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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O VISITANTE DO ASTEROIDE B-612 de Miguel Carqueija

O visitante do Asteroide B612




“Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.”
(A Raposa para o Pequeno Príncipe)



Resenha do livro “O Pequeno Príncipe” (Le Petit Prince) de Antoine de Saint-Exupèry. Editora Agir, Rio de Janeiro, 1958 (quinta edição). Capa e ilustrações internas: aquarelas do autor. Tradução: Dom Marcos Barbosa. Edição original da Librairie Gallimard.


Recebi este livro como presente de Natal oferecido por Laís e Carlos Artur, amigos da família, quando eu contava dez anos. Até hoje conservo o meu exemplar, encardido sim, mas inteiro e, provavelmente me sobreviverá. Sim, foi dado como presente a um menino, mas com o tempo descobri que também se trata de obra para adultos. Nas entrelinhas está a leitura adulta do Petit Prince, que inspirou já tantas adaptações para o cinema e a televisão, inclusive uma recentíssima.
Em certa época se dizia no Brasil que “O Pequeno Príncipe” era o livro favorito das nossas misses – e francamente não sei se tal informação ajudou ou prejudicou a fama da novela. Como quer que seja este tão belo livro, publicado originalmente na França em 1943, hoje é reconhecido como uma das obras seminais do século XX, comparável por sua importância a “1984” de George Orwell, “Deuses, túmulos e sábios”, de C.W. Ceram, “Mater et Magister” de S.João XXIII e “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa.
Antoine de Saint-Exupèry, além de grande literato, foi aviador e amava profundamente esta atividade, que retrata em seus vários livros como “Correio Sul”. Apesar da idade (mais de 40 anos na época) quis ser piloto na II Guerra, combatendo o Eixo, e seu avião desapareceu no deserto do Saara em 1944; seu corpo não foi encontrado.
Curiosamente, o personagem narrador de “O Pequeno Príncipe” é um aviador – ou seja o próprio Antoine – e seu avião cai no deserto, onde o piloto, enquanto tentava consertá-lo (o que demandará mais de uma semana) encontra o principezinho com seu traje curioso, seu cachecol, e sua conversa misteriosa. Como se, por milagrosa premonição, o autor adivinhasse o seu destino próximo, cair no deserto para ali morrer e encontrar o Autor da vida, o próprio Cristo (de quem o Príncipe é um símbolo).
A Terra foi, na verdade, a última parada do Pequeno Príncipe em seu périplo pelo espaço desde o seu mundo de origem, o pequeno asteroide B612. E as várias paradas em diversos asteroides mostram deliciosos clichês de tipos humanos, todos masculinos, Saint-Exupèry não quis satirizar as mulheres. As ironias são deliciosas, como eu disse. Já começa quando o viajante chega no asteroide habitado por um rei que, ao vê-lo, vai logo dizendo: “Ah! Eis um súdito!” O Pequeno Príncipe estranha essa afirmação, pois eles nem se conheciam, ao que a narrativa esclarece:

“Ele não sabia que, para os reis, o mundo é muito simplificado. Todos os homens são súditos.”

Porém mesmo apreciando os diversos tipos do rei, do bêbado, do geógrafo, do homem de negócios, do vaidoso, minha simpatia maior vai para o acendedor de lampião que, em sua modéstia e humildade, fala mais de perto ao homem comum, ao trabalhador de ambos os sexos, preso muitas vezes a rotinas massacrantes. O personagem em questão tinha por ofício acender o lampião de poste à noite e apagá-lo pela manhã. Era o que dizia o regulamento. Só que o pequeno astro começou a girar cada vez mais depressa e, por fim, o homenzinho não tinha mais descanso, pois a cada minuto tinha de acender ou apagar a luminária, tal a velocidade que a rotação havia atingido. E o regulamento não mudava!

“ — Ah! Que engraçado! Os dias aqui duram um minuto!
— Não é nada engraçado — disse o acendedor. — Já faz um mês que estamos conversando.”


Mas, o motivo da peregrinação do principezinho, que afinal o levará ao nosso imenso planeta, é repleto de significados que tocam de perto os sentimentos profundos. Havia uma rosa no asteroide B612, uma rosa que talvez represente a faceirice das mulheres, que falava com o Príncipe e que ele tentava proteger, cuidar. Mas decepcionara-se com ela, com suas atitudes orgulhosas, e resolvera deixar o planetoide e viajar pelo espaço. Acompanha-o porém, o remorso, a saudade por ter deixado sozinha a sua flor, para a qual um dia ele voltará.
É claro que a novela não explica como uma flor podia falar, ou como podiam falar a raposa e a serpente que o príncipe encontra na Terra, ou como asteroides tão pequenos que podiam ser percorridos numa caminhada rápida poderiam ter gravidade, ar e habitantes, quem fornecia as garrafas de bebida alcoólica ao beberrão, quem fizera o regulamento para o acendedor de lampião, quem coroara aquele rei etc. Impossível racionalizar com “O Pequeno Príncipe” apesar dos aspectos de ficção científica — afinal, o personagem é um ET — porque na verdade o símbolo fala mais alto que a verossimilhança. Um símbolo que afinal nos remete à mensagem do Cristianismo, como se vê na morte do Pequeno Príncipe e sua ressurreição, pois o seu corpo, como o de Cristo, não foi m ais encontrado...
A filosofia do Pequeno Príncipe é singela e sublime, mostrando aos poucos como as coisas mais importantes na vida não são necessariamente as mais óbvias e absorventes:

“Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o dia todo repete como tu: “Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!” e isso o faz inchar-se de orgulho. Mas ele não é um homem, é um cogumelo!”

E nós outros? Somos seres humanos ou cogumelos?
Tive o privilégio de conhecer o tradutor brasileiro de “Le Petit Prince”, o monge Dom Marcos Barbosa, do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, o monge-poeta como o chamavam, autor da letra do hino do Congresso Eucarístico Internacional realizado nesta mesma cidade em 1955, e que veio a ser membro da Academia Brasileira de Letras.

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