segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

[Resenha] De Volta à Caixa de Desejos

De Volta à Caixa de Desejos - Ana Cristina Melo
Se em A Caixa de Desejos, livro que precede esta obra, acompanhamos Marília na transição da infância para a adolescência, em De Volta à Caixa de Desejos, o tema de certa forma se repete, quando, no fim do ensino médio, ela inicia sua passagem para a vida adulta. Marília permanece apaixonada por literatura e, seguindo o conselho de seus pais pensa em prestar vestibular para jornalismo. O momento também é decisivo para Francine, que após o término do casamento de sua mãe tem que decidir se permanece em Paris ou volta para o Brasil.
Porém, não são só as preocupações com seu futuro profissional que vem tirar o sono de Marília. Quando seus pais começam a se desentender, a protagonista vê o equilíbrio do seu mundo ameaçado. Soma-se a isso um namorado ciumento e a chegada de Joca, um possível novo interesse amoroso, ampliando seus horizontes. São tantos os conflitos que fica impossível não recorrer a sua caixa de desejos, uma maneira de conectar-se também com sua avó Laurinda, de quem sente tanta falta.
No primeiro livro fui totalmente conquistada pela forma simples e poética em que o luto da protagonista é explorado e em como ela se vê às voltas com os sentimentos e emoções de outras pessoas, enquanto tenta administrar seus próprios medos e frustrações. Apesar da melancolia que percorre a obra, a história é contada de forma leve, e a brevidade dos relatos deixa nas entrelinhas muitos dos sentimentos, o que funciona bem por se tratarem de situações tão universais. Se os detalhes de cada história pessoal são únicos, os anseios e temores do amadurecimento são universais.
Em sua continuação, a autora mantém o mesmo tom, porém com o universo já estabelecido fica mais fácil desenvolver melhor a história. Apesar da protagonista estar mais velha, a narrativa continua sendo contada para a mesma criança que leu a obra anterior, incluindo os temas da adolescência que parecerão tão adultos para a mesma de forma delicada: paixão, namoro, ciúmes, vestibular, tudo parece envolto em uma certa magia. Ana Cristina Melo acerta em não incluir uma grande lição como cerne de sua história, passeia por temas de interesse para seu leitor, e nos oferece uma deliciosa narrativa mostrando que a maior aventura da vida é crescer.

[Resenha] O Pântano das Borboletas – Federico Axat

Por 

O Pântano das Borboletas - Federico Axat
Segundo romance do argentino Federico Axat, O Pântano das Borboletas marca sua estreia no país em edição lançada pela Tordesilhas em 2014. Sucesso em seu país natal e bem recebido pela crítica, o ator é apontado como um misto de Rudyard Kipling e Mark Twain pela boa composição e inventividade narrativa, elogios que intentam demostrar que, mesmo para um romancista de pouca carreira, a prosa é consistente.
O romance se situa na pequena cidade americana de Carnival Falls, acompanhando um trio de amigos no ano de 1985, época em que tinham 12 anos de idade e compartilharam juntos descobertas e um deslumbramento ainda inocente pelo mundo. A narrativa evoca a memória comum a todos que passaram por esta fase, em uma vertente nostálgica transformadora deste tempo de aprendizado.
A história se desenvolve tanto nesta fase como dá um salto temporal de 20 anos, momento em que o público percebe que o livro é uma narrativa de memórias de um personagem-autor que retorna a sua infância para narrá-la em um romance. Estes dois espaços temporais se alternam com poucas conexões entre si e elevando o suspense. Axatar domina com perfeição o ritmo narrativo, sabe expor com precisão os acontecimentos, bem como encerrá-los ou desenvolver lacunas necessárias para o desenvolvimento da história. E assim leva o público a muitos acontecimentos que parecem definitivos para desmistificá-los em seguida.
Como parte da trama se desenvolve na pré-adolescência, a obra flerta com o fantástico e mantém a dúvida se tais acontecimentos, que seriam de difícil aceitação no mundo real, são parte da criatividade da infância ou uma maneira pela qual os jovens retiveram na memória momentos traumáticos, afinal, o tempo transforma a fluidez da memória. As personagens não são poupadas da violência do mundo e de mudanças internas e físicas em si, descobrindo sentimentos universais.
A sensibilidade é conduzida no interior da história, nos acontecimentos que entrelaçam a amizade e que dão sustentação à amizade do trio, em parte porque o apelo é universal e depende do leitor para a projeção de sua própria infância diante das aventuras das personagens. O autor equilibra pontualmente o lado dramático, conduzindo a história pouco a pouco a cada capítulo, enquanto narra os conflitos dos amigos tanto nesta fase pré-adolescente quanto na adulta, mantendo uma continuidade das histórias pessoais.
Representante da nova safra de escritores latino-americanos, a estreia de Axat em terras brasileiras é significativa e sua obra merece ser continuada no país. De acordo com o site de seu editor na Argentina, os direitos do novo romance do escritor já possuem editora brasileira.


