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sábado, 28 de novembro de 2015

Bronson

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Primeiramente, o filme "Bronson" tinha tudo para dar certo. Vamos começar falando do contundente diretor Nicolas Winding Refn, que há pouco ganhou o prêmio de melhor direção em Cannes com seu filme "Driver", e também demonstrou muita ousadia com o visceral e silencioso "Vahalla Rising", longa que explora as entranhas dos bárbaros europeus durante o início do cristianismo. 

Em "Bronson", Winding opta pelo tom surreal e sempre claustrofóbico em suas cenas. Acompanhado por uma trilha sonora orquestral pesada, desde o começo da película o espectador literalmente sente medo do que está por vir, tudo isso alicerçado por um roteiro inspirado, que passeia livremente pela mente perturbada de seu personagem.

Em segundo falemos de Tom Hardy, eficiente ator britânico que, depois de sua interpretação ensandecida em "Bronson", iniciou uma parceria mais que positiva com ninguém menos que Cristopher Nolan, sendo que ele já possui "A Origem" em seu currículo e em breve interpretará o vilão Bane no filme que fecha a trilogia "Batman Nolan". Jason Statham chegou a ser cogitado para o papel, mas não pode devido a sua agenda lotada, o que no final acabou sendo o correto, pois sem a encarnação mais que verossímil de Hardy, o filme definitivamente não seria o mesmo. 

Por fim, temos Charles Bronson e sua história absurdamente real. Ele pode não ter feito nenhum "Desejo de Matar", mas com certeza exemplifica o sentimento com perfeição. Nascido Michael Peterson, este individuo maluco foi ironicamente ovacionado como "o preso mais violento do Reino Unido"... E isso era tudo que ele queria. 


Sua vida atrás das grades começou quando o mesmo tinha 19 anos, mas precisamente em 1974. Ele roubou alguns dólares de uma agência de correio e acabou pegando sete gordos anos de reclusão por isso. Uma vez dentro da prisão, Peterson pegou afeto pelo confinamento, retomou seu nome artístico dos tempos de boxes de rua (Charles Bronson: uma espécie de alterego psicótico na verdade) e então iniciou a construção de sua lenda. Os sete primeiros anos se transformaram em 14 devido a diversas situações com reféns e muita violência gratuita. Ele passou a maior parte deste tempo na solitária.  

No dia 30 de outubro de 1988 Bronson foi solto. Aproveitou 69 dias como um homem livre até ser preso novamente por roubo. Hoje já são mais de 34 anos de cadeia, 30 deles na solitária. Sua sentença é perpétua, sendo que o fato mais irônico é: ele nunca matou ninguém. No entanto foi o catalisador de eventos incrivelmente absurdos, como rebeliões com incêndios,  protestos em telhados por dias a fio, e (novamente) incontáveis situações com reféns.

Em certa ocasião chegou a requisitar uma boneca inflável, um helicóptero e uma xícara de chá como resgate, já em outro exigia ser chamado de general e dizia que iria comer rapidamente um de seus reféns. E não termina por aí, ele já chegou a pedir um avião direto para Cuba, duas submetralhadoras Uzi, 5,000 cápsulas de munição e um machado. Por vezes ele apenas cantava "Yellow Submarine", e nos tribunais se dizia "culpado como Hitler". Em 2001 se casou pela segunda vez com Fatema Saira Rehman. O inusitado foi que, no período ele se converteu ao islamismo e desejou ser chamado de Charles Ali Ahmed. Quatro anos depois ele estava separado e havia renunciado ao islã. Todos esses acontecimentos foram dissecados ao extremo pela mídia inglesa, sempre voraz e louca por banalidades. 


No entanto o filme de Winding não explora nem 1/3 de toda está loucura, pois se foca em tentar apresentar os motivos por trás da edificação desta mente perturbada, como a alienação da classe baixa britânica e seu eterno culto corrosivo as celebridades. Mas é claro, momentos de extrema violência e humor negro estão presentes, e acredite, por mais alucinantes que pareçam, são todos muito próximos da realidade.

Muitos catalogaram o filme como sendo um novo "Laranja Mecânica". Exageros a parte, a obra passeia sim pelo espírito do clássico de Kubrick, vindo para perturbar ao invés de agradar. Já a linguagem pode até conter algumas influências (principalmente na trilha e no andamento), mais no geral ele possui uma personalidade própria bem forte. 

E para enfatizar toda esta polêmica, uma gravação ilegal, contendo a voz de Bronson, foi executada na première do longa. Aparentemente o diretor coletou mais do que informações em suas visitas ao detento. A construção da lenda se completava.


Essa exposição trouxe Bronson novamente para o centro dos holofotes, mas ele já estava acostumado, pois em todos estes anos de reclusão o indivíduo foi tema de livros e entrevistas, além dele mesmo ser o vencedor de alguns prêmios literários, tendo lançado 11 livros no total. Alguns deles são inteiramente dedicados ao amor que possui por treinamentos físicos ("Solitary Fitness", por exemplo) e como gosta de praticá-los em espaços confinados. 

Até hoje Bronson se orgulha de ser o preso mais caro e deturpado do Reino Unido. Já passou por 120 prisões diferentes, além de três hospitais psiquiátricos de segurança máxima. Em 1999 ele ganhou uma unidade prisional própria, que dividia com outros dois detentos de alta periculosidade.

No final, o filme "Bronson" quase desaparece na sombra desta figura extremamente insana, mas acaba sendo muito bem sucedido em explorar os recôncavos da mente do anti-herói clássico. Bronson sempre foi um artista, ele sempre quis se comunicar, mas acima de tudo, assim como todos nós, ele buscava ser amado, buscava contato humano... E espancar seu semelhante era a única forma dele conseguir isso.


Bronson: Inglaterra/ 2008/ 92 min/ Direção: Nicolas Winding Refn/ Elenco: Tom Hardy, Kelly Adams, Luing Andrews, Katy Barker, Holly Lucas, Juliet Oldfield

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