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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O Homem Duplicado (Enemy)


por 


"O caos é uma ordem por decifrar"

A primeira impressão do surreal O Homem Duplicado (e estou falando daquela impressão que vem imediatamente com os créditos finais, sabe?) é de que o filme, apesar de interessante tecnicamente, falhou em suas intenções. Esta é uma percepção precoce, pois a sobrevida da obra em nosso inconsciente é impressionante, e gera uma satisfatória teorização e discussão dos argumentos apresentados.


A trama, adaptada da obra homônima de José Saramago, gira em torno de Adam e Anthony, homens idênticos, que por "algum motivo" não são simplesmente gêmeos perdidos. Quando os dois se deparam com esta realidade duplicada, um desejo ávido por respostas começa a perturbá-los. Só que neste estranho momento de suas vidas, respostas não se fazem uma opção tão simples.


A luxúria é uma dominante inquietação de ambos. Distorções de identidade criam complexos e lúdicos caminhos, que servem como tentativas de redimir a culpa do desejo que sentem por mulheres proibidas. Eles não parecem satisfeitos com o que têm, e como ouroboros, traçam um movimento cíclico, uma dança de aparências em que não se sabe ao certo onde um termina e o outro começa. E assim outra vez.




O trabalho foi conduzido pelo canadense Denis Villeneuve, profissional de qualidades autorais e técnicas bastante evidentes, tendo em vista seus ótimos filmes Os Suspeitos e Incêndios. Sua linguagem obtém aparência mórbida quando a fotografia amarelada queima com frieza paisagens bucólicas, oriundas de uma Toronto estranhamente perdida em outra dimensão. A atenção de Villeneuve com a transmutação da cidade é de fato um ponto de destaque. Ele consegue fazer do local uma lembrança incômoda, um lugar desumanizado. E a trilha sonora imersiva completa a montagem do cenário.


Mas apesar do andamento ser correto –
 dentro da morosidade contemplativa que oferta , é possível perceber que durante toda projeção, a audiência não recebe o incentivo narrativo necessário para relevar a estranheza da surrealidade. Fica a impressão de que o filme tenta te enganar, vendendo-se como um suspense comum, mas que na verdade, lentamente, se revela algo subjetivo. Isso gera certo atrito.



No entanto, outro ponto que favorece O Homem Duplicado é a surpreendente interpretação de Jake Gyllenhaal. É fácil esquecer o fato de que o mesmo ator personifica os dois protagonistas – algo similar ao papel de Jeremy Irons emGêmeos - Mórbida Semelhança. Enfim, um trabalho eficiente do intérprete nesta segunda parceria com Villeneuve (ele também participou de Os Suspeitos).


Resumo da obra: O Homem Duplicado oferece extremo afinco técnico/interpretativo. A história encontra, durante determinado período, certa dificuldade de se fundamentar como peça surreal, porém, quase contraditoriamente, a direção focada de Villeneuve valoriza toda a relevância do tema de Saramago, fazendo com que estas ideias e perguntas permaneçam na mente de todos, em constante processo de elucidação. Recomendado. 






O Homem Duplicado/ Enemy: 2013/ Canadá, Espanha/ 90 min/ Direção: Denis Villeneuve/ Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini

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