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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Filme : A Gangue (2014)

Enquanto escrevo esta crítica, a minha televisão está ligada em um canal aleatório. O programa que está no ar é um noticiário. Como o aparelho de TV está sem som, não sei se estão falando da última alta do dólar ou de alguma rebelião em curso em um presídio ou reformatório para jovens. Ao fundo, lá da cozinha, vem o ruído de uma furadeira (minha casa está em obra). Da rua, volta e meia, ouço o barulho de um carro passando apressadamente, da freada de um ônibus ou do latido de um cachorro. Isto sem falar da chuva que não para de cair. Estes sons são absolutamente comuns para qualquer pessoa com uma audição normal. Às vezes nem nos damos conta deles por puro costume. 

Está tudo ali, uma vasta poluição sonora, uma mistura de ondas mecânicas e se quisermos distinguir umas da outras, precisamos nos concentrar. Por este parágrafo inicial, dá para, mais ou menos, imaginar o que nos reserva A Gangue, uma produção ucraniano-holandesa ganhadora do prêmio da Semana da Crítica de Cannes, em 2014. Obra de estréia do cineasta Myroslav Slabospytskiy como diretor de longas, o filme mostra o cotidiano de Sergey (Grigoriy Fessenko), um jovem surdo, a partir do momento em que ele se muda para um internato de pessoas com a mesma deficiência dele. Uma vez dentro, a necessidade de sobreviver o leva a participar de um grupo que, entre outras coisas, pratica assaltos e prostitui meninas. Tudo corre bem até a entrada em cena de Anna (Yana Novikova), a amante do líder da gangue. A inusitada, devido à maneira como começa, paixão entre eles trará muitos problemas para o protagonista. Estrelado por surdos e mudos, o filme nos remete imediatamente a sensação que procurei descrever acima, na introdução deste texto. Os únicos sons que escutamos são originários da rua, do ranger de passos ou batidas nas portas. Não há falas. Há comunicação por meio da linguagem de sinais. Olhar para os atores se comunicando desta forma é como olhar o apresentador de um telejornal em uma televisão muda: você sabe que eles estão falando, mas não sabe o que. Como também não há legendas, entender a história que se desenrola ao longo dos seus criativos 132 minutos exige a mesma concentração que precisamos ter quando queremos distinguir as ondas mecânicas que formam a poluição sonora diária. Para além de sua originalidade, A Gangue, obra que usa e abusa dos planos-sequência e foi filmada com steadicam, possui uma trama pesada, capaz de gerar repulsa nos espectadores mais sensíveis. Assaltos e prostituição são só dois de seus temas polêmicos. Com uma violência crescente que culmina numa epifania de sangue e dor, estupro, aborto e assassinatos são mostrados com crueza impressionante. Diante deste quadro, é natural que surja a seguinte pergunta: qual era a intenção do diretor? Denunciar tais barbaridades gestadas em uma instituição que deveria zelar pelos jovens que as cometem ou puro exibicionismo do sofrimento alheio? Difícil de responder, logo, prefiro me ater à certeza de que a coerência com que a história foi construída justifica as ações do protagonista e o desfecho chocante, independentemente do objetivo de seu realizador. Desliguem os celulares e excelente diversão.


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