarefas: a pesca de pequenos peixes destinados ao uso na indústria de alimentos para animais domésticos. O cineasta sabe transformar o drama de sobrevivência num suspense, à medida que os constantes abusos despertam o desejo de retaliação. O filme consegue sugerir, através dos olhares do protagonista e do espírito de competição entre os próprios trabalhadores, que a situação será superada apenas através da tragédia.



Atenção, possíveis spoilers a seguir!

O resultado se revela uma curiosa fábula imoral, do tipo que deseja homenagear as vítimas de trabalho forçado no Camboja sem vê-las como heróis nem pobres coitadas, apenas sobreviventes de uma guerra adentrada ao acaso. A conclusão da história é de uma amargura rara neste tipo de projeto: logo após para acenar ao final feliz tradicional – estabilidade, reencontro com pessoas próximas – o filme sugere que talvez a vida em terra não seja muito melhor do calvário em alto mar. Chakra foge do ambiente familiar como foge do barco – assim como some do enquadramento, e do nosso olhar. A câmera não o acompanha, talvez por não saber aonde vai. O futuro não é nada promissor ao sobrevivente de apenas 14 anos de idade.

Filme visto no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

CRÍTICA DO FILME : HEAVEN IS FOR REAL de Randall Wallace

Ano: 2014
Título Original: HEAVEN IS FOR REAL
Dirigido por: Randall Wallace
Avaliação: ★★★☆☆ (Bom)
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Baseado em uma história real, em O Céu é de Verdade, Todd Burpo é pastor de uma igreja e tem uma bela família, muito embora esteja passando por dificuldades financeiras (assim como diversos de seus conhecidos). Certo dia, seu filho Colton, o caçula, acaba indo parar no hospital por causa de uma apendicite, quase morrendo. Após a operação, Colton diz que esteve no céu e aos poucos vai soltando informações que contrastam com a religião cristão, o que começa a causar desconforto em toda a cidade, sua igreja e principalmente em seu pai. E agora Todd terá que decidir: seu filho realmente viu o céu ou isso não passa da imaginação dele? Esta decisão norteará inclusive sua própria fé e a de todos ao redor.
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O filme é bom, mas somente começa a prender a atenção depois de passados quase trinta minutos (naturalmente, na criativa de expor toda a atmosfera “pré-revelação”). Um ponto positivo do longa é que ele é capaz de fazer qualquer cristão pensar, assim como Colton faz com todos os adultos do filme.
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Dá a impressão, algumas vezes, que o filme é um pouco mais longo do que deveria ser, ou que ele se foca em fatores que não deveria (algumas cenas poderiam ficar fora do roteiro que não fariam falta, principalmente aquela que não fazem relação com a revelação de Colton). Talvez se o filme mostrasse um pouco mais do conflito que a revelação trouxe consigo, perante a igreja, teria alcançado um pouco mais perfeição.
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Acima de tudo, O Céu é de Verdade é um longa que te faz refletir.

quarta-feira, 1 de março de 2017

[CRÍTICA] Um Limite Entre Nós.

 

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Anos 1950. Troy Maxson (Denzel Washington) tem 53 anos e mora com a esposa, Rose (Viola Davis), e o filho mais novo, Cory (Jovan Adepo). Ele trabalha recolhendo lixo das ruas e batalha na empresa para que consiga migrar para o posto de motorista do caminhão de lixo. Troy sente um profundo rancor por não ter conseguido se tornar jogador profissional de baseball, devido à cor de sua pele, e por causa disto não quer que o filho siga como esportista. Isto faz com que o jovem bata de frente com o pai, já que um recrutador está prestes a ser enviado para observá-lo em jogos de futebol americano.
Indicado a quatro Oscars, a adaptação da peça homônima da Broadway, Um Limite Entre Nós, sustenta-se primeiramente por seus diálogos. Com duração de mais de duas horas, e aparente uso da tática de teatro filmado, fazendo desuso de grande produção, sem seus diálogos marcantes no meio de tanta conversação rotineira o filme não seria nada. Principalmente consolidados pelas atuações memoráveis de seus protagonistas.
Não sou fã do Denzel, inclusive acho que muitos de seus filmes são a mesma coisa com nomes diferentes, mas não há como negar sua atuação impecável no filme. Tomando conta de cada frame, sua presença é palpável; principalmente pelo enredo girar em torno de seu personagem, Troy, típico provedor familiar dos anos 1950 de pensamento retrógrado, onde sua maior responsabilidade é simplesmente suprir necessidades da casa — que não engulo de jeito nenhum, mas não ofusca sua atuação. Sua intensidade e o modo como o personagem é apresentado lhe davam minha sincera torcida pelo Oscar de Melhor Ator, infelizmente não recebido.
Entretanto, a maior estrela do filme é, absolutamente, Viola Davis. Sua personagem, Rose, fica responsável pelo papel de mãe apaziguadora e compreensiva que aceita ficar em segundo plano por seu imenso amor pelo marido e, justamente pelo imenso foco em Denzel, ela agarra cada mísera chance de brilhar com unhas e dentes e alça voo sem precisar de mais nada. No momento em que essa crítica vai ao ar ela já ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, único vencido pelo filme, que, mesmo tendo torcido muito pela Naomie Harris de Moonlight, foi muito merecido.
Um único ponto relativamente negativo é a tradução do título. Se adaptado literalmente de seu original, Fences, chamando-se Cercas, consentiria mais naturalmente com a mensagem proposta. Os conflitos entre Troy e seu filho, Cory, interpretado por Jovan Adepo, giram em torno de ambos construírem um cerca literal em volta da casa onde vivem, e ao longo do filme são apresentadas metáforas ligadas diretamente a isso, que teriam ligação mais proveitosa se bem traduzido.
Um Limite Entre Nós, ou Cercas se concordarem comigo, é a perfeita representação das pessoas comuns. Os ordinários que ficam em segundo plano, os que mais se parecem coadjuvantes em suas próprias vidas. Com muito falatório, interações humanas e, frisando o máximo possível, atuações maravilhosas, este é um filme que evidencia talento acima de tudo. Talvez você não saia do cinema dando muita bola para a história em si, mas, com certeza, sairá maravilhado por esses atore