[Resenha] Caixa de Pássaros – Josh Malerman

Por 

Caixa de Pássaros 1
Mesmo no preâmbulo da história contida em Caixa de Pássaros, não há qualquer menção a tranquilidade. O romance de Josh Malerman utiliza seu ponto de partida como um lugar comum onde a tensão e sensação de tragédia coabitam harmoniosamente, interferindo nos desígnios e prospectivos de vida de Malorie e seus dois filhos. O senso de urgência faz a família fugitiva estar apta para sobreviver, mesmo os infantes sabem exatamente o que fazer, e não demoram a sair da letargia e partir para ação. Tal perspectiva rasga o coração da mãe, que enxergava no comportamento de seus filhos, o ideal de curiosidades com a vida, e não necessariamente o temor por ela.
O estado do mundo é calamitoso, e aos poucos revelados. O que se sabe no início do conto é que uma violência atroz acomete os humanos que cruzam as ruas sem vendas nos olhos, com atos de violências capazes de causar morte, tumulto e muitos atos de ódio. Após morar um tempo em uma casa abandonada, a beira do lago, Malorie deseja alcançar um lugar seguro, um refúgio, chamado de santuário, mas que está distante demais de sua localidade atual.
No convívio com outros homens é demonstrado que sua paranoia de Malorie não é algo isolado, ainda que o perigo que os cerca seja ainda não revelado, permanecendo na mente do leitor como um vulto, distante de ganhar contornos reais. O perigo prático deles incorre sobre a dificuldade em manter suprimentos, especialmente aos que sofrem de vícios com bebidas e cigarros, já que em estado de sítio, achar tais bens torna-se uma hercúlea tarefa. Quase tão assustador quando a ação das criaturas, é a condição de completo abandono das cidades e lugares antes habitados. A descrição que Malerman exibe, descreve um retrato semelhante a aridez que predomina em outros cenários póstumos ao fim da civilização, como Mad Max, Livro de Eli e Eu Sou A Lenda, piorado e muito pelo protagonismo materno, que teme por si e principalmente por seus herdeiros, lamentavelmente lançados em um ambiente hostil demais.
As tentativas de fuga deixam marcas nos personagens, mesmo quando são bem sucedidos. Os hematomas que causam dor nos membros inferiores servem como lembrete da mortandade que se aproxima. A catástrofe paira sobre a cabeça das personagens, usando a gravidez de Malorie como função narrativa para aumentar a urgência na tentativa de escapar daquele cenário hostil, piorando a situação quando um parto se vê prestes a acontecer.
Caixa de Pássaros se baseia em um terror evocando uma estranha criatura, que ajuda a tornar ainda mais ambíguo o sentimento materno, já que as intenções do “monstro” também são ligadas ao cuidado da cria. O conjunto de alegorias é muito grande, apesar de óbvias, especialmente no que tange o uso das vendas oculares para salientar a alienação do mundo, tanto o particular do livro de Josh Malerman, quanto com a sensação de que o perigo não mais habita a rotina dos personagens, mas que pode retornar a qualquer momento, paralelo fundamental com a realidade contemporânea, em especial a cenários reais que já tiveram em situações catastróficas.
Nota:

