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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Dupla Dinâmica de Animações

por 

O Cavaleiro das Trevas: Parte 1 (Batman: The Dark Knight Returns, Part 1)

A proposta de "O Cavaleiro das Trevas: Parte 1" é definitivamente ousada. Ela busca adaptar a história de "Batman - O Cavaleiro das Trevas", talvez a mais significativa HQ do homem morcego já lançada, que foi escrita e desenhada pelo mestre Frank Miller. A importância da obra original é imensa, não só para o personagem (na época em que foi publicada), mas também para o universo dos quadrinhos em geral, sendo um divisor d'águas ao lado de "Watchmen", de Alan Moore. E além disso tudo, ela serviu como uma forte influência para a trilogia de Nolan - épica, digamos de passagem.

Na trama vemos um Bruce Wayne envelhecido e extremamente amargurado. Já se "comemoravam" 10 anos da última aparição do Cavaleiro das Trevas, e ele não se sentia confortável nesta aposentadoria "forçada". No entanto, Ghotam City parece viver de discórdia. A cidade que um dia se viu livre do crime, novamente volta a sofrer com a violência de uma gangue, nomeada pela mídia usurpadora como "Os Mutantes". Mediante a também aposentadoria do comissário Gordon, com 70 anos de idade, este seria o momento do vigilante retornar mais uma vez para o campo de batalha. Mas as variáveis agora são outras, e Batman terá de lidar não só com as debilidades de seu corpo, mas também de sua mente. 

Claramente que, ao se adaptar uma peça clássica como essa para outra mídia, problemas ocorreriam. O estilo da animação busca se aproximar do traço de Miller, mas o resultado nunca se iguala totalmente. Algumas cenas importantes não estão presentes, o "voice over" do protagonista foi limado - e com ele os melhores trechos do texto -, e no geral, existem condensações que acabam por não exemplificar perfeitamente o espírito da obra original, como por exemplo a mídia, que na HQ se revela mais sarcástica e desalmada (citando apenas um exemplo).

Mas é impossível negar que o filme não seja um entretenimento com qualidades visíveis. De sua maneira, violenta e gráfica, ele consegue divertir, apesar destas destoantes características. O trabalho dos dubladores é competente - sendo os destaques o ator Peter Weller (o Alex Murphy de "Robocop") como Wayne/Batman, e Ariel Winter (a Alex Dunphy da série "Modern Family") como Robin/ Carrie Kelley. A ótima trilha sonora lembra muito a de Hans Zimmer, e a direção de Jay Oliva (que já participou na produção de outras animações do personagem, como "Batman Contra o Capuz-Vermelho" e "Batman: Ano Um" ) acaba se mostrando satisfatória, tendo em vista a responsabilidade da missão, e também a dificuldade da transposição.

"O Cavaleiro das Trevas: Parte 1" poderia ser melhor, isso fica claro. Talvez o maior problema seja o ritmo acelerado, que acaba não trazendo a reflexão e verve poética de Miller. Em compensação, a iniciativa da adaptação é louvável, e como entretenimento funciona.


O Cavaleiro das Trevas: Parte 1/ Batman: The Dark Knight Returns, Part 1: EUA/ 2012/ 76 min/ Direção: Jay Oliva/ Elenco: Peter Weller, Ariel Winter, Savid Selby, Wade Williams, Carlos Alazraqui, Dee Bradley Baker, Paget Brewster 


Batman: Ano Um (Batman: Year One)

E servindo como um contraponto capcioso para "O Cavaleiro das Trevas: Parte 1", temos a excepcional animação "Batman: Ano Um", dirigida por Sam Liu ("Planet Hulk") e Lauren Montgomery ("A Morte do Superman"). Em um período onde a emblemática origem de Batman - exposta de forma operística por Christopher Nolan em "Batman Begins"-, parecia definitiva, este longa vem para oferecer outro ponto de vista. 

A obra é uma adaptação da HQ homônima - também muito importante para o personagem - que foi escrita (novamente) por Frank Miller, com arte de David Mazzucchelli, Richmond Lewis e Todd Klein. Ela explora de maneira mais pessimista e "dark" o surgimento do herói, o domínio do medo e o simbolismo do morcego. A maior diferença entre este "Ano Um" e o "Begins" de Nolan é a forma que Wayne acaba sendo inspirado pela imagem do morcego - uma emblemática cena em que o animal estilhaça uma vidraça e se posta iconicamente para Bruce (algo quase sobrenatural).

Paralelamente, vemos o interessante início de carreira de Gordon, que chega em Ghotam com sua esposa grávida e enfrenta a dura corrupção da cidade, sofrendo represálias por simplesmente ser um cara honesto. Temos então o alicerce da parceria entre vigilante e futuro comissário, e a busca da dupla rumo a extinção do crime que domina o local.

Além de Jim Gordon estar visualmente parecido com o Walter do "Breaking Bad" (principalmente nos momentos de surto), ele também é dublado pelo ator Bryan Cranston, sempre excelente. O time de dubladores conta ainda com profissionais experientes como Katee Sackhoff ("Battlestar Galactica"), Eliza Dushku ("Dollhouse"), Jon Polito ("O Grande Lebowski"), Alex Rocco ("O Poderoso Chefão") e Ben McKenzie ("O.C. - Um Estranho no Paraíso").

Os traços da animação de "Batman: Ano Um" são mais eficientes e atraentes do que os vistos em "O Cavaleiro das Trevas: Parte 1" - a ótima escolha da paleta de cores, que caminha por tons de um amarelo queimado, faz da obra algo delineado na memória. A roteirização da trama também é mais elaborada, oferecendo uma argumentação de enfoque pensante e sombrio, violento e realista. Enfim, entre as duas animações, esta é a obra superior. 


Batman: Ano Um/ Batman: Year One: EUA/ 2011/ 64 min/ Direção: Sam Liu/ Elenco: Bryan Cranston, Ben McKenzie, Eliza Dushku, Jon Polito, Alex Rocco, Kate Sackhoff

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