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Pequeno Segredo, de David Schurmann

Membro da família de velejadores Schurmann, David Schurmann já havia se prontificado a levar para os cinemas detalhes de suas expedições com o documentário “O Mundo em Duas Voltas”. Em “Pequeno Segredo”, Schurmann agora resgata as memórias de seus pais e Kat, sua irmã adotiva, com um registro ficcional não de suas aventuras pelo mundo, mas de um drama particular narrado por sua mãe Heloisa no livro “Pequeno Segredo – As Lições de Kat para Família Schurmann”.
Mesmo o mais desinformado do espectador sabe que o centro da trama é a enfermidade carregada por Kat (Mariana Goulart), pré-adolescente que acredita ingerir vitaminas para controlar uma hepatite. Adotada por Heloisa (Julia Lemmertz) e Vilfredo (Marcello Antony), Kat tem os detalhes de sua concepção recriados aos poucos em “Pequeno Segredo”.
Graduado em cinema e televisão na Nova Zelândia, David Schurmann sugere ter grande afeto por filmes corais, aqueles em que alguns personagens desconhecidos entre si se conectam em uma narrativa não linear. É um desafio gerenciar indivíduos de personalidades distintas em linhas temporais diversas e, mesmo que Schurmann tenha a facilidade de lidar com apenas dois núcleos familiares, há uma regra sagrada não respeitada em “Pequeno Segredo”: o fator surpresa.
Fracassando ao pretender que o “pequeno segredo” nos seja revelado na mesma altura em que Kat descobre o que condenará a sua existência (uma pista jogada no primeiro ato trata de destruir qualquer apreensão que esse mistério provocaria), a condução de Schurmann se sabota na tentativa de respeitar as regras mais básicas da cartilha do melodrama. É um filme que não tem vergonha de admitir que foi feito para emocionar, mas que não sabe até onde apelar para fazê-lo.
Além da estrutura, dessas que ainda lidam com dados do passado já descortinados pelo presente, outro problema grave no filme vem a ser a construção de personagens. O senso de desprendimento dos Schurmann foi substituído por um novo estilo de vida em que Kat é uma prioridade 24 horas por dia. Já os pais biológicos da garota (interpretados por Maria Flor e Erroll Shand) contam com preocupações como o bem-estar próprio e alheio, assim como os dilemas de abandonar ou se manter em seus locais de origem. Tudo para serem descartados quando os Schurmann assumem um protagonismo mais evidente.
Lamentavelmente, o trabalho mais ingrato recai justamente nos ombros da irlandesa Fionnula Flanagan, excelente veterana mais conhecida por filmes como “Mães em Luta” e “Os Outros”, bem como por sua participação especial no seriado “Lost”. No papel da avó biológica de Kat, a atriz precisa se virar com falas desprezíveis e ainda é submetida a uma redenção a partir de um monólogo sobre o que é amar que jamais compramos.
É preciso coragem para tornar pública uma história dolorosa e privada e David Schurmann busca compartilhar a de sua irmã com carinho e ênfase em valores que deseja que o público carregue consigo após a sessão. No entanto, é preciso um amadurecimento que nenhuma credencial para tentar uma vaga no Oscar é capaz de substituir. Talvez fosse melhor ter repassado a história de Kat para outro diretor que não se preocupasse tanto em higienizar a tela e enfeitá-la com borboletas.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Resenha Crítica | Coração Sangrento (2015)