[Resenha] Memórias do Esquecimento – Flávio Tavares

 Por 

Memórias do Esquecimento - Flávio Tavares
Narrado em primeira pessoa pelo ativista, preso político em três oportunidades, comunista “subversivo” e banido junto ao grupo de 15 prisioneiros trocados pelo embaixador americano que foi raptado pelo movimento MR-8, Memórias do Esquecimento serve como desabafo literário do escritor que só retornaria a sua terra natal dez anos depois de exílio, só angariando coragem para escrever suas memórias após 30 anos de todos os acontecimentos e sofrimentos impingidos a si. Flávio Tavares não poupa seu leitor da crueza e crueldade dos torturadores e nem salva seus colegas de expor as suas tolas e irreais ilusões de mudar o mundo.
Antes de começar seus capítulos, falando franca e diretamente ao leitor, ele se preocupa em sempre deixar uma citação de algum pensador ilustre, para embasar e testificar o seu testemunho. Já na introdução ele contesta qual a real necessidade de retomar as memórias daquela vivência marginal, e a resposta para tal indagação é respondido ao longo dos capítulos. Parte do que ele lamenta é ter de enfrentar toda a avalanche de emoções, pela qual ele passa, em silêncio absoluto, sem voz ativa, castrada da possibilidade de contestar seu estado.
A imersão no cotidiano de Tavares é muito fácil de ser estabelecida, pois sua escrita é docemente envolvente, repleta de situações rotineiras que facilitam a identificação, além de demonstrar facilidade do autor em transmitir sentimentos e sensações. Seu sofrimento é passado ao leitor, e um exemplo disto é como Tavares descreve uma tremedeira, não causada pelo frio, mas pela temeridade em repetir os maus agouros que já tinha vivido. Rememorar era exercício de dor e a empatia gerada por seu “relatório” é muitíssimo exitosa em causar desconforto no analista. A temeridade e o medo são tão grandes que qualquer som estranho o faz remeter aos torturantes momentos de cárcere, os quais viveu e dos quais jamais esquecerá, mesmo com o título da publicação – o esquecimento certamente seria um alívio para a mente cansada e para a sua alma aflita. Tais episódios servem de aliterações, nas quais o autor conta, em detalhes desagradáveis e por vezes escatológicos, os meandros de suas estadias na prisão política, assim como os detalhes das sessões de tortura que sofreu. A ideia das torturas, segundo o jornalista, era triturar física e emocionalmente o preso, destruí-lo e chegar muito perto da morte, mas sem alcançá-lo, de um modo que o sujeito envolvido até desejasse que sua vida findasse.
Os detalhes do embate ideológico que viria a rachar o PCB (Partido Comunista Brasileiro) são explicitados, inclusive sendo citadas as saídas de Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira por estes optarem pela luta armada ao invés do engajamento mais teórico.
Apesar de muitas dificuldades em conseguir informações dentro dos presídios, havia formas de conseguir ouvir os noticiários, que davam conta do rapto do embaixador americano Charles Elbrick. A fonte de informações também trazia maus agouros, como a morte de companheiros de luta. Mesmo com toda a truculência e violência que sofriam e que os tornava mais cascudos, os militantes ainda sentiam demais a queda de seus semelhantes, também por temerem que aquele destino fosse o deles..
Por estar entre o grupo de libertados, chamados de os “15”, ele tinha informações privilegiadas sobre os segredos e meandros do rapto do embaixador. As informações registradas evidenciam o baixo nível de organização dos grupos, além da clara falta de estrutura destas células. O embaixador declarou que foi muito bem tratado pelos capiturantes e que eles eram “jovens idealistas”. Nas entrelinhas há uma afirmação de que os militantes estavam muito mais preparados para morrer do que para matar. Esse ponto de vista certamente não era somente dele, mas de muitos dos analistas da ação dos revoltados.
