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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A Viagem (Cloud Atlas)

por 

Filme dos irmãos Wachowski se perde em meio a vontade de querer impressionar.

Tudo que envolve o nome Wachowski ganha ares épicos na Hollywood de hoje. Não é por menos, os irmãos Andy e Lana revolucionaram o cinema em diversos sentidos com "Matrix", filme de imensa criatividade na roteirização, de destreza cinematográfica respeitável, e que foi copiado exaustivamente ano após ano.

Desde então, ambos - como diretores que são - ainda não repetiram o êxito deste seu mais famoso trabalho. Os últimos dois exemplares da trilogia "Matrix" ("Reload" e "Revolutions") não se equipararam (mas nem de perto) ao primeiro volume, e "Speed Racer" foi somente uma decepção acachapante - vale lembrar que como produtores eles deram vida a um eficiente "V de Vingança" e a um fraco "Ninja Assassino".

Dispostos então a impressionar, o irmão e irmã resolveram adaptar o livro "Cloud Atlas", de David Mitchell, que traz uma rebuscada história com diversos núcleos e personagens não tão distintos, que estão ligados pelo destino, como em uma sinfonia universal e espiritual, podemos assim dizer. E completando o pacote, Tom Tykwer também foi chamado para a direção (isso mesmo, o filme tem três diretores) - o cara possui no currículo ótimos títulos, como "Corra, Lola, Corra" e "Perfume - A História de um Assassino"Isso não fez do resultado algo menos sofrível.



Não é que o filme seja todo ruim, pois afinal os diretores sabem, acima de tudo, como filmar uma boa cena - dessas temos várias, que servem como uma espécie de muleta no final. Existe certa beleza peculiar em suas tomadas, todas regadas de muitos efeitos especiais, deixando tudo com um aspecto plástico, colorido e atraente. Toda a produção também se mostra impecável ao retratar diferentes épocas e ambientações. Um imenso e contundente trabalho de cenografia.

Só que os problemas começam quando a narrativa erroneamente escolhe correr na frente do espectador, não tentando ser enigmática, desconstrutiva ou não linear, mas apenas aleatória. Veja bem, eu não li o livro adaptado, mas como uma pessoa que pagou para ver o filme, percebo um roteiro nada orgânico. Obviamente a falta de contexto faz parte da trama, sendo que o resultado só é obtido claramente no final, e todas as ligações "cósmicas" são amarradas. Mas até lá, o que vemos é um descompassado amontoado de trechos e histórias que não conseguem se tornar atraentes, sendo a de Sonmi-451 a única mais relevante da fita, com seu desdobramento inteligente na vida dos personagens Zachry e Meronym.



Um dos erros cruciais da produção foi apostar na questão de transformar os mesmos atores em diversos personagens diferentes através de pesadas maquiagens. Em certos momentos o resultado é cômico, beirando o ridículo (senti falta do Eddie Murphy). Halle Berry em determinado segmento surge branca, a atriz oriental Doona Bae aparece como uma europeia de olhos verdes, Hugo Weaving se transveste de enfermeira musculosa... e por aí vai. O aspecto final destas incorporações errantes é estranhíssimo, quase bizarro. 

A verdade é que poucos são os atores que conseguem se desprender totalmente de sua própria personalidade em tantos papéis ao mesmo tempo, sendo que a mediocridade da interpretação de um personagem acaba minando as qualidades de outra interpretação do mesmo ator - a maioria do elenco simplesmente não convenceu. 



O único interprete que se sai surpreendentemente bem com todas suas personas éHugh Grant. O cara dá um show de atuação, principalmente com o desalmado Kona Chief. Já Tom Hanks em momento algum parece pertencer ao universo desta obra (nenhum deles, na verdade). Sua escolha como protagonista foi uma jogada extremamente errada para todas as partes - antes de me xingarem, saibam que admiro muito a carreira de Hanks, mas aqui? Verdade seja dita... ele não alcançou credibilidade alguma com suas perucas fajutas. (Veja só)

Resumindo: em seus excessivos 172 minutos, "Cloud Atlas" não desperta empatia alguma. Por mais que no final tenhamos interessantes resoluções, durante todo o longa as muitas linhas narrativas acabam atropelando umas as outras, e não se complementando de uma maneira diferenciada, como deveria ser. Enquanto isso, os atores, com suas caras carregadas de narizes falsos e perucas horríveis, nada podem fazer para tornar a história algo mais palatável. 

Talvez a linguagem de David Mitchell devesse ter ficado presa somente ao livro, onde aparentemente funciona melhor, pois deixa a cargo do leitor a construção visual dos personagens, e oferece, obviamente, mais profundidade à montagem da trama. No mais, este foi um exercício de desperdício de dinheiro e principalmente potencial. 

PS: Ainda estou esperando algo novamente relevante dos Wachowski.






A Viagem/ Cloud Atlas: Alemanha, EUA, Hong Kong, Singapore/ 2012/ 172 min/ Direção: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski/ Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Whishaw, Keith David, James D'Arcy, Susan Sarandon, Hugh Grant

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