Coração Sangrento (Bleeding Heart)
Bleeding Heart, de Diane Bell
Embora esteja em um relacionamento de muita cumplicidade com Dex (Edi Gathegi) e tenha uma mãe adotiva, Martha (Kate Burton), que a criou com muito amor, há um vazio em May (Jessica Biel) na qual parece incapaz de suprir. A razão é a sua mãe biológica, que sequer conheceu. Os laços familiares deverão ser atados com mais firmeza quando May se apresentar à Shiva (Zosia Mamet), que tudo indica ser a sua irmã que finalmente localizou.
Shiva não é diferente de May somente na idade (é 10 anos mais jovem), mas em todos os demais aspectos. Enquanto May, uma instrutora de ioga, é exemplarmente organizada e pacífica, Shiva é instável e refém de um namorado, Cody (Joe Anderson), que a submete em atividades obscuras. Ainda assim, há em May aquele instinto protetor natural em irmãs mais velhas, recusando-se a recuar diante das ameaças de Cody contra Shiva.
Em seu segundo longa-metragem, Diane Bell acertou ao confiar o papel de May à Jessica Biel, que recentemente vem descartando os papéis de interesse romântico para privilegiar uma verve mais densa. A atriz torna crível a saída de sua personagem na redoma em que vive para resgatar a irmã que mal conhece e cujas verdadeiras intenções desconhece.  Há também espaço para uma fragilidade que dita a fuga de um perigo que a princípio se vê incapaz de enfrentar.
Coração Sangrento (Bleeding Heart)
Também há virtudes no texto de “Coração Sangrento”, que sugere que May também está enclausurada em uma vida na qual a voz masculina é quem assume a liderança de suas ações. Ainda que Dex seja um homem de boa índole, a sua insistência em impedir que May saia dos trilhos de um cotidiano milimetricamente planejado para priorizar Shiva indica que ela nunca teve um poder individual de decisão.
Por tudo isso, não há como não lamentar que “Coração Sangrento” chegue ao seu terceiro ato perdendo toda a sua credibilidade, desfazendo-se de um drama até então muito bem resolvido para apostar na ambiguidade de Shiva e enveredar para um conceito feminista sobre as reações extremas para derrubar uma ameaça masculina. No desejo em elevar as intenções então seguras de seu argumento, Diane Bell as resolve com um tom quase caricatural incompreensível.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Resenha Crítica | Boa Noite, Mamãe (2014)


Ich seh ich seh, de Severin Fiala e Veronika Franz
Representante da Áustria ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro na última edição da premiação americana, “Boa Noite, Mamãe” se aproveita dessa distinção para conseguir uma chance em nosso circuito. Trata-se de um raro exemplar de horror vindo da terra de Michael Haneke. O diretor de “Violência Gratuita” já flertou com o gênero, mas não de modo explícito quanto a dupla Severin Fiala e Veronika Franz, ambos até então mais afeitos a documentários e curtas-metragens.
O roteiro defende a máxima do “menos é mais”. Uma bela mansão situada entre uma floresta e um milharal é o único cenário da narrativa, desenvolvida a partir da perspectiva de dois irmãos gêmeos, Lukas (Lukas Schwarz) e Elias (Elias Schwarz). Interpretada pela excelente Susanne Wuest, a mãe deles é a terceira e última personagem de relevância para a evolução do terror.
Wuest é vista com faixas cobrindo a sua face desconstruída, dando ao seu papel maternal um tom de imposição, daquele que nos fazem temer por suas ações ao ser contrariada. As exigências de silêncio para que possa repousar e se recuperar ampliam o nível de curiosidade de Lukas e Elias, cada vez mais afoitos em explorar os cômodos e entornos da residência em que vivem com o propósito de elucidarem os mistérios sobre a própria mãe.
Com somente esses recursos em mãos, Severin Fiala e Veronika Franz têm liberdade de sobra para concentrar os seus talentos na ambientação. Em alguns momentos, parece que estamos diante de um thriller psicológico. Em outros, alguns elementos sobrenaturais se manifestam. Ainda assim, por mais que isso adie os palpites quanto à resolução do mistério, “Boa Noite, Mamãe” resulta previsível ao não trazer novas possibilidades a essa velha premissa sobre duplos.
Diante da ressalva, o filme consegue se redimir mantendo as virtudes da primeira metade ao passo que potencializa o “jogo” que encera na segunda, com um grau altíssimo de perversidade que corresponde fielmente às fantasias infantis de violência como uma moeda de troca para obter respostas, o que inclui super cola e lupa contra a luz solar como instrumentos de tortura. Eis um caso de um feito que vale muito mais pelo seu empenho gradativo em obter um clima desconfortável do que pela surpresa que ele carrega.