A segunda parte começa com duas citações das mais emblemáticas no sentido da luta entre esquerdistas e militares: “Aquele que se opõe a uma ditadura tem de aceitar a guerra civil como meio de derrubar a ditadura. Aquele a quem repugna a guerra civil deve desistir da oposição e aceitar a ditadura” a frase de Arthur Koestler mostra como funcionava a cabeça de muitos opositores do governo, a outra, “Um dia vai haver uma guerra grande neste sertão. Uma guerra sem a cegueira de Deus e do Diabo“, do cineasta Glauber Rocha seria profética. Em Brasília, Tavares acompanharia em 1964 a saída de Jango do Palácio do Planalto sem conseguir sequer preparar suas malas decentemente, amedrontado e sem o mínimo de dignidade. Suas afirmações vai na direção de desmentir o argumento de que a tomada do poder foi leve e tranquila, afirmando que já de início o tratamento dado para quem discordava destes era truculento, violente e sem espaço para dignidade. Depois disso, “a rosca do parafuso enroscaria ainda mais”, segundo o autor. O cerco aumentava cada vez mais, gradativamente as reprimendas tornavam-se mais e mais humilhantes e agressivas.
Com 30 anos de idade, o autor não via nenhuma saída que não incluísse uma postura contestadora mais firme, chamada por este de “reação moral”. O capítulo Os Conspiradores ganha como introdução uma emblemática frase de Gaston Bachelard: “Querer o esquecimento é a maneira mais aguda de se recordar“. O escritor discorre sobre a ideia, ainda em 1964, de derrubar o recém instituído poder, mas todo o planejamento era tosco, mal organizado e nada profissional. Os militantes deveriam viajar para a URSS, para fazer cursos – de alcunhas curiosas como Curso Stálin e Curso Lênin – mas não o faziam até por falta de verba. Os contatos com os exilados eram complicados: Jango no ano de 1965 residia em Montevidéu e somente se envolveu na militância ajudando a alocar os exilados. Leonel Brizola manteria uma granja onde os rebeldes plantariam tomates e receberiam uma preparação psicológica para mais tarde serem instruídos em combate. Implantar o foco guerrilheiro consumiu dois anos.
A tortura é relembrada em muitos momentos, e no capítulo O Atentado é discorrido o absurdo de tratar tal postura como invenção e em incorrer a culpa desta aos vitimados, que receberiam o tratamento graças a sua insubmissão. A lógica seria “destruir o prisioneiro e tornar natural o medo”. Primeiro se tortura ou se ameaça, o que vai contra o atual discurso de alguns de que os militares só teriam “quebrado umas unhinhas” dos comunistas.
A parte em que Flávio descreve a dor de sua filha Isabela é absolutamente emocionante. A dor causada pela separação do exílio só não era maior que a dúvida a respeito de qualquer retaliação a si que envolvesse a sua herdeira, visto que, em uma das torturas, tal possibilidade foi cuspida por seus agressores. A distância entre uma bravata dita simplesmente para amedrontar, em comparação com uma séria ameaça, não era totalmente clara na cabeça de Tavares, já que a situação mexia com a parte passional de sua mente, combalida demais para raciocinar tranquilamente a despeito de toda essa situação.
O exílio marcou muito a vida  do autor, desde o início deste período e a vontade de retornar a sua terra, até o sequestro que sofreu em terra estrangeira. Apesar de todo o cunho pessoal em seu livro, o jornalista diz que em seus últimos capítulos não tentou fazer qualquer julgamento meritocrático nas ações suas e de seus “inimigos”; seu papel era só relatar suas vivências.
Em determinado ponto ele assume que a sua linha de pensamento era utópica demais, e que a luta dos manifestantes jamais viria de encontro à realidade. Já terminando o livro, o autor assume que a sua revolta começou ao conhecer Che no Uruguai, em 1961. Lá em Punta Del Leste, ele fotografaria um frágil asmático que trajava uma jaqueta verde-oliva e que teria em seu semblante muito significado, mais do qualquer tanque do regime brasileiro. Seria naquele mesmo Uruguai que o jornalista “cairia” e consequentemente veria sua primeira morte, e onde começaria as memórias que ele tanto queria esquecer.
Nota:

