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terça-feira, 24 de novembro de 2015

SHYE BEN TZUR, JONNY GREENWOOD, THE RAJASTHAN EXPRESS – JUNUN (2015)

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Música árabe engrossa o caldo de experiências e encontros do Oriente com o Ocidente
Por Lucas Scaliza
Com o que se parece a música pop árabe e indiana? Quem conhece a música do Oriente Médio e da Índia apenas pela intermediação das novelas, dos seriados e do cinema comercial já está habituado aos seus sabores e temperos. Há um modo bastante particular de cantar, um modo bastante particular de soar alegre e arranjos que nos trazem uma explosão de cores fortes à mente. Ouvir Junun, no entanto, é mergulhar um pouquinho mais fundo na música pop e com um lado experimental do oriente. Se você logo pensou naquelas músicas de lamentação ou de glorificação religiosa, que novelas e filmes gostam de mostrar, vai se surpreender ao ouvir uma música que mesmo diferente pode ser tão tocante quanto qualquer outra.
Junun, que significa “mania” ou “a loucura do amor”, é um encontro de músicos do oriente e do ocidente. Fotos no Instagram mostravam Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead, em salas de estúdio e locações orientais sem dar muitas pistas do que estava acontecendo. Como era sabido que o Radiohead aos poucos estava gravando seu disco novo, poderia ser algum tipo de pesquisa sonora para o vindouro trabalho dos ingleses. Mas como Jonny tem vários projetos paralelos – incluindo aí uma composição para uma orquestra sinfônica australiana – era melhor não afirmar nada muito cedo.
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O anúncio de Junun comprovou o que aquelas fotos mostravam: Greenwood e Nigel Godrich, produtor do Radiohead e de Thom Yorke em sua carreira solo, além de músico no Atoms For Peace, foram à Índia se unir a outros músicos para fazer música nova. O cantor israelense Shye Ben Tzur liderou essa empreitada, compondo as 13 faixas do álbum. Também foram escalados renomados músicos indianos, como o trompetista Aamir Bhiyani, os tocadores de nagara Nathu e Narsi Lal Solanki, o duo de vocal harmônico Zaki e Zarkir Ali Qawwal e vários outros que formaram sua grande banda de apoio, The Express Rajasthan, com 19 membros ao todo. O cineasta americano Paul Thomas Anderson (responsável por filmes como Sangue Negro, O MestreVício Inerente, que ganharam trilhas compostas por Greenwood) também voou para lá e fez um documentário de uma hora sobre o encontro.
O projeto é multiétnico, como já ficou claro. Nenhuma faixa está em inglês, dividindo-se entre os idiomas hebraico, urdu e hindi. A parte de Greenwood foi colocar guitarra base (os solos são feitos todos por sopros e cordas indianas, mas não pense que a guitarra dele não faz a diferença), baixo elétrico, teclados e baterias programadas que hora são usadas sozinhas na música e hora complementar a percussão sempre apimentada da banda de apoio. As gravações foram feitas no forte Meharangarh, um templo incrustado nas colinas da cidade de Jodhpur.
“Roked”, misturando a percussão indiana a processos eletrônicos, é quase como uma versão remix que algum DJ ocidental faria para uma música qualquer, incluindo a manipulação da voz, cortando os versos para criar uma sensação rítmica. Já a introdução de “Hu” é mais próxima do tradicional, com uma melodia feita com um instrumento de arco que dá espaço para uma música bem marcada por percussão e groove. Não estranhe se te der vontade de bater palmas no ritmo dela. “Eloah” é praticamente uma faixa vocal que vai ficando cada vez mais acelerada. A repetição do coro determina o ritmo crescente da canção e agrega mais amplitude estilística ao álbum.
A faixa-título “Junun”, que abre o disco, e “Modeh”, que o encerra, são pura alegria e cores, abertura e conclusão de respeito que não afastam o ouvinte ocidental, pegando-o pela mão e mostrando que dá para gostar, dá até para dançar, e que a língua estranha não é uma barreira tão grande assim. “Chala Vahi Des”, com vocais femininos de Afshana Khan e Razia Sultan, segue pelo mesmo caminho. Um sintetizador se infiltra em diversos momentos entre a percussão e os sopros para criar uma camada de som mais viajante com textura etérea. No terceiro ato, o baixo deixa a melodia padrão oriental e faz um riff quase funk. É apenas um detalhe, mas como este projeto é um encontro do ocidente com o oriente, faz toda a diferença.
Com quase nove minutos, “Kalandar” é uma faixa instrumental e experimental, uma viagem pela paisagem sonora árida e misteriosa do oriente, com direito a sopros ocos e sons de aves dividindo espaço com efeitos eletrônicos e virtuosismos instrumentais, mas nada que prejudique a magia dessa faixa rica em atmosfera. “Ahuvi” é outra faixa que leva o minimalismo ao projeto de uma maneira muito sensível. Atenção para a mixagem, que deixa um instrumento reverberar no falante esquerdo enquanto mantém o direito menos poluído. Já “Allah Elohim” deixa nítida a presença de Greenwood, seja na guitarra ou nas Ondas Martenot que enfeitam o refrão. Este é o mesmo instrumento que o músico usou em Kid AHail To The Thief e na composição da trilha deSangue Negro, sendo recuperado mais uma vez. É o mais próximo que Junun produziu de uma versão oriental de uma faixa do Radiohead, com o perdão da redução, pois a faixa é um primor por si só.
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A presença de Greenwood e de Godrich, assim como do cineasta PTA, poderá atrair mais ocidentais do mundo pop/rock para o trabalho e, embora seja um disco muito bem gravado, bonito e delicioso de ouvir, não tem os parâmetros pop que ocidentais se acostumaram a prezar e a esperar da maior parte da produção musical que resolvem tentar escutar. Assim, seja qual for o motivo que te leva a Junun, mantenha os ouvidos abertos e a mente mais aberta ainda. O estranhamento é normal, mas necessário para entendermos a beleza de outra cultura milenar. Também é interessante tentar imaginar o que Junun significa para um indiano, paquistanês, iraniano ou qualquer outro ouvinte da música popular oriental. Para eles, pode soar como uma música contaminada pelas experiências ocidentais e soar igualmente estranho, mas não posso garantir que já não exista uma série de experimentações na música gravada do outro lado do planeta.
Fato é que Junun de Greenwood, The Rajasthan Express e Shye Ben Tzur entra para o diminuto rol de música boa e sofisticada com viés antropológico também praticada recentemente pelos norueguês do Gazpacho com Molok, pelo inglês Steve Hackett (ex-Genesis) em Wolflight e pelo trompetista de jazz Ibrahim Maalouf em Kalthoum, todos trabalhos que envolvem uma extensa pesquisa por diferentes tradições culturais que determinam diferentes técnicas musicais a serem utilizadas e, claro, a produção de sons novos tanto para quem produz a obra quanto para o consumidor final.
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