terça-feira, 15 de março de 2016

Sonata de Outono – 1978 (Resenha)



Ingmar Bergman é um diretor sueco que sempre nos presenteia com filmes excepcionais. Carregados de dor, reflexão e uma capacidade nos fazer sufocar diante da tela, a intensidade de seus filmes é algo incapaz de ser colocado em palavras.
sonata de outono ingmar bergman filme resenha
Sonata de Outono é um dos melhores trabalhos do genial diretor. A trama do filme é sobre a relação conflituosa entre Eva (Liv Ullmann) e Charlotte (Ingrid Bergman), mãe e filha que sempre tiveram uma relação fria e distante, e que após sete anos sem se verem, se reencontram e, nesse momento, todos os ressentimentos que estavam até então reprimidos são finalmente expurgados. Tudo é retratado em diálogos tão brilhantemente construídos que cortam na alma.
Charlotte é uma pianista de sucesso, que para conseguir alcançar tal objetivo sempre esteve ausente da vida familiar tanto como mãe quanto como esposa. Altiva e de olhar frio, a personagem de Ingrid Bergman representa uma mulher sem habilidades maternas que deposita na filha a responsabilidade pela expectativa do amor que esta esperava tanto receber. Já a personagem de Liv Ulmann é uma mulher tímida, de gestos infantis, e com seu olhar melancólico demonstra o quanto foi profundamente marcada pela ausência da mãe.
Sonata de Outono, como o próprio nome já diz, possui uma relação direta com a música, sua construção é correspondente a uma composição musical. Bergman, mais do que contar uma história, escreve uma música. A Sonata possui um primeiro movimento allegro, mostrando as cenas da chegada de Charlotte, o encontro desta com sua outra filha Helena, e os preparativos para o jantar; um segundo movimento de tempo mais lento mostra a cena de mãe e filha ao piano, interpretando o Prelúdio nº 2 de Chopin; e, por fim, um movimento de ritmo mais intenso é marcado pela discussão de Charlotte e Eva durante a madrugada, quando todas as mágoas guardadas por anos vêm à tona.
A cena em que Eva e Charlotte interpretam o Prelúdio de Chopin é, sem dúvida, uma das mais belas cenas do cinema. Primeiro Eva toca, enquanto Charlotte a escuta, depois as posições se invertem, mas a mesma música soa, e mãe e filha se relacionam do mesmo modo. É um diálogo mudo entre uma mãe indiferente e uma filha com medo. Charlotte olha para Eva com um misto de decepção e pena diante da falta de técnica com que a filha toca. E então ensina para Eva como se deve tocar: Há dor mas sem parecer. Depois um breve alívio. Mas ele some de repente, e a dor continua a mesma”e ao dedilhar no piano com toda a sua maestria, Eva a observa com amargura, constatando sua aparente derrota em mais uma batalha emocional.
“Será que a infelicidade da filha é o triunfo da mãe? Mãe, será que a minha tristeza é a sua satisfação secreta?”, diz Eva, a filha com uma dor irremediável que se iniciou na infância e a acompanhou por toda a vida. Em contrapartida, diz Charlotte: Eu não queria ser sua mãe. Eu queria que você soubesse que sou tão indefesa quanto você, em uma tentativa de mostrar que ela também é mais um ser humano, que falha e está tão perdida quanto todos nós. Charlotte é uma mulher incapaz de deixar transparecer o que realmente sente, por toda a sua vida fingiu uma alegria que não sentia, e só foi capaz de oferecer aos que estavam ao seu redor um falso amor, e foi em Eva que esse falso amor causou mais danos.
O conflito de Charlotte e Eva não é apenas uma história de desencontro entre mãe e filha, tema tão comum, trata-se de uma questão muito mais ampla, questão esta que é base para quase todos os filmes de Bergman, o fato de sermos todos analfabetos emocionais, uma vez que ignoramos nossas próprias emoções, as mascaramos, nos escondemos, e por esse motivo não sabemos nos relacionar com os outros, chegando, por vezes, a só conseguir nos relacionar por meio de rituais de humilhação, como o que Charlotte impõe à Eva. Será assim com todo mundo? Ou será que alguns têm mais talento para viver que outros? Ou será que alguns jamais vivem, mas apenas existem?” Esta é uma das tantas reflexões que o filme nos deixa, mesmo depois de já tendo, há muito tempo, terminado.
Este é um filme sobre amor, sobre ódio, sobre medo, culpa e perdão, ou a impossibilidade deste. É um filme para se ver e rever. Com uma fotografia e direção de arte primorosas, atuações magníficas e diálogos de tirar o folêgo, Sonata de Outono é o cinema na sua forma mais pura. Ingmar Bergman prova mais uma vez o porquê de ser conhecido como o maior desbravador da alma humana.
Veja também:


9.3ÓTIMO
Uma obra-prima que vale a pena ser vista pela aguçada sensibilidade com que trata uma devastadora relação entre mãe e filha; por ser o único filme de Ingrid Bergman com seu compatriota Ingmar Bergman; e por conter uma das melhores atuações de Liv Ullmann, uma das maiores atrizes da história do cinema.

fonte: http://www.cantodosclassicos.com/sonata-de-outono-1978-resenha/

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Resenha Crítica | Brooklin (2015)


Brooklin (Brooklyn)
Brooklyn, de John Crowley
Estima-se que 10% da população dos Estados Unidos é composta por irlandeses. A comunidade de imigrantes veio com o período colonial no país no século XVI, sendo ampliada com o período batizado como “a grande fome”, ocorrida de 1845 a 1849, e a vinda do século XX. Mesmo em uma nação com os seus preconceitos imutáveis, os irlandeses ainda assim conseguiram o seu lugar ao sol, com mãos trabalhadoras que colaboraram para o progresso dos americanos e o compromisso de prosperarem com o ingresso em universidades.
Como bem ilustra o diretor John Crowley em “Brooklin”, por meio do roteiro da autoria de Nick Hornby (baseado no romance homônimo de Colm Tóibín), essa fatia de cidadãos ainda foi capaz de driblar o trabalho exaustivo e quase ininterrupto para manter viva algumas tradições, como as missas e os festejos. Ainda assim, é o dilema da protagonista Eilis (Saoirse Ronan) que ganha ressonância: a indecisão em fazer a vida na Irlanda natal ou nos Estados Unidos.
Atendente em uma pequena mercearia, Ellis recebe a oportunidade de um padre também irlandês (interpretado por Jim Broadbent) para morar em uma hospedaria do Brooklin enquanto trabalha em uma loja de departamentos e estuda contabilidade. Ela diz sim a proposta com uma grande dor no coração, pois precisará deixar para trás a irmã mais velha (Fiona Glascott) e a mãe viúva (Jane Brennan), duas pessoas que sempre a tiveram como um pilar para manter as suas estruturas emocionais.
O processo de adaptação se dá de modo esperado. Nas primeiras semanas, Ellis chora e tem o desejo em escrever cartas todas as noites antes de dormir. No entanto, logo enxerga as pequenas maravilhas ao seu redor, retribuindo-as com um sorriso franco. É com ele que conquistará Tony (Emory Cohen, em uma interpretação irresistível lamentavelmente ignorada na atual temporada de prêmios), filho de imigrantes italianos esforçado em liderar um pequeno empreendimento e de construir a sua própria família.
É possível que desde Rachel McAdams e Ryan Gosling em “O Diário de Uma Paixão” que não vemos um casal tão agridoce em um romance de época e “Brooklin” cresce a cada cena em que Saoirse Ronan e Emory Cohen contracenam juntos. Também como nas grandes histórias de amor, surge uma fatalidade que ameaça uma união e Ellis se vê novamente na Irlanda após uma perda que a faz priorizar a atenção para a sua inconsolável mãe.
Vem assim a segunda metade de “Brooklin”, no qual Ellis constata em seu regresso um lugar com novas cores e possibilidades. É a história reprisando o que já havia estabelecido, mas sem o efeito encantador e com movimentos programados demais, como a vinda de Jim (Domhnall Gleeson) como um interesse romântico sem qualquer química com Ellis. De qualquer modo, o filme (e Saoirse Ronan) não deixa de nos mover, especialmente ao compreender o lar como uma conquista que carrega todas as amarguras dos desapegos que precisamos nos sujeitar para progredir.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Resenha Crítica | Expresso do Amanhã (2013)