[Crítica] Como Sobreviver a um Ataque Zumbi

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Se valendo da recente zumbiexploitation e apelando para uma qualidade de humor leve poucas vezes tão bem construída, Como Sobreviver a um Ataque Zumbi começa anedótico e escrachado, com uma introdução mostrando o início da contaminação, em um hospital, debochando do conceito de marco zero, geralmente usado em teorias relacionadas ao apocalipse dos mortos vivos.
Christopher Landon organiza seu filme a partir de uma premissa simples, utilizada ao extremo nos últimos anos, que guarda em si um número enorme de fracassos. A jornada do herói acompanha o trio de amigos, e escoteiros desde a infância, Ben (Tye Sheridan), Carter (Logan Miller) e Augie (Joey Morgan). Motivos de piada, Ben e Carter tentam fugir do acampamento para ir a uma festa secreta a procura de garotas, esforço ocorrido apenas para perceber que a cidade está infestada pelos mortos errantes.
Todos os aspectos que lhe são proibidos graças a pouco idade, passam a não ser mais alvos de transgressão. Se em Despertar dos Mortos, Romero aludia a prisão do homem junto ao capitalismo selvagem, Como Sobreviver a um Ataque Zumbi serve de símbolo de libertação sexual para os adolescentes, claro, sem apresentar qualquer seriedade em sua proposta. O primeiro destino da dupla é um bar de striptease, onde o intento de ver moças nuas não é totalmente alcançado, ainda que a valia da visita garanta a eles a ajuda da voluptuosa garçonete Denise (Sarah Dumont), que ruma junto a eles na direção de uma possível saída daquele pandemônio.
Como Sobreviver a um Ataque Zumbi2
A coleção de clichês relativos aos personagens é completamente ofuscada diante das gags cômicas sexuais absurdas, que brincam principalmente com os hormônios em ebulição dos rapazes. Mesmo o uso de estereótipos é funcional, vide a cena da invasão da casa de uma senhora dos gatos, incluindo aí o ataque de felinos zumbis.
Há até um cuidado da produção em usar poucas armas de fogo, predominando armas brancas e bugigangas improvisadas, semelhantes as usadas pelos irmãos Gecko em Um Drink no Inferno. Tal aspecto parece bobo, mas demanda uma preocupação com a lógica, ainda que a ideia do longa seja fazer troça com o conceito pop dos zumbis. A classificação indicativa alta é devido a violência extrema, já que mesmo aplacado pela aura de comédia, há muito do gore, além das citadas referências sexuais.
O resultado final de Como Sobreviver a um Ataque Zumbi é uma fita repleta de carisma, piadas inteligentes e repleto de celebridades como David Koechner, cujas situações não soam forçadas, por mais inverossímeis que possam parecer, com fatores que causam riso na platéia amarrados sob uma égide sacana, semelhante aos melhores e mais inspirados momentos de franquias como Porkys, American Pie e Picardias Estudantis, servindo como uma ótima paródia de um tema que se tornou tão popular nos últimos anos.
Nota:

Macbeth – Ambição e Guerra

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Adaptado de modo bastante fiel, Macbeth: Ambição e Guerra tem seus méritos em conseguir transpor em tela uma versão do clássico de William Shakespeare, ainda que seus acertos não ocorram necessariamente graças a direção de Justin Kurzel, que faz um trabalho interessante organizando todos os bons fatores do longa, deixando claro o quão a trama de glória e sangue é importante para o imaginário popular e o quão atual ela pode ser.
Desde o começo da pré-produção, os holofotes estavam sobre a dupla de intérpretes destacando o militar e personagem título executado por Michael Fassbender, enquanto Lady Macbeth é interpretada por Marion Cotillard. Tais personificações beiram a perfeição, fator que rivaliza com a bela direção de arte e fotografia pautada em tons vermelhos como as características positivas do filme. A construção deste tripé – arte, atuações e fotografia – fazem de toda a poesia e lirismo do texto teatral algo belo, visto poucas vezes em adaptações de peças.
A violência gráfica se faz presente, mostrando influencias de Kurzel indo desde a filmografia de Mel Gibson enquanto diretor – principalmente Coração Valente, na estética, e A Paixão de Cristo na emoção – além de fortificar os momentos canônicos do argumento original. O sangue se mistura com a ambição, resultando em uma amálgama que emula o drama até a atualidade, ainda que todos os méritos dessa atemporalidade fujam completamente ao trabalho do realizador, uma vez que Macbeth só foi refilmado graças ao bom texto do dramaturgo.
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No entanto, a complexidade passa longe dos esforços dos produtores. A fidelidade, que normalmente é um aspecto elogiável neste tipo de fita, soa covarde e conservadora, uma vez que do ponto de vista da história, pouco ou nada se acrescenta. O filme é monotônico, soando repetitivo graças a reverência exagerada da parte do cineasta.
A despeito de suas muitas qualidades positivas, a produção perde atração graças ao ritmo complicado, não tão grave quanto em alguns de seus pares recentes, tanto nos dramas épicos, como em filmes históricos semelhantes na ambientação da Idade Média. A escolha por manter intactos os diálogos é comum a outros tantos filmes shakesperianos, e poucas vezes faz tanto sentido como neste. Mesmo com tanta verve e sentimento, falta um elo sentimental entre o espectador e a obra, mesmo com a bela apresentação de Sean Harris e seu McDuff, o que é uma pena, já que o filme gerava uma expectativa enorme em seu entorno, resultando em uma obra mediana.
Nota:

