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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

SILVA – JÚPITER (2015)

silva jupiter 2015

Terceiro disco do cantor capixaba traz fuga para Júpiter endossada numa sonoridade r&b minimalista
por brunochair
Uma das primeiras resenhas publicadas neste blog, quando do seu lançamento, foi sobre o segundo álbum da carreira do Silva, chamado Vista Pro Mar. A crítica foi bem positiva na época, tanto que o disco foi selecionado entre os vinte melhores de 2014, segundo a nossa avaliação. Silva conseguiu, em Vista Pro Mar, comprovar que tinha bala na agulha – não era “o artista de um disco só”. Conseguiu reinventar-se, propor uma estética bastante distinta daquela que existia emClaridão, o seu disco de estreia.
Por falar em estética, fato é que os dois primeiros álbuns do Silva possuíam uma coesão, explorada desde a capa do disco, passando pelas letras e (sobretudo) a musicalidade. Características estas que o próprio cantor conseguia explorar com maestria nos shows ao vivo: enquanto as músicas do Claridão vinham marcadas pelo vermelho da inquietude e da ânsia em promover-se compositor, as de Vista Pro Mar surgiam no azul, que remetia àquela tranquilidade de um fim de tarde na praia.
Essa coesão estética (seguida desta característica peculiar de cada disco) ofereciam um show bastante envolvente ao público, repleto de possibilidades. Nestes dois discos, temos Silva desenvolvendo uma sonoridade singular, que transformou o cantor e compositor em um dos artistas brasileiros mais interessantes surgidos nesta década. Obviamente que o cantor não formou-se, assim, “do nada”: as influências do pop autoral brasileiro dos anos 80 e do synthpop internacional mais contemporâneo são (em boa parte) responsáveis por tornarem Silva o que hoje ele é.
(Ou o que ele tinha sido, até agora)
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Júpiter, o terceiro disco do Silva, traz outro disco “singular” do cantor capixaba. Há uma nova proposta musical que é sentida e notada a cada faixa que passamos a ouvir: trata-se de um álbum muito mais simples e econômico que os dois primeiros, trabalha muito menos com os instrumentos acústicos e desenvolve uma proposta mais próxima ao synthpop. Ainda assim, não podemos perder de vista o caráter minimalista das canções, o que desencadeia num protagonismo maior das letras e da performance vocal de Silva.
Júpiter, segundo carta do próprio cantor escrita ao fim da gravação do disco, trata-se não de um espaço, lugar ou planeta definido, e sim uma alegoria: “é um lugar onde o amor tem a possibilidade de vencer, sem adiamentos ou desculpas”. A partir desta representação, Silva procura desenvolver as onze canções do disco, sendo que a primeira delas dá nome ao disco, “Júpiter”.
A ideia de fugir para as montanhas, planetas ou lugares indefinidos diante de qualquer adversidade que surja não é bem inovadora: vem desde o fugere urbem de Horácio, passa pelos árcades, bem como pelo “Vou-me Embora Pra Passárgada”, do poeta brasileiro Manuel Bandeira. O tema é representado em literatura, cinema, séries, filosofia e pode até ganhar uma nova roupagem, mas Júpiter acaba sendo usado por Silva neste disco como um local fictício, sci-fi, apropriado pelo cantor até por conta do interesse em boa parte do público em relação aos mistérios do Cosmos.
Ainda sobre “Júpiter”, a canção intro do disco, fica evidente esta roupagem mais synthpop do cantor, além da influência do r&b neste terceiro álbum. Silva parece acompanhar, com atenção, as novidades que vem de fora: artistas como Frank Ocean, Night BedsChet FakerThe Weeknd,Sohn e Miguel são algumas das influências diretas para Silva, ou ao menos artistas que o brasileiro pode ter ouvido para construir o seu referencial musical para este terceiro álbum. Uma questão (crucial) que se coloca neste momento é: como trazer toda esta influência do r&b para o português, para a música brasileira (e, claro) para a sonoridade do Silva?
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É neste ponto que o disco parece “patinar”. A apropriação destas referências não foi tão “maturada” quanto deveria. Para fazer esta decodificação do r&b para a nossa linguagem, Silva acabou por não criar novos referenciais, e sim por copiar aquilo que já foi produzido no Brasil sob esta mesma intenção/condição. Neste sentido, não há como deixar de enfatizar a proximidade de Silva com o pop dos anos 90 de Lulu Santos, Marina Lima, Marisa Monte, Patrícia Marx, Maurício Manieri e até Claudinho & Buchecha.
Talvez o fã mais “cool” do Silva esteja torcendo o nariz agora, mas as referências musicais brasileiras são estas, mesmo!
Aceita que dói menos.
O problema de Júpiter não são os referenciais e nem mesmo o minimalismo, mas o resultado estético do álbum, que não conseguiu ser inovador ao mesmo nível dos dois primeiros discos. Parece que faltou a Silva amadurecer mais a ideia, trabalhar as canções com um pouco mais de cuidado – o que ocorreu em Vista Pro Mar, quando o cantor foi para Portugal encerrar o processo de produção do disco.
Mesmo não sendo brilhante, Júpiter possui boas letras e conta com um Silva mais atuante, performático. “Sufoco”, a segunda música do disco, possui um sampler que lembrou bastante algumas músicas do Bombay Bicycle Club. Das músicas desta fase r&b, é a mais equilibrada, talvez mais “madura” e mais autoral. “Sou Desse Jeito” foge um pouco dessa pseudo-estética deJúpiter, faz alusão a um Silva que existiu nos dois primeiros discos.
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“Nas Horas” soa meio anacrônica, parece muito mais uma música do início dos anos 2000. O refrão é um tanto clichê, também. Mas não tem como negar que é uma boa canção, um soul lento e poderoso que dá vontade de cantarolar. É um single que, se bem aproveitado, vai fazer um grande sucesso e pode atingir a uma faixa de público que ainda não conhece a ele. “Marina” é outro acerto do disco, uma regravação da música de Dorival Caymmi, que ganhou uma roupagem indie e deixou a música bem “fofinha”. “Notícias” traz um poema-desabafo de Silva, que termina nesta ideia de fuga, que está presente em alguns momentos de Júpiter: “Eu vou seguir pra onde houver ar puro / Junto de uma gente que quer encontrar / Algum lugar, um rumo / Se eu ficar aqui eu vou pirar”.
Enfim, em Júpiter Silva defende uma proposta estético-musical distinta dos dois discos anteriores, o que prova ser ele um artista interessante e irrequieto. Porém, o disco não apresentou as mesmas qualidades que os dois primeiros discos, estando menos inventivo e um pouco confuso na proposta. Talvez tenha faltado dar um pouco mais de tempo para as músicas, para que elas pudessem mostrar ao cantor uma outra Júpiter, condizente com o estado de espírito do planeta e dele próprio. Ainda assim, há boas letras, boas ideias, boas composições.
Vale a pena pegar uma carona na nave de Silva e aportar no maior planeta do sistema solar, sem dúvidas.
jupiter

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