Expresso do Amanhã (Snowpiercer)
Snowpiercer, de Joon-Ho Bong 
Ah, se tivéssemos mais filmes como “Expresso do Amanhã” no cinema pipoca… Adaptação de “O Perfuraneve”, história em quadrinhos publicada pela Editora Aleph no ano passado, o filme de Joon-Ho Bong é constituído de tudo o que falta neste cenário atual amontoado de projetos da Marvel: um sentimento genuíno de ameaça, uma fórmula que nos leva a caminhos imprevisíveis e todas as excentricidades que a mídia de origem tem direito.
O perfuraneve abriga os últimos sobreviventes da Terra, tomada por uma era permanente de gelo. Em suas divisões traseiras, o perfuraneve abriga a classe menos favorecida, reduzida à escravidão por uma tropa de soldados que responde às ordens de Mason (Tilda Swinton). Com a situação intolerável, Curtis (Chris Evans) lidera uma rebelião com a intenção de dominar a ponta frontal do perfuraneve.
Com muitos sacrifícios, Curtis, acompanhado por Edgar (Jamie Bell), Tanya (Octavia Spencer), Andrew (Ewen Bremner), Grey (Luke Pasqualino), Minsoo (Song Kang-ho), Yona (Ko Ah-sung), entre outros, descobre que se estabeleceu na estrutura vertical uma nova sociedade dividida pelo seu poder aquisitivo, com cada divisão sendo adornada por luxos e privilégios superiores ao anterior. Assim como há também um “deus” representado por um indivíduo enclausurado na cabine de controle.
Realizador de “Memórias de Um Assassino”, “O Hospedeiro” e “Mother – A Busca Pela Verdade”, Joon-Ho Bong faz o seu primeiro filme falado em inglês sem em nenhum momento ceder as convenções da indústria americana. Além das filmagens em um estúdio da República Checa, seu elenco é formado por intérpretes de várias nacionalidades e raças, dando credibilidade a sua visão de organização de mundo e de seus habitantes como marionetes de uma força maior.
Claro que os irmãos Weinstein (sempre eles) não compreenderam o potencial de “Expresso do Amanhã”, adquirindo os direitos de distribuição no mercado internacional com sugestões de mudanças, como a extração de 20 minutos de material do corte final e a adição de monólogos. Joon-Ho Bong bateu o pé, transformando “Expresso do Amanhã” em um sucesso estrondoso na Coreia do Sul e um filme disponível aos americanos somente no circuito de arte e em plataformas de vídeo sob demanda. Um detalhe que não impedirá “Expresso do Amanhã” a atingir o status de cult.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Resenha Crítica | O Quarto de Jack (2015)

O Quarto de Jack (Room)

Room, de Lenny Abrahamson 
No início de “O Quarto de Jack”, temos uma jovem (Brie Larson) e o seu filho Jack (Jacob Tremblay) confinados em um quarto sem janelas e com uma porta somente destravada com o dígito correto de seu segredo. Somente uma claraboia permite a passagem de luz e todos os cômodos de uma residência, como a cozinha e o banheiro, estão compactados neste ambiente com aproximadamente cinco metros quadrados.
A sutileza em como esse minúsculo cenário é explorado, bem como os personagens que ele habitam, já sugere o que é preciso saber sem que isso precise ser claramente verbalizado. Há aqui uma mulher vítima de um sequestro sem solução, suportando há sete anos um cativeiro com um filho que acaba de completar cinco. O único contato com o mundo exterior é uma televisão que perturba a imaginação de Jack, bem como o Velho Nick (Sean Bridgers), o responsável pelo cárcere.
Cineasta irlandês, Lenny Abrahamson parece ter se renovado em “O Quarto de Jack” em comparação ao mediano “Frank”. Principalmente ao confiar em Emma Donoghue para adaptar o seu próprio romance, “Quarto”, publicado no Brasil pela editora Verus. Toda a descrição necessária à literatura é suprimida para atender a uma linguagem que prima por estratégias para enriquecer personagens e os recursos visuais que o contexto permite.
Dito isso, Abrahamson consegue criar em “O Quarto de Jack” dois momentos que se correspondem a partir de divergências. Um universo de possibilidades foi criado na convivência solitária no “quarto” enquanto o “mundo lá fora” sufoca, gera grandes proporções a explosões emocionais que surgem com o trauma e a dificuldade de readaptação.
É preciso um elenco exemplar para dar conta desse turbilhão de contradições. É o que se vê em William H. Macy como um avô que se nega a reconhecer o seu neto, em Joan Allen em preservar a gentileza que de algum modo condenou a sua filha e em Brie Larson, quase tão intensa quanto em “Temporário 12”, ao comprovar que o papel de mãe é um pilar que precisa sustentar mesmo diante de sua ruína.
Ainda assim, é o pequeno Jacob Tremblay quem realmente move “O Quarto de Jack”. A sua vulnerabilidade, a princípio preservada com o colo materno, os óculos escuros e as máscaras, aos poucos dá lugar para aquela curiosidade de quem está assimilando novos códigos e as novas figuras que o rondarão. É na inocência de Jack que esta versão ficcional de tantas histórias reais consegue reascender aquela luz de esperança tão necessária após uma tragédia pessoal tão difícil de desvincular.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Deus da Carnificina (Carnage)

por 

Como disse Sartre "o inferno são os outros". E em "Deus da Carnificina" o polêmico diretor Roman Polanski oferece a oportunidade de apreciarmos uma visão hilária deste inferno, uma tarde qualquer que se transforma na mais profunda, exaustiva e angustiante troca de ofensas entre seres humanos.