domingo, 27 de dezembro de 2015

CHRIS BROWN – ROYALTY (2015)

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Brown surpreende em novo disco com postura mais madura e responsável, resultando em um som mais orgânico
Por Gabriel Sacramento
Do garoto de 16 anos que estreou com um disco autointitulado ao homem que agrediu fisicamente sua namorada – Rihanna –, Chris Brown passou por muita coisa. Por exemplo, durante esse período (2006-2009), o cantor lançou dois álbuns: o début (que leva o seu nome), que foi lançado em 2005 e outro que consolidou sua carreira, Exclusive, de 2007. Desde então, é comum ver seu nome entre as playlists de jovens e adolescentes no mundo inteiro. Sua aproximação e capacidade de fazer um tipo de música comercialmente lucrativo e que está na moda atualmente são os principais motivos.
Em 2011, ele lançou F.A.M.E, conquistando um sucesso não esperado, principalmente depois do incidente com a namorada que lhe gerou até mesmo condenação judicial. Então lançou mais dois: o quinto Fortune (2012) e o sexto X (2014). Seu sétimo disco, lançado em 18 de dezembro, leva o nome da sua filha: Royalty.
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A música de Brown é sempre associada aos padrões do R&B, hip-hop e pop contemporâneo. Mesmo manifestando desejo pelo resgate de sons oitentistas como os do Stevie Wonder, Michael Jackson e companhia, Brown permanece sempre em sua zona confortável, variando com cuidado dentro do seu espectro musical.
Estabelecendo uma fria comparação com tudo que já ouvi do Brown anteriormente, esse disco traz uma atitude mais madura do cantor com relação à sua musicalidade. Traz também tendências mais voltadas ao R&B, com toques de hip-hop e até mesmo leves nuances dos rastros dançantes da música setentista/oitentista americana. Em alguns momentos, o disco soa bem orgânico, tanto na parte instrumental quanto na parte dos vocais, contrariando algumas tendências esperadas, tendo em vista os discos anteriores.
“Back To Sleep” nos traz uma ênfase interessante no timbre vocal do Chris. Não tem um refrão excelente, mas um que funciona. Brown traz um pouco dos seus discos anteriores em “Anyway”, misturando momentos típicos de pistas de dança com momentos mais românticos do R&B. “Fine By Me” traz alguns arranjos bem interessantes e um refrão bem legal. É possível ouvir sutis frases de guitarra ao fundo. “Wrist” traz um arranjo simples e cheio de quebras, cedendo mais espaço para a voz do Brown. O baixo dá o tom de canções como “Make Love”, que é uma balada romântica bem sensual, com harmonias vocais quentes e precisas, com uma ótima performance de Brown. Novamente o baixo se destaca introduzindo “Zero”, que traz boas harmonias vocais e um refrão grudento, com guitarras suingadas ao fundo. Nesta, é possível notar a influência do funk clássico na sonoridade do cantor.
O disco é bem mais maduro do que os anteriores. Isso pode ter sido motivado pelo fato de Brown ser pai agora e buscar uma imagem mais responsável. Além de maturidade, este novo lançamento traz um ótimo trabalho vocal, com boas melodias, cativantes e pouco melosas. Também conta com belíssimas harmonias vocais, um trabalho bem preciso e admirável.
Brown apostou em uma sonoridade mais orgânica, se afastando dos excessos eletrônicos que marcavam seus discos anteriores. Aqui, é possível ouvir guitarras e baixos, fazendo soar como uma banda real tocando e não somente instrumentos programados. Isso foi estimulado pela influência do funk americano clássico, praticado por artistas como James Brown, Earth, Wind & Fire entre outros. O resgate aqui é sútil, mas agrada bastante.
Brown também investiu na dinâmica e criatividade de seus arranjos. Em vários momentos, ele brinca com climas diferentes, trazendo mais diferenciação do padrão típico do R&B. Soam bem dosados e aparecem nos momentos certos, complementando cada canção com o necessário. Também há presença de momentos mais suaves e calmos, que priorizam a voz crua, sem muitos efeitos realçando seu timbre.
As letras (algumas bem explícitas) falam sobre amor, relações amorosas cheias de sensualidade. A exceção é a linda letra que o Brown escreveu para sua filha em “A Little More”.
Royalty realmente vale a pena ser ouvido. Tem poder para agradar fãs de R&B, com um pouco de brilho que pretende chamar a atenção de ouvintes de atos famosos e clássicos como os já citados Stevie Wonder ou Michael Jackson. Mesmo com todas as polêmicas que o cantor se envolveu, ele parece buscar mais foco em sua música, sua arte, com um pouco mais de esmero neste novo trabalho.



