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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

50% (50/50)

por 

Estar ao lado de uma pessoa jovem - nos seus vinte poucos anos - que luta contra o câncer é com certeza uma experiência transformadora. Concepções de vida se alteram de forma drástica, momentos tristes vão definitivamente rolar, mas nosso amadurecimento como pessoa é óbvio quando percebemos como somos frágeis. O filme "50%" fala exatamente sobre isso, mas seu grande mérito é expor de forma realista e pouco melodramática esta jornada rumo à vida ou morte.  

Adam é um rapaz de 27 anos que descobre um tumor maligno raro em sua coluna. O cara é sinônimo de saúde: não fuma, não bebe, faz exercícios, ele até recicla pelo amor de deus! Mas a verdade é que este mal não escolhe suas vítimas somente por seus hábitos, existe uma espécie de loteria em que todos nós, de uma hora para outra, podemos ser sorteados. 

Mesmo afetado pelo medo de um futuro ínfimo, Adam tenta tocar seu dia a dia de forma normal, mas o problema (e a solução) são os outros. O amigo brucutu Kyle não sabe muito bem como reagir, e adota a postura “50% de chance de sobrevivência? Pensei que seria pior”. Já a mãe super protetora Diane, acostumada com os percalços da vida (o marido tem Alzheimer), parte para cima do garoto com um instinto maternal sufocante. Isso sem contar os colegas de trabalho que, ao invés de um homem, enxergam um cadáver ambulante perante eles.

Sofrendo com os efeitos da quimioterapia, o jovem passa por todas as fases psicológicas da doença, acompanhado sempre de perto pela inexperiente e ao mesmo tempo adorável terapeuta Katherine. Ele então se arrepende de sua vida pouco vivida, ele nem mesmo tirou habilitação devido à alta taxa de acidentes. Para piorar, sua atual namorada não lida com a situação de forma humana, digamos assim, literalmente enterrando o cara no fundo do poço. A verdade é que Adam é filho único, super protegido, super estigmatizado, e suas escolhas por mulheres de caráter duvidoso são um reflexo, na verdade uma contraposição, da relação que tem com a mãe.


E depois de uma corajosa (mas ilusória) aceitação, vem o medo. É quando a ficha realmente cai, não só para Adam, mas para todos ao seu redor, que até então lidavam com a situação de forma surreal. É difícil conceber de imediato todo o significado de se presenciar um jovem sendo vítima de um câncer, mesmo ele estando debilitado e careca. É mais do que nossa mente pode processar, por um tempo.

"50%", necessariamente, sofre de uma ligeira crise de identidade na hora de estabelecer seu gênero, pelo menos até sua primeira metade. Apesar de obviamente ser uma comédia dramática, o estilo juvenil de humor - que ganha vida principalmente com o personagem Kyle – pode em alguns momentos esbarrar de forma um pouco brusca com a seriedade do tema "câncer". Mas esta estranheza é o grande diferencial da obra, que não tenta por panos quentes na situação em momento algum. A "discrepância" não prejudica o resultado, muito pelo contrário, faz com que no final o longa evolua gradativamente, amadurecendo mediante os fatos, alcançando assim a medida perfeita entre sua dramaticidade não apelativa e o humor esculachado, conseguindo, acima de tudo, ser relevante para quem já vivenciou o tema.


Contendo momentos impagáveis e politicamente incorretos, o filme abusa do humor negro e do uso de drogas “medicinais”. Adam em certo momento tenta descolar uma transa usando o fato de estar doente, em outro, caminha pelo hospital chapado de bombons de maconha dando risada de corpos ensacados.  Uma das melhores piadas do filme brinca com a morte de um famoso ator americano. Uma liberdade total de pensamento. Já nas horas dramáticas somos tocados principalmente pelos medos e angústias do personagem, pela impotência dos amigos e familiares diante da doença do jovem, e pela concepção de que uma vida cheia de possibilidades pode chegar ao fim sem nenhuma razão plausível.

A direção de Jonathan Levine é descompromissada e corajosa. Utilizando uma iluminação interna elogiável, Levine se foca nos detalhes, enfatiza as interpretações e valoriza, acima de tudo, o excepcional texto de Will Reiser, que usou sua própria história como base para o roteiro. 

Joseph Gordon-Levitt se mostra a escolha perfeita para o papel principal. Seu Adam lembra muito o personagem Cameron, de “10 Coisas que Odeio em Você”, um garoto extremamente bonzinho (sendo algumas vezes manipulável) e que sente atração por garotas que não lhe dão muita bola. Agora, com grandes obras em seu currículo, o ator eleva tranquilamente o nível do filme como protagonista, utilizando toda sua flexibilidade para o humor e drama.

Já Seth Rogen faz sempre o mesmo papel, o que neste caso funciona. Kyle é um grande idiota, no entanto é um amigo inseparável. Completamente sem noção da realidade, suas reações são a transcrição literal de como a maioria dos homens agiria em uma situação como essa. Trabalhando melhor seu lado dramático, é interessante analisar a química desta dupla improvável. 

Entre as mulheres os destaques são: Anjelica Huston como a alucinada e protetora mãe Diane; Bryce Dallas Howard adiciona mais uma vilã a seu histórico com a namorada (um tanto quanto desnecessária) Rachel; e por fim Anna Kendrik surge extremamente simpática com a desorganizada Dra. Katherine. As cenas entre Kendrik e Gordon-Levitt são o ponto alto das interpretações. Ritmo perfeito entre eles. 

No final, “50%” começa esculachando e termina emocionando, algo difícil se formos analisar o humor extremamente despojado que serviu como base para o filme. Com um roteiro criativo e um diretor que sabe aproveitar ótimas interpretações, a história é importante por não valorizar a tristeza obrigatoriamente ligada ao câncer, mas sim destacar o lado mais humano de todos nós, aquele que se compadece pela tristeza alheia, que tenta ser positivo mesmo quando tudo indica o contrário, que ri nervoso para não chorar, que sofre calado sem entender direito o que está sentido, que tem medo da morte, mas que enfrenta com coragem seu destino, pois afinal, vai fazer o que né?

Confira o trailer:
   


50%/ 50/50: Estados Unidos/ 2011/ 100 min/ Direção: Jonathan Levine/ Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Seth Rogen, Anna Kendrick, Bryce Dallas Howard, Anjelica Huston, Matt Frewer, Philip Baker Hall

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