Logo nos créditos iniciais vemos um grupo de crianças em uma pequena discussão, quando uma delas acerta o rosto da outra com um pedaço de pau. Diante do acontecido, os pais destes dois garotos decidem resolver as coisas amigavelmente, se encontrando para discutir o assunto, seguindo uma conduta madura e civilizada.

Reproduzindo então uma espécie de versão estilizada de "O Anjo Exterminador" (de Luis Buñuel), a história faz do local de encontro uma prisão da qual ninguém consegue sair. Mas o motivo deste "impedimento", de deixar o ambiente, não é surreal, ele se deve ao acaso: um convite para o café na hora da despedida, o celular que não funciona no elevador, um importante argumento que merece maior atenção antes do adeus. Temos então o palco.


No início, todos adotam sua primeira face, aquela exibida diariamente e que pouco representa quem realmente são. 
Com o passar das horas, e com as ofensas deixando o nível indireto, eles começam a se atacar agressivamente, mas não em duplas fixas, mas sim alternando parcerias. Hora mulheres se revoltam com os homens, então os mesmos se unem e debocham delas, daí ficam todos contra todos. Porém, o clima fica realmente tenso quando os casais começam a expor seus problemas íntimos de forma confessional.


Com um texto imensamente criativo - baseado na peça teatral francesa "Le Dieu du Carnage", de Yasmina Reza (que assina o roteiro em parceria de Polanski) -, temos excelentes personagens, construídos com grande atenção aos detalhes. Os relacionamentos são esmiuçados de maneira auspiciosa, uma análise que explana aspirações artísticas, fobias de seres rastejantes, modelos de conduta, ativismos latentes, hipocrisias, qualidades, defeitos - até mesmo os apelidos afetuosos são jogados na mesa (uma das melhores piadas, aliás).

E fica exclusivamente nas mãos dos quatro atores guiar o filme, que não sai da sala de estar (eles no máximo vão até cozinha ou ao banheiro). Começamos por Jodie Foster, que interpreta Penelope Longstreet, a mártir do grupo. A ideia do encontro foi dela, pois sua crença na pacificação dos homens é forte, contanto que ela seja reconhecida como vítima da situação, fato que não afirma logo de cara. Seu marido Michael é interpretado por John C. Reilly, ótimo ator que encontra o tom exato para este fantoche ambulante, que apesar de suas frustrações escondidas se mostra o mais humilde e honesto de todos.

Christoph Waltz surge excepcional como Alan Cowan, um advogado do diabo (na verdade, da indústria farmacêutica, praticamente um sinônimo) que passa o tempo inteiro interrompendo discussões para falar ao celular. É o mais inteligente, articulado e inescrupuloso dos quatro. E fechando temos a bela e talentosa Kate Winslet com sua Nancy, uma mulher condescendente e inevitavelmente falsa. Apesar de tentar ser racional e parecer bondosa, seu caráter é revelado após alguns goles do mais puro malte. Na verdade, a bebida acaba sendo de fundamental importância para esse festival de inconveniências.


No final, "Deus da Carnificina" apresenta uma sinceridade assustadoramente hilária vinda dos casais, um show de banalidades entre estranhos. Eles perdem as estribeiras, suas veias saltam à testa, mágoas profundas são literalmente regurgitadas, ressentimentos, palavrões, tudo abastecido por um pouco de álcool e muita raiva reprimida.

Vale lembrar que esta mesma peça ganhou uma adaptação brasileira, dirigida por Emílio de Mello, com a participação de Deborah Evelyn, Julia Lemmertz, Orã Figueiredo e Paulo Betti.



Deus da Carnificina/ Carnage: França, Alemanha, Polônia, Espanha/ 2012/ 80 min/ Direção: Roman PolanskiElenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly, 

domingo, 27 de dezembro de 2015

Expresso do Amanhã (Snowpiercer)

por 


#Viagem ao fim dos tempos

Todos foram alertados de que um dia poderíamos sofrer com a degradação de nosso meio ambiente. Sendo assim, irremediavelmente, a mãe natureza se tornou impiedosa, e o resultado desta fúria – combinada com estratégias científicas completamente equivocadas – foi o congelamento total do planeta Terra e a quase extinção da raça humana. Quase. Os poucos sobreviventes não tiveram outra escolha senão embarcar como tripulantes definitivos do gigante trem batizado como Snowpiercer, uma verdadeira maravilha da engenharia moderna. 