Joy review: 'Jennifer Lawrence cleans up again'

Jennifer Lawrence and Bradley Cooper's third collaboration with David O Russell turns domestic drama into a funny, moving Golden Age pleasure
Jennifer Lawrence hasn’t won an Oscar for reading aloud from the phone book just yet, but she may be about to be nominated for selling a mop. There’s a scene in the middle of Joy, Lawrence’s third and latest film with David O. Russell – a biopic of Joy Mangano, the inventor of the Miracle Mop – in which Joy finds herself in front of the cameras on the QVC Shopping Network, clutching a plastic floor-scrubbing device of her own invention.
The name Miracle Mop is well-chosen. Joy’s entire life, let alone her linoleum, is sorely in need of divine intervention. Rudy (Robert De Niro), her exasperating father, has recently moved into her basement, after being dumped on the doorstep by his ex-partner like a malfunctioning washing machine. Her mother Carrie (Virginia Madsen), a kind of lace-edged satin pillowcase in human form, is horrified – as is Joy’s buffoonishly useless ex-husband Tony (Édgar Ramírez), who for the past two years has been very contentedly living in the basement by himself.
Inspiration for the Miracle Mop doesn’t so much strike as dawn – the first rays piercing the clouds when Joy is, as usual, cleaning up after this trio of adult children (this time, a couple of broken glassfuls of red wine, sloshed across the deck of her father’s new girlfriend’s boat: Joy’s three actual children are as good as gold by comparison).
As she wrings out the mop-head by hand, she looks down at her palms, pierced by glass and spotted with blooms of blood, and realises things have to change. In the long term, the answer is adequate support from her family, and acknowledgement of her impossible workload. But in the meantime, a mop that could squeeze itself out would be great.
Screwball mayhem: Robert De Niro, Jennifer Lawrence and Virginia Madsen in Joy
Screwball mayhem: Robert De Niro, Jennifer Lawrence and Virginia Madsen in JoyCredit: 20th Century Fox
Fast-forward to the present, and bang. This is the flashpoint, to quote Bradley Cooper’smustard-jacketed QVC executive, who’s hovering on the sidelines, at which “the ordinary meets the extraordinary” – where a dirty mop-head has the power to wring itself, and Joy’s similarly grimy existence starts to turn itself inside out. Caught in the glare of the studio lights, she fumbles to find the right words.
But soon, that miraculous mop-head is gliding across the floor, and the sales lines start to ring. For the first time in the 17 years since her parents divorced, Joy feels successful – and with that success comes a rush of vindication so heady it prickles in your eyes like electricity. Lawrenceis wiping up chocolate syrup and baby food, and it’s laugh-out-loud-ridiculously moving.
Since Joy is a David O. Russell film, the presence of a) Lawrence and b) bizarre, fizz-popping explosions of catharsis are to be expected. But the ringmaster of The Fighter, Silver Linings Playbook and American Hustle seems to have mellowed a little, which means fewer outright belly laughs, but a more layered and involving emotional landscape. (Though there are still some yelp-out-loud moments in Russell’s script – not least of all De Niro’s description of his ex-wife as “like a gas leak: we don’t see you, we don’t smell you, but you’re killing us all silently”, and a bizarre soap opera, all paste diamonds and plywood walls, that's constantly on televisions, as if it's being broadcast live around the clock.)
Russell is no stranger to using the extended family unit as a prefabricated framework for rackety screwball mayhem – the technique gave The Fighter and Silver Linings Playbook their most robustly enjoyable scenes, and here, he also puts it to expert use. Joy’s household is always full of faces: in addition to her parents, ex-husband and children, her envious half-sister Peggy (Elizabeth Röhm), her supportive grandmother (a superb, tremulously beautiful Diane Ladd, who also narrates), her best friend Jackie (Dascha Polanko), her father’s girlfriend and Miracle Mop’s main investor Trudy (Isabella Rossellini), and even a friendly Haitian plumber (Jimmy Jean-Louis) always seem to be around, as if they’ve just come tumbling out of the hallway cupboard.