Estamos falando de uma locomotiva auto-suficiente, forte o bastante para furar seu caminho por entre o gelo que domina tudo. Não existem estações para o Snowpiercer, ele se move sem parar, eternamente alguns diriam. Quando completa seu trajeto (um círculo disforme ao redor do globo), todos a bordo celebram com palmas mais um aniversário, 365 dias. E é mais ou menos dezoito voltas depois de sua derradeira partida que a história do Expresso do Amanhã se inicia.




Este trem representa a humanidade, uma nova humanidade, e também a única que resta. E como é de costume dos homens, separações de classe devem existir – nada mais apropriado para o meio de transporte em questão. Sendo assim, o Snowpiercer se transmuta em uma espécie de gráfico horizontal, que resume perfeitamente nossa raça humana: na frente vai a primeira classe, formada por centenas de pessoas que não se importam com as milhares de pessoas dasegunda classe, estas localizadas na cauda do trem. Classes nunca se misturam. Ninguém de trás sabe como é a frente e vice-versa.


Neste confinamento existencial, o famoso engenheiro Wilford 
 criador da milagrosa locomotiva auto-suficiente, mestre recluso e mítico  se tornou um novo papa a ser adorado, o pai fecundador do motor eterno. Seu trabalho é preservar e resguardar a santa peça de metal. Ele foi um dos principais idealizadores desta racional ideia: dar esperanças a raça humana.



Nossa primeiro contato, como audiência, é com a segunda classe, cuja simples concepção de vida provoca calafrios. Todos os dias os tripulantes desafortunados são contados e doutrinados pelos lacaios da primeira classe. Eles recebem sua alimentação de forma controlada, uma barra gelatinosa de cor preta e de aspecto asqueroso. Uma deliciosa iguaria proteica feita de... bem, nem queira saber do que ela é feita. 


Submissão é palavra de ordem para a segunda classe. Punições severas desmembram de forma simbólica aqueles que se opõem. Houve revoluções anteriormente, e muitos perderam a vida para que o controle deste status quo se mantivesse. Mas para o passageiro Curtis, um novo levante é mais do que necessário.


Sendo assim, a desafiadora progressão dos sobreviventes da cauda até o santo motor, e a problemática transformação de Curtis em um novo líder, se revelam as bases fundamentais do eficiente roteiro do longa, talhado de maneira inspirada por Kelly Materson e o diretor sul-coreano Bong Joon-Ho. A obra é uma adaptação da HQ Le Transperceneige, de Jacques LobBenjamin Legrand e o ilustrador Jean-Marc Rochette – tendo este último colaborado com o filme, provendo os retratos que servem como importantes arquivos históricos do Snowpiercer (veja mais aqui.)



Expresso do Amanhã é um Sci-Fi genial. A direção arrojada de Joon-Ho faz da experiência algo memorável. A mistura multicontinental dos envolvidos na produção, oferta uma personalidade distinta, com os exageros romantizados do cinema oriental se misturando ao realismo asséptico do cinema europeu. E de quebra, o protagonista é o Capitão América, conhecido também como Chris Evans. O ator entrega sua melhor interpretação até então, o que não deixa de ser uma surpresa. 


Na verdade, todo o elenco é uma grata surpresa. Temos grandes participações de atores como Jamie Bell, John Hurt, Octavia Spencer, Alison Pill, Ed Harris e Tilda Swinton, sendo esta última destaque absoluto dentro do eficiente grupo.

Enfim, o resultado alcançado foi sensacional. Expresso do Amanhã é um passeio sangrento por vagões que escondem segredos revoltantes e mortais. A cenografia consegue reproduzir com perfeição a claustrofobia suja do fundo do trem, sempre abarrotado de pessoas. As câmeras de Joon-Ho desfilam com precisão por corredores estreitos e cantos apertados, tudo com extrema maestria, desviando de balas e machados, dividindo pouco espaço com dezenas de figurantes. E mesmo diante de tamanha destreza cinematográfica, é o sombrio, violento e criativo cenário apocalíptico o melhor de tudo. Uma imagem desfigurada, mas ainda sim realista, do que é nossa sociedade hoje e sempre.Recomendado.






Expresso do Amanhã/ Snowpiercer: 2013/ Coreia do Sul, EUA, França, Repúlica Tcheca/ 126 min/ Direção: Bong Joon-Ho/ Elenco: Chris Evans, Jamie Bell, John Hurt, Octavia Spencer, Alison Pill, Ed Harris, Tilda Swinton