Play!01:59
But it’s Lawrence’s liaison with the beautifully on-form Cooper that stay with you most – not because their relationship is all that romantic (in fact it’s largely professional), but because it brings a counterintuitive dignity and grace to what on the face of things seems to be a throwaway, eccentric tale.
Though he works for a cable TV shopping channel, Cooper’s character comports himself like a Golden Age Hollywood filmmaker – rhapsodising about old-school studio heads Jack Warner and Darryl F. Zanuck, and passionately urging his cameras mid-broadcast to “give me the hands” and “cut to the syrup”.
He likens his and Joy’s meeting to the moment the great director David O. Selznick met Jennifer Jones, a former hat model whose collaborations with Selznick made her a star of Classical Hollywood cinema – and Russell is drawing an additional, impertinent but irresistible parallel with his and Lawrence’s own creative alliance.
While the Golden Age may be long gone, its spirit endures in Joy. It’s the best kind of actor-director collaboration. Take the sum of its parts, double it, and you’re almost there.

Jurassic Park, review: 'swallows you whole'

Steven Spielberg's 1993 film transforms us all into awed six-year-olds, says Rebecca Hawkes
Is Jurassic Park the scariest, most exciting, most amazing film ever? While the rational answer is no, it probably isn’t, there’s something about Steven Spielberg’s adventure movie – especially, I suspect, for those of us who first saw it as children – that transforms us all into awed six-year-olds.
The film's technically magnificent, still impressive dinosaurs demand the superlatives preferred by children: biggest. Coolest. Scaliest. Sharpest. Hungriest. Pausing to analyse or reflect feels futile; it’s easier to just sit back and let the spectacle swallow you whole.
Laura Dern and Sam Neill tend to a triceratops in Jurassic Park
Laura Dern and Sam Neill tend to a triceratops in Jurassic ParkCredit: Everett/Rex
Jurassic Park, in fact, is very much a film about the act of looking. Before we see the Brachiosaurus, we see the expression of wonder on the face of Dr Alan Grant (Sam Neill) as he spots the herd. A frozen stare of horror pre-empts the reveal of a lurking Velociraptor. Because of this, it’s impossible not to be pulled in: we’re looking with the characters, seeing what they see, and trembling as they tremble.
Spielberg (in contrast to Colin Trevorrow, director of the more flamboyant 2015 sequel Jurassic World) also isn’t afraid to take a slow approach. After the dramatic opening shots, the first part of the film is restrained, taking time to craft the plot, teasing the appearance of the first dinosaurs until the audience is practically aching to see them. A similarly effective restraint heralds the arrival of the T-Rex. I suspect I’m not alone in having a love affair with scary films that can be traced back to a quivering glass of water, steady, thumping footsteps and a disappearing goat.
A dinosaur in Jurassic Park
Credit: Moviestore Collection/Rex Features
Those who sneer at the simplicity of the storyline – a basic “don’t mess with nature” parable, during which Dr Grant discovers his latent ability to act as a father figure – are missing the point. Jurassic Park is all about the big emotions: awe and terror, excitement and wonder. It feels very much like a big-screen film, even when watched on TV – and the 2013 3D release demonstrated that it had lost none of its potential to wow cinema audiences. The visual effects (groundbreaking in their day) still hold up remarkably well, and the performances are timeless.
Richard Attenborough, who died in 2014, will be remembered for many reasons – but, to a certain generation he will always be John Hammond, the man who dreamt of a dinosaur theme park.